Como quaisquer seres vivos, as palavras nascem, crescem, envelhecem e, muitas vezes, morrem. É verdade que nem sempre o destino final das gentes atinge essas criaturas, principalmente as que sabem bem a alguns paladares (as palavras têm sabor, creio): chiste, flerte, blague – são algumas velhas senhoras que me chegam sempre plenas de juventude, e eu as abraço com grande prazer e alguma intimidade.
Mas, claro, me deparo cada vez mais com as novidades do vernáculo, em qualquer idioma, ressalto, nesses tempos de rede mundial. Uma palavra da hora é catfishing, uma nova e atualizada denominação para o velho estelionato – este, agora, nas redes sociais.
Ela nos chega como definição para os golpes de falsidade ideológica no mundo virtual. O caso mais conhecido - que já virou um clássico - é o do jogador de vôlei italiano Roberto Cazzaniga, que acreditou estar namorando uma modelo brasileira, Alessandra Ambrosio, virtualmente e durante 15 anos, sem ter com ela qualquer contato físico – olho no olho, sussurros ao ouvido, o tato trêmulo na pele de pelo eriçado, a língua buliçosa, a boca vazando saliva (paro por aqui, em nome dos “bons costumes”), não tomaram parte no romance!
O golpe, amplamente divulgado pelo noticiário internacional, lhe custou R$ 4,3 milhões, dinheiro que foi parar na conta da vigarista que ludibriou o amante apaixonado, cheio de piedade e dor pela “doença grave” da mulher imaginada e nunca vista ou tocada, pessoalmente.
De fato, é difícil não ficar espantado com um enredo tão surreal: quinze anos é tempo demais para alguém ser enganado de forma tão absurda. Solidão, carência afetiva, baixa autoestima, pouca intimidade com a espécie, credulidade infantil, tudo pode explicar, mas nada parece justificar o ocorrido. Nem para ele.
Senhoras e senhores, digo-vos sem pejo, conheci dois casos semelhantes ocorridos com pessoas próximas, admiráveis, profissionais reconhecidos até nacionalmente, que se apaixonaram perdidamente, seduzidos que foram por calientes redes sociais (vale muito ver o filme Ela, com Joaquim Phoenix). O enredo, a que eu tive a oportunidade de ouvir por ambos, de viva voz e sincera narrativa, era o mesmo: mulher jovem, bonita, rica e.... Com uma doença terminal, eis o busílis da conquista. Paixão e compaixão se fundindo numa só palavra, eterna enquanto durou.
Ao primeiro, alertei para a possibilidade de uma ficção. E isso tem alguns anos. Ao outro, contei que já conhecia a história, e fui recebido com fúria e desaforos desproporcionais. Confirmando, aliás, o escritor Jonathan Swift (autor do delicioso As viagem de Gulliver), para quem é impossível demover uma pessoa com argumentos racionais de uma posição que ela não havia adotado por força de argumentos racionais (você lembrou-se da política nacional, não foi?). É verdade que somos seres emocionais, mas as emoções não bastam para nos colocar e viabilizar na vida.
As redes sociais escancararam as misérias e vulnerabilidades humanas, está posto. Estas, porém, sempre nos habitaram. Poderia comprová-lo, se possível fosse, o grande compositor brasileiro Lamartine Babo, vítima da mesma embromação, muito antes que a palavra computador fosse inventada e ganhasse vida própria e o mundo.
Era a segunda metade da década de 1930, e o Lalá, já famoso em todo o país, começou a receber cartas de amor (como elas fazem falta!) da apaixonada Nadir, moradora de Boa Esperança, cidade do sul de Minas Gerais. O autor dos hinos dos times cariocas (o do Flu sendo o mais belo) não resistiu aos apelos do coração acelerado e foi em busca da mulher amada, ainda que desconhecida.
Que pena! Não a encontrou, mas deu de frente com Carlos Netto, um dentista que era fã do autor de tantas marchinhas carnavalescas (Linda Morena, O teu cabelo não nega), que resolveu brincar com o coração do velho poeta, como ghostwriter de uma paixão a distância.
Tudo terminou bem, após as devidas apresentações e explicações. Ambos se tornaram amigos de copo e de cruz, e o romance da Boa Esperança rendeu uma das mais belas canções do seu tempo. Com a colaboração de Carlos Netto, Lamartine Babo escreveu os versos (de Serra da Boa Esperança) que lhe bastariam para justificar seu erro individual com uma confissão universal:
Nós, os poetas, erramos porque rimamos também
Os nossos olhos nos olhos de alguém que não vem.
Quanto aos meus dois queridos amigos, eles nunca trocaram olhares e afagos com a sedutora moribunda. Pior, não tiveram a poesia para consolá-los.
O romance da Boa Esperança
12/12/2021, 07:00 - Ricardo Mota
Por redação
Comentários
Os comentários são de inteira responsabilidade dos autores, não representando em qualquer instância a opinião do Cada Minuto ou de seus colaboradores. Para maiores informações, leia nossa política de privacidade.
Carregando comentários..