E deu muito, temos de reconhecer.
Agora, o Ministério Público Federal abriu 12 inquéritos com base na CPI da Covid-19, do Senado, concluída no final de outubro.
É bom, mas é ruim.
Bom porque fica claro que há vasta documentação e fundamentação naquilo que foi apurado pelos senadores, num trabalho exaustivo, com assessoria e cidadãos que se dispuseram a ajudar. Não é, pois, prontamente descartável para o MPF.
Ruim porque a sequência não haverá de resultar em grande coisa, principalmente para os grandes responsáveis pela demora na compra das vacinas e pela permanência - entre outras coisas más - da terapia da estupidez: cloroquina, invermectina e Xarope de ovo de vaca da Terra quadrada, na pandemia.
Objetivamente, objetivamente: a CPI da Covid já deu o que tinha de dar.
O quê?
Acelerou a compra de vacinas, expôs um esquema de desvio da grana pública, na iminência de ser perpetrado, no Ministério da Saúde, onde – apontaram os senadores – estava instalada uma organização que não se dedicava à caridade.
Não conseguiu, a comissão - como nada nem ninguém conseguirá -, convencer os bolsonaristas de que a Covid não é uma gripezinha, é uma que mata e já matou mais de 600 mil brasileiros. A negação é uma questão de fé para a turma – ainda que fé dirigida para o objeto errado (os persas adoravam um meteorito, o que parece mais sensato do que o louvor ao Doutor Jair).
Sempre foi muito mais fácil espalhar a ignorância do que o conhecimento, na história da humanidade. E nisso Bolsonaro é um expert, sendo ele próprio “o governante mais ignorante sobre tudo e qualquer coisa em atividade”, na afirmação de Steven Levitsky, professor de Harvard e um dos autores de Como as democracias morrem – um livro atualíssimo.
O presidente do Brasil é autor de um enredo de realidade paralela “vivida” por milhões de seguidores, que encontraram a sua tribo virtual e se pintaram para a guerra contra tudo e contra todos.
Ainda há o rastro do bolsonarismo negacionista (redundância), representado hoje pelo ministro Queiroga, um homem que resolveu renunciar à sensatez e abdicar da honra profissional, numa fase da vida que não dá para refazer a biografia.
Quanto ao MPF, com seus ótimos quadros, é lembrar que a instituição tem como chefe supremo o PGR Aras, que ergueu altares ao seus superior e disse desde sempre para o que veio - e principalmente para o que não veio.
Há de se dizer: - A CPI não fez mais do que a sua obrigação.
É verdade, mas pelo menos não estamos mais obrigados a ouvir a estultice cloroquínica/ivermectínica, uma epidemia que também mata e da qual o resto do mundo já se curou há muito tempo.