Morre o cartunista Ota, famoso pela revista 'Mad', aos 67 anos

O Globo|
Cartunista Ota
Cartunista Ota / Foto: Arquivo pessoal

Morreu nesta sexta-feira (24), o cartunista, quadrinista e editor Ota, atuante desde os anos 1970 e grande destaque na edição brasileira da revista de humor "Mad". Otacílio Costa d’Assunção Barros, nascido no Rio de Janeiro em 1954, tinha 67 anos.

O corpo do ilustrador foi encontrado em seu apartamento na Rua Ernani Cotrim, na Tijuca, Zona Norte do Rio. A morte foi confirmada ao GLOBO por pessoas próximas. Vizinhos estavam sem contato havia cinco dias com o cartunista, e os bombeiros foram acionados. Ao arrombarem a porta do apartamento, encontraram o artista morto.

Para o quadrinista e roteirista Arnaldo Branco, é grande a importância de Ota no cenário brasileiro:

— A importância dele é tremenda. Foi o primeiro contato de várias gerações com o humor gráfico, graças a seu trabalho na "Mad", que era como um "Pasquim" pra adolescente. Fora seu trabalho como tradutor e editor de vários quadrinhos nacionais e estrangeiros — diz Branco. — Ele influenciou muito o meu trabalho. Todo desenhista de traço, vamos dizer assim, econômico deve demais ao Ota. Ele me encorajava a ser direto, cru e infame.

Branco acrescenta que conheceu Ota  assim que começou a publicar:

— Era uma figura, maluco e querido. Era amado por todo mundo na cena, nunca ouvi ninguém falar uma palavra negativa sobre ele.

Marcelo Martinez, roteirista, cartunista e designer gráfico, conta que "Ota era o cartunista mais rápido do oeste".

— Era capaz de, no meio de uma conversa, sacar uma caneta, desenhar uma piada em um guardanapo e guardar de volta no bolso no colete: "depois eu passo a limpo". Mas o desenho já estava pronto! — recorda Martinez. — Ota organizou um monte de eventos. Lançou muita gente no mercado, sempre repetindo que "para ficar bom, tem que publicar.  Porque o cara vê o trabalho impresso e entende o que podia ficar melhor".

Martinez acrescenta que "para todos nós, Ota era imortal".

— Conheci o Ota numa palestra, quando estava no primeiro período da faculdade, em 1990. No final, pedi para mostrar meus desenhos. Ele disse "prepara um material e leva na editora." Fiz isso e cheguei lá uma semana depois, com a pasta caprichada. Ele: "Pô, tô saindo pra almoçar, mas deixa eu ver: isso não, isso não, isso sim. Deixa aqui e passa depois para pegar o cheque." — recorda. — Estou sem ação. Perco meu primeiro editor, o cara que apostou nas minhas piadas, que me ligava pra pedir uma dica de fonte tipográfica e emendava o papo com ideias de revistas malucas que nunca faria.
 

Trajetória

Formado em jornalismo na UFRJ, ota ingressou na icônica Editora Brasil-América Latina (EBAL) em 1970, permanecendo até o final de 1973, quando entrou para a Editora Vecchi. No mesmo ano, lançou pela editora Górrion três edições totalmente autorais da revista "Os Birutas", cujos personagens também foram publicados como tiras diárias no período entre 1972 e 73. Nessa mesma época colaborou para publicações underground como "A Roleta", "Vírus" e "A mosca".

Em 1974 se tornou o editor responsável pela versão brasileira da revista humorística americana "Mad", que marcaria sua carreira. Na edição nacional do título, ele publicava os populares "Relatórios Ota", onde assinava arte e texto, combinado traço simples e piadas mordazes para dar sua visão sarcástica a temas do momento.

Permaneceria na função enquanto a revista mudava de editora, passando pela Record (1984-2000), Mythos (2000-2006) e Panini (2008). Ao sair da Panini, declarou que iria leiloar todo o acervo relacionado à "Mad".

Ota também foi editor da cultuada revista de terror "Spektro" a partir de 1977, até o fechamento da Vecchi, em 1983. Em 1984, publicou pela Record o livro "O quadrinho erótico de Carlos Zéfiro", uma análise que ajudou a firmar o reconhecimento em torno dos "catecismos".

Um apaixonado pela história dos quadrinhos, ele foi responsável pelas reedições de "Luluzinha" e "Recruta Zero" pela Pixel, além de ser responsável pela coleção de álbuns do personagem Asterix pela Record.

Em 1994, recebeu o prêmio de Melhor Revista Independente no Troféu HQ Mix pelo título "Revista do Ota", que teve apenas um número. Em 2005, assinou no Jornal do Brasil uma coluna sobre quadrinhos e, no ano seguinte, começa a publicar a tira Concursino para o jornal Folha Dirigida.

Publicou de forma independente o e-book "A garota bipolar - o começo de tudo" em 2016. Em 2020, foi bem-sucedido o financiamento coletivo para publicação em papel da série, que aguarda lançamento.

Seu último trabalho público começou há quatro meses: em junho de 2021, passou a publicar tiras sobre a vida universitária no site da Faculdade Campos Elíseos, de São Paulo.

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