Dei-me conta de quanto uma injustiça mexe com o meu humor quando tentei rever, e pela segunda vez, o filme A caça. Entendi que já havia sofrido o bastante com o protagonista da ótima produção dinamarquesa – não valeria a pena revisitar a obra.
E olha que eu gosto demais de rever bons filmes, ainda que lhes conheça o desfecho, antes do famoso “the end”, que me frustrava nas sessões domingueiras da minha infância/adolescência, no Plaza (Poço), e no São Luiz (Centro). Para que vocês tenham uma ideia de como sou dominado por esse vício, Amarcord, de Fellini, eu já vi mais de dez vezes. Pouco, ainda se comparadas com as deliciosas e emocionantes sessões de Luzes da cidade, do mais adorável Vagabundo.
Na semana passada, devorei o livro-reportagem de Paulo Markun, Recurso Final. É um trabalho meticuloso sobre o caso Cancellier, o reitor da Universidade Federal de Santa Catarina que se matou em 2 de outubro de 2017, pouco mais de duas semanas depois de ser preso, sob a acusação de liderar uma organização criminosa que teria desviado R$ 80 milhões, em recursos públicos, destinados a um programa de educação a distância. Esta foi a premissa da investigação da Polícia Federal, que recebeu o aval do MPF e, por fim, da Justiça Federal.
Recomendo o livro e evito spoiler, mas lhes aviso que é preciso despir-se de sentimentos mais agudos ao ler a história dessa tragédia: as instituições envolvidas, assim como os participantes da intriga acadêmica, além da imprensa, haveriam de assinar esse enredo.
Eu passei a ter grande interesse pelo Caso Cancellier após ouvir de uma conhecida autoridade local, operadora do direito, a justificativa para o gesto extremo do reitor – que havia sido proibido de entrar no Campus da UFSC: “Ele estava com depressão”, simples assim. A culpa passaria, portanto, para o lado daquele que não podia mais se defender. Hoje lhe perguntaria (o que não fiz então): ainda que a depressão esteja presente na imensa maioria dos casos de suicídio, qual o percentual de pessoas que enfrentam essa doença séria e se matam?
Talvez fosse mais sensato e humano entender o que disse Quintus Septimius Florens Tertullianus, ou apenas Tertuliano, em Apologética: “Pensai antes em fazer o sangue subir o rosto de um homem do que em derramá-lo”. De fato, quando a injustiça se une à Justiça, não há muitas opções para a vítima – e nenhuma delas pode ser considerada a melhor.
Ao abordar o tema, é inevitável lembrar Émile Zola e o seu pequeno-grande livro J’Accuse! A verdade em marcha. Trata-se de um conjunto de cartas e artigos que denunciaram o Estado francês pela criminosa prisão do capitão do Exército, Alfred Dreyfus, acusado de vender segredos militares da França à Alemanha, no final do século 19. Não é demais lembrar que o oficial, vítima do espetáculo de justiçamento midiático, era judeu, o que na Europa de então foi decisivo para a prisão.
"Não há infortúnio mais doloroso, no homem honesto, do que sofrer o martírio da sua honestidade", escreveu Zola, para concluir em seguida:
- Um erro judiciário é uma força em marcha.
E esta força, aliás, as últimas forças do escritor francês, foram destinadas a combater o mal que lhe corroía a alma. Ele próprio, vítima do Estado francês, foi definhando até morrer, ainda que com a consciência aliviada e serena (os que erraram no caso, estou certo, também dormiam o sono dos “justos”).
Para este e para tantos outros episódios similares e dolorosos, mesmo que de repercussão apenas em pequenos grupos sociais ou familiares, valeria a boutade de H.L Mencken, jornalista americano, iconoclasta, morto em 1956, que escreveu em O livro dos insultos:
“É relativamente fácil suportar a injustiça. O mais difícil é suportar a justiça.”
Quantos já não ficaram no meio do caminho?
A verdade em marcha
16/01/2022, 06:50 - Ricardo Mota
Por redação

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