Foto: Reprodução

A globalização financeira prossegue na sua determinação de, na prática, impor aos povos e às nações a soberania limitada, em uma escala crescente que marcha, especialmente entre as cadeias mais frágeis de vários Países, para uma forma de colonialismo do novo milênio.

Esse processo caminhou por vias sinuosas, desde a instituição do padrão dólar-ouro na conferência de Breton Woods, em 1944, demarcando a hegemonia monetária dos Estados Unidos.

Em 1971 os Estados Unidos tomaram a decisão de acabar com a paridade dólar-ouro, ficando o dólar como moeda hegemônica global, respaldado pelo tesouro norte-americano. Essa decisão foi ratificada pelo FMI em 1973.

Na década de 80 as políticas neoliberais assumiram o protagonismo de uma doutrina econômica hegemônica mundial, sob os governos de Margaret Thatcher, a dama de ferro, na Inglaterra, e do presidente Ronald Reagan nos Estados Unidos.

Todo esse processo levou à desregulamentação dos fluxos financeiros domésticos, vinculados à produção de riquezas. Estava inaugurado o caminho para o extraordinário processo de acumulação financeira especulativa global, através do rentismo predador, que, de crise em crise, segue até os dias atuais.

Nesse mesmo período a hegemonia unipolar econômica, financeira, militar dos Estados Unidos, conquistada após a extinção da União Soviética, foi perdendo a liderança desse processo.

Ao tempo em que todas as formas de controle administrativo, das taxas de juros, do crédito e dos movimentos do capital financeiro foram progressivamente abolidas.

A desregulamentação do capital foi, dessa forma, um dos elementos motores da globalização financeira. Estavam abertas as condições para uma espécie de governança mundial do capital financeiro especulativo.

Uma governança informal, invisível, mas que nem por isso deixa de ser efetiva e de caráter multilateral.

Cifras astronômicas de trilhões de dólares circulam, sem regulação alguma, pelo mundo em poder de megaespeculadores internacionais, desligadas da produção de riquezas. Esse é o mundo em que vivemos hoje.

Como é óbvio, as instituições internacionais “oficiais”, criadas no pós Segunda Guerra mundial, para fins de construção de consensos e administração de conflitos regionais, passaram a seguir o rastro do dinheiro em mãos dos especuladores globais, e as suas diretivas.

De tal forma que tratados internacionais, úteis ao processo hegemônico da livre financeirização dos fluxos de capitais, foram sendo oficializados por essas instituições mundiais e transferidos, como normas, aos Países.

A hegemonia do capital especulativo predador chegou igualmente à grande mídia, transformando-a em sua porta voz oficiosa.

Tratava-se, a partir daí, de constituir uma espécie de ideologia hegemônica, que satisfizesse aos interesses da globalização financeira e substituísse as culturas nacionais, sua raízes, características próprias etc.

Formatou-se, entre outras coisas, uma espécie de anarquismo invertido, visto que não serve aos propósitos com que sonhava o teórico anarquista Bakunin, mas ao anarquismo desregulamentador do capital financeiro.

Assim como surge uma espécie de neotrotskismo internacionalista, mas, ao contrário do que sonhava Leon Trotsky, não um trotskismo das classes trabalhadoras, mas um trotskismo internacionalista sob a égide do capital financeiro.

Com a soberania cada vez mais limitada pelas orientações e tratados do capital financeiro, no plano econômico, administrativo, comportamental, os governantes foram perdendo os seus protagonismos de efetivos dirigentes nacionais. Transformaram-se, em grande parte, em gerentes e administradores das orientações e diretivas vindas do capital financeiro

A pandemia da crise e a crise da pandemia

O teórico nipo-americano Francis Fukuyama quando previu, falsamente, o Fim da História em seu famoso livro publicado no fim do século XX, não se referia necessariamente à liderança unipolar dos Estados Unidos, mas à celebração da hegemonia superior do capital financeiro como forma de governança mundial.

No entanto, tamanha acumulação desenfreada do capital parasitário e especulativo, desligado da produção dos povos e nações, começou a provocar uma sucessiva desestabilização da Nova Ordem mundial e atingiu o ápice na crise financeira em 2007 e 2008, que iniciou nos Estados Unidos e rapidamente se espalhou pelo mundo.

A catástrofe financeira, que abalou as economias nacionais, não teve como solução o reordenamento da economia global mas o aprofundamento das estratégias do próprio capital financeiro especulativo.

Essa crise acarretou uma debacle das economias nacionais, além de novas diretivas para a desregulamentação dos fluxos financeiros especulativos, a queda do crescimento das economias nacionais, o empobrecimento das sociedades em, praticamente, quase todo o mundo.

O planejamento econômico foi cada vez mais substituído pela anarquia sem freios que rege a globalização do capital especulativo. O cuidado com as atividades básicas de investimentos em educação, saúde pública, ciência e tecnologia em escala global, cedeu cada vez mais à privatização, e a extrema precarização dessas funções essenciais para os povos.

Pode-se afirmar que antes de estourar a pandemia sanitária que hoje vivenciamos, tivemos a pandemia da extrema desregulamentação dos fluxos financeiros, com as suas dramáticas consequências, com a queda do crescimento econômico dos países, de forma sistemática e contínua, o desemprego e a catastrófica crise social que jamais parou de crescer.

Em resumo, a crise financeira, e suas consequências, antecedeu à crise sanitária do corona vírus 19. E será necessário calcular quanto dessa primeira crise possui relação, de causa e efeito, com a pandemia sanitária que vivemos de forma trágica em todo o mundo.

Em algum momento no futuro próximo deve haver algum balanço sobre a insuficiência das medidas da OMS em relação a essa pandemia. Seja para a ela se antecipar, seja para sugerir medidas rápidas e eficazes para minimizar os seus efeitos. E aqui não se encaixam teorias da conspiração, tão em voga nos dias atuais.

Mas a verdade é que os organismos internacionais institucionais se encontram defasados quanto aos seus propósitos intrínsecos. Na maioria das vezes eles adotam medidas, sugestões paliativas e secundárias, ou de marketing, para fins de justificar as suas existências.

A atual crise sanitária global, entre outras coisas, serviu para mostrar a pouca eficiência desses organismos, assim como a guerra do Iraque, entre outros conflitos regionais, demonstrou a pouca eficácia da ONU como autoridade real em administrar conflitos regionais ou globais de grande porte.

A atual pandemia sanitária não foi a responsável pela catástrofe econômica e social que vivemos, mas levou ao seu aprofundamento em nível brutal, como um catalizador, ou reagente químico.

Assim a crise financeira, econômica e social atingiu uma escala formidável. É inacreditável a tendência que se vende, aos incautos, que a pós pandemia vai possibilitar uma sociedade mundial mais harmoniosa, mais limpa e mais solidária, quando na verdade já estamos em uma crise econômica, social e humanitária, sem precedentes na História contemporânea. Na História, muitas vezes, os mitos são mais importantes que a realidade.

Dois meses após o reconhecimento da pandemia sanitária, as discussões nas mídias e redes sociais, desconectaram-se das questões concretas de como enfrentar melhor o corona vírus e passaram ao campo político. Não se abordam as propostas econômicas, sociais, para enfrentar uma realidade dramática de desemprego massivo e a consequente, trágica, crise social.

Assim, como nas ultimas décadas, cria-se uma falsa perspectiva sobre a verdade dos fatos, elabora-se, mais uma vez, uma realidade paralela e fantasiosa sobre o mundo em que vivemos. E, convenhamos, é necessário muito investimento e capital, além de mídia, para se imporem concepções tão dissociadas da vida concreta dos povos.

Não é à toa que vários segmentos intelectuais e acadêmicos vivem, há um bom tempo, em uma torre de marfim de agendas identitárias, descolados das grandes maiorias sociais e das necessidades concretas dos seus Países.

É um fenômeno, a dissociação de setores esclarecidos das sociedades das necessidades objetivas das grandes maiorias do planeta. E ao mesmo tempo é como se uma parcela de classe média, estivesse vivendo em uma sociedade dividida em castas.

Mas na verdade trata-se do “investimento” da globalização financeira em uma elite que encampe as suas agendas culturais e comportamentais. Uma estratégia de cooptação dos de “cima”, e o abandono à própria sorte dos novos deserdados da terra, a grande maioria das populações das nações. O objetivo é constituir uma vanguarda intelectual, de ativistas nas redes sociais, incorporada às perspectivas, doutrinas e agendas do capital financeiro, na tentativa de enfraquecer as possibilidades dos Estados nacionais quanto à formação de uma massa crítica e pensante, relativa aos programas e projetos de desenvolvimento nacionais.

Assim como os identitaristas fundamentalistas religiosos, reacionários, movidos por uma orientação econômica neoliberal ultraortodoxa, representada no Brasil pelos bolsonaristas hoje no poder central do País. Uma verdadeira Guerra Híbrida em curso.

Assim, a centralidade da questão nacional passa a ser a inimiga principal do capital financeiro, da Nova ordem mundial, e o protagonismo do Estado nação, o adversário a ser aniquilado.

Da soberania limitada ao novo neocolonialismo financeiro, a ausência de uma perspectiva Histórica no “presente contínuo”, a divisão internacional das cadeias produtivas, a substituição do protagonismo político das grandes maiorias pelas agendas das corporações.

Mas, quando alguém, como Francis Fukuyama, decreta o fim da História, essa afirmação encontra-se carregada de um fundamentalismo doutrinário, quase fanático. Porque deseja que a sua visão econômica e filosófica seja hegemonicamente imposta aos demais e às sociedades. Tal enunciado não prospera, como de fato aconteceu.

Em 1938 Hitler anunciou o seu império, o Reich de mil anos, um mundo sem fronteiras. E deu no que deu, a terrível carnificina da Segunda Guerra mundial. Hoje temos, de novo, um mundo em que a racionalidade política é um bem escasso. No caso de um propalado mundo sem fronteiras, há que se perguntar quem será o seu gerente, ou os administradores desse consórcio que fará as tratativas de um mundo sem fronteiras.

Vivemos atualmente um momento semelhante ao período de entre guerras, anterior à Segunda Guerra mundial, onde a polarização fanática tem sido a regra e a busca por consensos uma exceção. Nesse estado de espírito atual, tem prosperado o fundamentalismo, e o fanatismo, a evidente ausência de perspectivas históricas.

A busca por consensos, a procura por amplitudes, soa quase como um sonoro palavrão. A globalização financeira já provocou catástrofes econômicas e agora mostra que a tal da internacionalização das cadeias produtivas se mostrou trágica e a pandemia evidenciou a fragilidade das nações, onde não existiam, na maiorias dos Países, nem a produção de máscaras sanitárias ou de ventiladores. A grande maioria das nações tiveram que importar da China.

Qualquer nação que minimamente preze a própria soberania, e pense no seu futuro, precisa se preparar para constituir um novo ciclo para a reconstituição completa da sua cadeia produtiva, inclusive industrial, é o caso do Brasil, ou vai amargar um novo estágio de recolonização financeira, bem mais radical que a atual soberania limitada que vivenciamos.

No Brasil, sob o argumento de irresponsabilidades cometidas, efetivas e reais, a grande ameaça que vivemos é a ofensiva pela internacionalização da Amazônia, um território superior ao da Europa ocidental, com imensas riquezas minerais, aquíferas, biossegurança, potencial de reservas genéticas a ser pesquisado, patrimônio ambiental único no planeta, além de um estratégico ativo geopolítico inigualável no planeta.

Está correto o embaixador Marcos Azambuja, ao alertar para o fato de que com a crescente guerra comercial entre a China e os Estados Unidos, o País deve se preparar para navegar em águas oceânicas muito turbulentas.

E que uma diplomacia sectária, ideológica, unilateral, alinhada aos Estados Unidos, como a atual, no governo Bolsonaro, nos é extremamente prejudicial.

Devemos propugnar por uma política externa ampla, sempre pautada pelas soluções de conflitos, e acima de tudo com base nos nossos interesses nacionais geopolíticos, comerciais e econômicos.

Enfim, devemos persistir com firmeza por uma política que construa a união das grandes maiorias sociais do povo brasileiro. A polarização extremada, intolerante, irreconciliável que divide a nação não nos convém.

Cabe-nos propugnar pela constituição de uma projeto nacional de desenvolvimento estratégico, reconstruir as nossas plantas científicas e tecnológicas, investir massivamente em educação em todos os níveis, recuperar sob novas bases a nossa cadeia industrial, fortalecer a nossa agricultura.

Porque o mundo atual, e pós pandemia sanitária, não será harmonioso, limpo, ou de solidariedade global. Mas turbulento. Devemos nos preparar, com as nossas tradições pacíficas, e persistência, para navegar em uma realidade geopolítica tempestuosa e cheia de incertezas.