Os partidos políticos tem exatamente um ano para fazer suas preparações para o período eleitoral, principalmente sobre a composição com a abertura da janela partidária. Mas  a pandemia e a preocupação com a vacinação provocam uma reduzida movimentação política se comparado a outros períodos pré-eleitorais. Tanto em nível nacional quanto local, as negociações envolvendo trocas de partidos e pré-candidaturas não estão fortes no país atualmente.

A cientista política, Luciana Santana, coloca que em um nível local, “mesmo a gente sabendo que desde a última eleição municipal já tínhamos algumas pretensões eleitorais, não significa que há mudanças definitivas. Isso ainda não é o principal tema dos partidos políticos hoje ”, explica.

Desde as eleições de 2020, o sistema de coligação proporcional entre partidos esteve proibido para ocupação dos cargos no Poder Legislativo, constituído por senadores, deputados federais e estaduais e vereadores.

Com as antigas regras, os partidos menores e maiores faziam alianças para obter vantagens. Dentre elas, quanto maior a coligação, mais tempo os políticos teriam para propaganda eleitoral gratuita em rádio e TV. Além disso, as eleições proporcionais consideravam os votos dos partidos e candidatos, o que aumentava as chances de eleição.

Por esse motivo, Luciana acredita que será visto um maior número de partidos na disputa aos cargos majoritários, com o objetivo de aumentar a visibilidade de seus candidatos para deputados federais e estaduais. “Isso a gente deve ver, com certeza, não só em Alagoas, mas em outros estados”, diz a cientista.

Luciana Santana 

Já com relação a eleição para o governo do Estado, Santana esclarece que há um cenário de incertezas. Nos bastidores, possivelmente, existem discussões a respeito, mas não ainda não é a prioridade dos principais atores políticos.

“O governador ainda não deu indícios se vai sair ou não no início do próximo ano para se candidatar ao Senado. Ainda existe a possibilidade do Rodrigo Cunha tentar o governo ou mesmo do Arthur Lira", afirma.

Destaca, ainda, a necessidade, tanto em Alagoas como em outros estados, de aguardar como se dará o enfrentamento da pandemia durante esse ano, que irá prevalecer, no mínimo, até o segundo semestre. Apenas assim, será possível analisar de forma mais clara as movimentações e intenções .

Sobre as eleições presidenciais, Luciana admite só haver dois nomes certos: o de Jair Bolsonaro, para tentar a reeleição, e de Luiz Inácio Lula da Silva, se sua candidatura não for inviabilizada novamente. Para além disso, não é possível afirmar, efetivamente, quem irá disputar, mas acredita que a maior competição irá girar em torno do centro. Tanto um lugar mais à direita, mas menos extremado, como é o caso de Bolsonaro. Enquanto Lula irá ocupar também o centro, mas se posicionando mais à esquerda.

“Fala-se de uma frente formada por alguns candidatos, Luiz Henrique Mandetta, Luciano Huck, João Doria e até Ciro Gomes, mas, mesmo assim, a gente não sabe quem vai ser o candidato e se essa frente realmente vai vingar”, esclarece.

Questionada sobre o apoio de políticos alagoanos para os possíveis candidatos à presidência, a cientista relata ser difícil oferecer garantias. “No caso de Bolsonaro, o principal nome de apoio são Fernando Collor e Arthur Lira. Com relação ao segundo, não tenho certeza se isso vai se manter porque a relação do presidente com o ‘centrão’, bloco que Lira faz parte, é muito instável. A relação esteve melhor há um ou dois meses atrás, mas com essas discussões sobre Orçamento se vê uma situação pouco amistosa”, explica Luciana.

E completa, “em relação ao Lula, o Renan Calheiros é um nome que já se posicionou favorável e apoiou, em 2018, [Fernando] Haddad para presidência. Provavelmente, vai manter esse apoio na próxima eleição em uma frente que tenha o apoio e seja liderada pelo PT”.

Foto: Catia Seabra/UOL

Santana destaca o impacto do contexto pandêmico, presente desde março do ano anterior, nas eleições de 2022. Principalmente por não haver, ainda, uma perspectiva de melhora. Na sua perspectiva, essa incerteza irá influenciar no pleito eleitoral e abrir as possibilidades para que outros candidatos sejam bem sucedidos.

Acredita que tudo depende de como Bolsonaro vai se comportar, quais vão ser as ações e condutas com relação a pandemia, vacinação e economia. Não havendo bons resultados, estaria aberta uma chance para a volta do próprio PT ou de outros candidatos da frente de centro-direita.

“No cenário atual, eu diria que qualquer candidatura de nomes respeitados, que possuem uma história política com o país, um comprometimento, inclusive, com seus respectivos partidos, seria mais desejável que Bolsonaro. Isso não é simplesmente uma opinião pessoal, é uma opinião baseada em evidências do que a gente tem visto e do que tem acontecido ao longo desse período da pandemia”, pondera.

“É um governo extremamente inapto, irresponsável, que provocou uma descoordenação total nas ações da pandemia e que vem, insistentemente, contradizendo a ciência. Há estudos e levantamentos, que apontam toda negligência na conduta da pandemia. Isso tem custado bastante caro para o país, pois estamos ampliando nosso tempo de resposta provocando um elevado número de mortos por uma combinação de fatores nas quais, quando a gente verifica a parcela de cada um, a maior responsabilidade é sim do governo federal”, completa Luciana.

Com relação às perspectivas da existência de uma polarização, para a cientista, isso é algo que já não se aplica tanto. Considera que as eleições de 2018 foram muito polarizadas, pois haviam duas forças predominantes e competitivas. No entanto, de lá para cá, o movimento mais forte seria de uma grande oposição de centro-esquerda e centro-direita, contrários a Bolsonaro. “Há uma grande maioria que não gostaria que Bolsonaro continuasse como presidente”, alega.

Luciana afirma não haver certezas sobre o posicionamento dos partidos do 'centrão', que apenas se posicionam quando as candidaturas são definidas. Pondera que se o presidente Bolsonaro for bem sucedido, as chances dele atrair esses partidos, que estão mais à direita, aumentariam juntamente com suas chances de reeleição. Por outro lado, não correspondendo às expectativas desses partidos, eles não terão problema em sair e abandonar esse governo.

“É diferente quando a gente estava nas eleições anteriores, em que tínhamos um mínimo de previsibilidade. Pelo menos, até a eleição de 2014. De 2018 para cá a gente vive um período muito conturbado e tem colocado, inclusive, em aposta os próprios estudiosos da área, os especialistas da ciência política, porque está fugindo totalmente dos padrões esperados em um país como o Brasil”, finaliza.

*Estagiária sob a supervisão da editoria