Confesso que não carrego grande peso na consciência por ser tão pouco sociável, apesar de continuar atazanando a vida de amigos e queridos, de forma geral, diariamente e pelo celular. É verdade que já me cobraram demais pelas ausências em eventos públicos e em comemorações rotineiras, mas os que me conhecem mais de perto e me guardam em afeto já aceitam como “não” um “vamos ver”.
Fato concreto é que eu não rendo grande coisa no papo coletivo ou quando me sinto pouco à vontade no ambiente. Já fui bom nisso, mas há algumas décadas, perdi o fio que me ligava a todos e a qualquer um. Sei que passamos mais tempo das nossas vidas com conhecidos, colegas - sem que sejam inimigos - do que com aqueles de quem gostamos sem reservas. Cada vez mais, porém, a paciência escapole celeremente quando me deparo com personagens cuja argumentação se presta tão somente a birras, desavenças, bocejos e/ou sorrisos amarelos (para mim e para eles).
Já não sinto, e faz tempo, a necessidade de vencer um embate/debate/porfia, seja com quem for – menos ainda com aqueles que guardam as palavras tão perto da boca.
E se nada tenho a dizer sobre a conversa proposta, por ignorância ou por desinteresse, ou se o papo vai criando espinhos rapidamente, o melhor é antecipar o adeus. A vida é pouca demais para se gastar em desencontros. Ora direis: “Sois um misantropo!”. E eu vos direi, no entanto: lembro Montaigne, para quem “a multidão me desgosta” (assumo a culpa e a minha sentença).
As minhas ausências vão se acumulando – sem lamentações, creio. Não por conta dos amigos, mas entendo que é uma péssima ideia misturar agrupamentos humanos distintos em comemorações conjuntas. Cada um deles constrói sua própria cultura, tem sua agenda, linguagem e código. É claro que não trato, aqui, de uma aritmética do comportamento humano, mas pode ser desastroso juntar a turma do trabalho com os "amigos" do futebol.
Amizade é algo que exige bem mais cuidados do que a desafeição, e se cremos na nossa individualidade, haveremos de respeitar e aceitar a alheia, mesmo que seja uma identidade de grupo.
E aí chega o final de ano, tempo de amigo secreto. Ótimo para o comércio. Mas, cá para nós: não conheço ninguém que tenha ganhado um único amigo na troca de presentes-surpresa, ao passo que são enormes as chances de se fazer um duradouro desafeto ao se errar na dose e no gosto da pessoa escolhida (vem cá: será que existe algum túmulo do amigo desconhecido?).
Alguém já disse que é impossível viver sem um pouquinho de hipocrisia. Acho até que há razão no dito, mas a força do tempo me empurra mais e mais para o difícil e inóspito território do "não engano se não gosto”. A idade apronta - para o bem e para o mal.
Paixão secreta? Até sim, todos passaram ou passam por essas experiências. São secretas porque inconfessáveis, porque vão além do querer estar junto, de compartilhar uma conversa sem truques e sem medo. O apaixonado quer mais, e mais, no caso, pode ser demais para o grande público.
Digo-lhes, sendo verdade, que não tenho amigos ocultos a quem dar presentes, tornando-me (ainda mais) um chato para vendedores de felicidade fluida. A todos os meus afetos sempre fiz questão de dizer o quanto gosto deles e como os admiro - com ou sem presentes e ainda que ausente.
É uma fraqueza, eu sei, mas não consigo guardar segredo dos meus bem-quereres.
Amigo revelado
19/12/2021, 07:00 - Ricardo Mota
Por redação
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