Filipe Valões
Filipe Valões

Guilherme Boulos esqueceu o exemplo de Lula

Filipe Valões|

O equilíbrio talvez seja o elemento mais escasso, nesses tempos caóticos em que vivemos. Tudo está pendendo pra um lado ou pro outro, enquanto qualquer fiapo de estabilidade fica cada vez mais distante. Uma visita recente a Maceió, de uma figura cada vez mais proeminente no cenário político brasileiro, confirmou essa tendência de termos políticos capazes de arrastar multidões enquanto apontam erros, sem ter exatamente muitas propostas concretas.

Guilherme Boulos, visto e tratado por seus apoiadores como um Lula 2.0, fez um tour pela capital alagoana jogando pra galera e batendo em problemas, pessoas e ideias que já possuem naturalmente a rejeição de parte da população. Até aí, nada demais. Assim como seus ídolos inspiradores dos partidos de esquerda, Boulos se dedica às questões sociais, joga luz sobre mazelas crônicas que apenas a parte mais humilde enfrenta desde que o mundo é mundo. Seria algo a não receber questionamentos, exceto…

A cartilha acaba sendo a mesma também no campo das soluções. Declarar guerra à quem o povo já rejeitou, é fácil. Bradar indignação contra o sofrimento de parte considerável da população, é tranquilo. Conclamar os revoltosos para conseguir apoiadores e, consequentemente, eleitores, é esperteza.

No popular, "FALAR, ATÉ PAPAGAIO FALA, QUERO VER É ESCREVER!", poderia ser dito sobre essa velha ladainha.

Guilherme Boulos tem carisma, fala a linguagem das novas gerações, dá a cara à tapa em situações que beiram guerrilhas urbanas, se diz comprometido com o povo. Mas, além da retórica, do imediatismo do embate DIREITA vs ESQUERDA, será que existe um conteúdo válido em suas propostas, com soluções e respostas factíveis?

No cenário atual, em que o bolsonarismo faz questão de assumir um antagonismo ferrenho à qualquer pensamento remotamente de esquerda, claro que é sedutor e instigante para petistas, esquerdistas e outros simpatizantes, ver alguém se colocando como batedor de uma resistência que vive se estranhando. É um Boulos que tem chances de liderar e unificar. Mas deixando de lado a empolgante sensação de ser Davi peitando um Golias, de inverter os papéis de Star Wars - O Império Contra-Ataca e fazer um Os Rebeldes Contra-Atacam versão brasileira, Boulos teria a sobriedade para penssr em todos os outros atores do nosso drama nacional não-fictício?

A maioria dos brasileiros não é rica. Passa perrengues. Vive na batalha diária. Precisa, sim, de programas de distribuição de renda federais, de políticas públicas eficientes. Mas pra um líder, é preciso considerar também as classes de maior poder aquisitivo. Empreendedores, empresários, aqueles que estão no comando da geração de emprego e renda, gostemos disso ou não.

E Guilherme Boulos, talvez por sua juventude, ainda alimenta ou ao menos parece alimentar uma ilusão que pode governar apenas para o povo, como se fosse um tipo de gestor de assistência social. Liderar um movimento tão plural quanto ideológico como é o esquerdismo em todas as suas faces, é mais do que iludir ou se iludir usando a ideia rasa de que basta "peitar os poderosos" ou garantir programas de reparação social.

Afinal, o maior exemplo é o Boulos 1.0, Luís Inacio Lula da Silva. De 1989 até 2002, Lula foi do discurso inflamado e anti-establishment ao Lulinha Paz-e-Amor, ganhando sua primeira eleição presidencial dando às mãos aos industriais, mega empresários e políticos tradicionais, moderados.

Também parece ignorar que, se o povão obteve muitas melhorias em seu poder aquisitivo nos dois mandatos de Lula, os bancos tiveram uma fase dourada, lucrando bilhões no mesmo período.

Guilherme Boulos, o novo Lula, dessa nova geração, precisa entender que nem pra lá, nem pra cá. O melhor para um líder é caminhar acenando pra direita e pra esquerda, sem pender para os lados.

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Coluna sobre Política, Tecnologia

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