Filipe Valões
Filipe Valões

A riqueza oculta de Alagoas

Filipe Valões|

Alagoas é rica. Essa afirmação pode parecer absurda, diante dos graves problemas sociais e econômicos que enfrentamos há séculos, mas se olharmos com atenção poderemos ver a nossa riqueza. Na tradição, na cultura, nos recursos naturais, na determinação de nosso povo. E na ação de quem traz o futuro para os dias de hoje, valorizando tudo que já temos.

Um dos melhores exemplos disso está em Água Branca, cidade sertaneja cercada por serras e morros, onde a beleza arquitetônica de sua igreja matriz contrasta com a história de sofrimento dos negros escravizados que trabalharam em sua construção. Em uma dessas elevações naturais encontramos os descendentes das mulheres e homens que fundaram o quilombo da Serra das Viúvas, uma comunidade que preserva sua história enquanto constrói uma outra, de avanço e desenvolvimento.

Serra das Viúvas

A principal atividade desses quilombolas sempre foi a agricultura de subsistência, embora também usassem fibras, palhas e cipós para o artesanato. Ao longo de décadas, de geração pra geração, mantiveram essas culturas como formas de sustento, até o momento em que uma abordagem nova foi trazida pelo poder público. Entrou em cena a EMATER, nos anos 1990, dando suporte, auxiliando e apoiando a comunidade da Serra das Viúvas. Teve início um processo de renovação e resgate que transformou a realidade das famílias quilombolas.

Começando pelo ponto mais importante e a partir do qual todas as conquistas vieram: o reconhecimento da condição quilombola. Os próprios moradores da Serra das Viúvas admitem que, para alguns deles, havia a rejeição ou pouca importância dada ao fato de serem descendentes de famílias do quilombo. Por outro lado, o poder público não investia ativamente nesse reconhecimento. Quando ocorreu o alinhamento de ideais, a conscientização de ambos, comunidade e autoridades, teve início um caminho sem volta.

Reassumir a identidade quilombola criou um alicerce sobre o qual a comunidade Serra das Viúvas passou a construir gradualmente uma estrutura admirável. A auto-estima recuperada fez com que as agricultoras e artesãs tivessem noção de seu valor, sua importância e potencial. Elas passaram a ter conhecimento de seus direitos enquanto quilombolas, o que abriu caminho para o acesso às políticas públicas que são suas por direito. 

Associação de Mulheres Artesães Quilombolas - Serra das Viúvas

Nessas três décadas nas quais a EMATER e outros órgãos do poder público atuam em parceria com as quilombolas, os avanços foram muitos. A criação da Associação das Mulheres Artesãs e Quilombolas da Serra das Viúvas, AMAQUI, trouxe estrutura organizacional. Os cursos e consultorias técnicas contribuíram tanto para o incremento da produção agrícola familiar, quanto para a preservação do meio ambiente. E, em relação ao artesanato, essas alagoanas foram muito além do que todos imaginavam. 

Seu trabalho, sua arte, foram reconhecidos em todo Brasil e até mesmo em outros países. Essa nova realidade trouxe para as quilombolas de Água Branca a valorização de seu artesanato, a participação em eventos nacionais e internacionais, o retorno financeiro de seus esforços e, acima de tudo, a autonomia tão desejada por essas mulheres.

Hoje, uma moradora da Serra das Viúvas decide sobre sua vida, suas lutas, seus caminhos. Graças à sua tradição, mas também à decisão de buscar o futuro, para melhorar sua realidade hoje.

Essa é a nossa verdadeira riqueza. São histórias como essa que nos fazem enxergar o quanto nossa Alagoas é rica.

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Coluna sobre Política, Tecnologia

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