Enem registra menor número de inscrições desde 2007 e professores analisam cenário da educação

Maria Luiza Lúcio |
Enem pra quem? Da periferia ao quilombo, estudantes relatam drama para entrar na universidade
Enem pra quem? Da periferia ao quilombo, estudantes relatam drama para entrar na universidade / Foto: Divulgação

O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2021, registrou nesta edição o menor número de inscritos desde 2007, com dois milhões de inscritos a menos do que ano passado, segundo informações divulgadas pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).

Ao CadaMinuto, professores de pré-vestibulares falam os possíveis motivos dessa redução no número de inscritos, as mudanças percebidas entre quem vive nesse meio e os impactos dessas mudanças para a educação.

O professor de ensino médio e cursos preparatórios para vestibular, Deividy Carlos, acredita que a redução no número de inscrições está relacionada à pandemia e ao sistema deficitário de aulas híbridas, com possibilidade de ensino presencial e virtual, da educação pública.

“Alagoas, por exemplo, ainda não retornou. A proposta que tem para um retorno da educação no modelo híbrido é agora para agosto, ou seja, um mês depois do fim da inscrição. Muitos alunos ainda estão mais de um ano sem ter um contato efetivo com a sala de aula, com a estrutura de uma escola. Isso afeta nitidamente o contato que o aluno tem com o ensino médio”, explica.

Ele conta que durante 10 anos em sala de aula, era muito natural durante esse período, o aluno já no primeiro ano querer fazer o Enem, mas após quase um ano sem o contato professor, aluno, estrutura de escola, acabou afetando essa esses hábitos porque não havia incentivo.

Além disso, Deividy associa as falhas na aplicação do último Enem com a dispersão por parte dos alunos.

“Uma parcela significativa dos alunos que estão em aula remota, não estão em aula. A realidade do nosso estado, assim como em outros, é extremamente desigual. Tem alunos que ainda não tiveram tempo e estrutura para se manter, se adequar e não tem uma estrutura para aula remota, com tecnologia e acesso à internet”, destaca o professor.

Questionado sobre uma possível mudança na procura de alunos interessados no curso, ele diz que é “nítida e clara”. Segundo Deividy, mesmo com as adaptações para o modelo híbrido e seguindo os protocolos sanitários, a procura por um preparatório de vestibular, diminuiu se comparado a outros anos.

 Deividy Carlos. Foto: Cedido

“Se nós olharmos organismos internacionais, a educação vai sofrer um abalo que só vai ser recuperado lá pro final do século. O desempenho, o resultado, a média, a vontade, o ritmo como um todo do aluno foi afetado, então nós temos uma procura muito baixa, infelizmente, e os impactos dessa redução para educação é imensa”, destaca.

“Com todas as situações de não valorização da educação, reflete hoje no vestibular mais importante do país ter tão pouca adesão. Seja pelos treineiros que tinham uma vontade de começar um ritmo, seja aqueles que não fizeram, não conseguiram fazer. É possível que a ausência de uma campanha mais enfática sobre o Enem seja reflexo, o valor da inscrição, todo esse conjunto”,

Ele também acredita que para essa nova edição da prova, será possível acompanhar um aumento nas notas de cortes e uma concorrência mais intensa.

De acordo com o professor de isoladas Jorge Lôbo, a baixa adesão ao exame está relacionada a questões estruturais, como o agravamento da pandemia do Covid-19, a letalidade e todo cenário de 2021, que já superou o do ano passado, onde o ENEM fora adiado.

“Além disso, estamos com a permanência dos problemas dos anos anteriores que dizem respeito à não integração tecnológica, como o fato de quase metade das alunas e alunos do Brasil sequer terem acesso à internet”, explica.

Ele afirma que, na atual conjuntura, apesar dos esforços da iniciativa privada, com os protocolos para retornarem as aulas presenciais sem previsão de vacinação para a comunidade escolar, são ineficazes e aumentam o risco.

“As datas para as provas permanecem em 21 e 28 de novembro mesmo com a maioria do corpo discente não tendo aula. Em minha opinião, este exame nacional segue na esteira de um profundo sucateamento promovido pelas autoridades que abertamente sabotam a prova e que representou, no passado recente, a porta de entrada de milhões de jovens aos estudos e ao mercado de trabalho com dignidade e excelência”, declara o professor.

 Jorge Lôbo. Foto: Cedido

Jorge também lembra que a prova irá acontecer, mais uma vez, com as autoridades responsáveis ignorando a consulta pública feita à comunidade de estudantes no ano passado.

Segundo ele, a redução na procura dos cursos preparatórios está associada aos atuais índices de desemprego, à precarização das relações de trabalho e às falências dos pequenos e microempresários, devido à falta de políticas públicas para garantir a contenção da pandemia e a manutenção de uma economia estável.

“Observamos no setor privado, falo como funcionário e microempresário, uma violenta queda nos rendimentos e um aumento nos custos operacionais para adequação ao dito ‘novo normal’”, afirma Jorge.

“Apesar das famílias costumarem investir em educação, mesmo com a crise, é fato que para muitas pessoas simplesmente não é mais possível arcar com certas despesas. A taxa de inscrição a R$ 85,00, algo em torno de 9% de um salário mínimo, será um impeditivo ou um desestímulo a fazer esta prova que garantiria a entrada em uma universidade pública brasileira”, declara.

O professor destaca, ainda, que o cenário atual aponta para alguns problemas a longo prazo, como evasão escolar, diminuição da renda e da qualidade de vida com empregos mais precários.

“Há o custo para o país de uma geração que terá dificuldades em socializar, ler, interpretar

e até desenvolver competências e habilidades fundamentais à cidadania. Veremos um maior afunilamento da universidade que será menos democrática e mais fechada à alunos da escola pública”, finaliza.

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