Em meio à pandemia do novo coronavírus, ao excesso de informações - e desinformações -, muitos especialistas da área de saúde mental orientam: é preciso “desligar” um pouco das notícias, a fim de preservar a sanidade. Conselho impossível de ser seguido, especialmente em uma profissão, o jornalismo, considerado atividade essencial. Também na linha de frente, o CadaMinuto mostra aqui um pouco das dores e dos desafios da cobertura jornalística em Alagoas nesse momento histórico.

Como esses profissionais estão enfrentando o stress, a ansiedade e as cobranças já naturais na profissão, mas elevados a outros patamares neste período? Com que retaguarda? Vindo de uma fase de muitos ataques, o jornalismo profissional sairá fortalecido da crise? Como manter o equilíbrio psicológico no momento em que ele é ainda mais crucial para o exercício da profissão, para a checagem e o discernimento dos fatos? Não temos e nunca teremos todas as respostas, mas nosso compromisso de seguir buscando-as é atemporal.           

Marcas profundas                                                                                                     

Jornalista da rádio Difusora e do portal Uol, Carlos Madeiro explica que o volume de trabalho cresceu de forma considerável durante a pandemia e, desde então, com uma jornada que se estende quase diariamente pelas noites, ele praticamente não consegue se “desligar” do assunto, mesmo quando não está trabalhando no que classificou de a “cobertura mais difícil e dolorosa” de sua carreira, que deixará marcas profundas.

“A dificuldade do momento, a insistência de pessoas negarem os riscos, têm ocupado a mente. Além disso, o fato de ter diariamente contato com histórias tristes me abala de forma muito forte, e é impossível não lembrar da mãe, do filho, do médico...”, contou, acrescentando que a cobertura exigiu mais apuração, em um volume inédito em seus 18 anos de profissão.

“Por se tratar de uma doença nova, sem tratamento específico e de consequências e avanço desconhecidos, demandou uma grande busca por pesquisadores e profissionais da área. Além disso, a cobertura limitada por conta da quarentena tornou a busca por personagens e histórias mais difícil. Não vamos mais aos locais onde encontramos pessoas para evitar riscos de contaminação”, prosseguiu o jornalista.

Em meio ao caos, seu suporte emocional, segundo ele, tem sido as conversas com amigos e colegas: “Dividimos experiências, angústias e esperanças. Acho que isso tem sido meu maior suporte. A empresa ou sindicato não ofertam isso, ao que saiba. Eu também não busquei. Mas sempre converso com pessoas para acalmar a mente e o coração”.

Questionado sobre o que mais tem lhe marcado no momento, Madeiro voltou a falar da “negação que boa parcela das pessoas faz da pandemia, seja questionando o isolamento, seja pela defesa de remédios que não funcionam, seja pela forma absurda de questionar corpos enterrados”. “Isso me causa medo e tristeza ao mesmo tempo. Muitas das histórias que vejo são de pessoas que morreram, mas antes disso negaram conhecimentos científicos. A doença é democrática, mas o vírus prefere que se expõe mais. Quanto mais se expõem, mais riscos”.

Apesar da ansiedade acerca do futuro, o repórter disse esperar que a imprensa saia fortalecida da crise, “já que o jornalismo profissional é algo imprescindível para guiar a sociedade para informações corretas”. “Não há como pensar democracia e civilidade sem a confiança na imprensa livre. Isso, ressalte-se, é o oposto de liberdade para mentir. As fake news precisam ser banidas e tratadas como crime. Assim como um falso médico causa males, uma falso jornalismo também pode matar”, frisou.

Exerícios e florais

Intensa. Com essa palavra a jornalista Luciana Martins, assessora de Imprensa do Conselho Regional de Farmácia de Alagoas, resume sua rotina de trabalho durante a pandemia, frisando que chegou a ficar 14 horas na frente do computador, atendendo colegas, acompanhando entrevistas, produzindo textos e alimentando o site institucional. 

“Assessorar um conselho de classe de profissional de saúde neste cenário tem sido um desafio, sobretudo, porque quase diariamente são noticiadas informações relativas a medicamentos e sinto que o meu trabalho enquanto profissional de comunicação é levar as informações seguras e ao mesmo enaltecer o farmacêutico, que é o profissional mais habilitado quando o assunto são medicamentos”, destacou.

Luciana pontua que, apesar do cansaço ao final do dia, é difícil “desligar”: “A maneira que encontrei para me organizar é escrevendo diariamente o que tenho para fazer e a cada tarefa cumprida ela vai desaparecendo da lista e aí, vem a sensação de alívio, de que consegui cumprir mais uma. E quanto menos pendência melhor, porque acabo conseguindo relaxar um pouco mais”.

Para tentar manter o equilíbrio mental e emocional durante a crise, a jornalista conta que pratica atividade física três vezes por semana e, orientada por uma farmacêutica, está usando florais de Bach que, segundo ela, têm lhe ajudado a desacelerar. “Também tenho um grupo de amigas do trabalho que é uma válvula de escape. Conversamos virtualmente e os assuntos são variados, desde os estresses de trabalho, passando por receitas e até dicas de relacionamentos. Acaba sendo divertido e sinto que todas nós nos ajudamos”, contou, acrescentando que manteve ainda a terapia que já realizava antes da pandemia, só que agora as sessões ocorrem de forma virtual.

“Eu sou uma pessoa bem tranquila, mas o cansaço mental tem me dominado, não existe rotina no trabalho de home office e, quando a gente vê, estamos trabalhando mais do que o normal. Eu preciso me policiar quanto aos meus horários, porque muitas vezes o choro vem, e sei que é a exaustão”, prosseguiu Luciana.

Para ela, ao final de tudo o jornalismo profissional sairá fortalecido dessa guerra, assim como sua própria fé: “Quem faz um trabalho sério não se deixar abater por ataques, ao contrário, vai para a linha de frente, assim como os profissionais de saúde, fazendo o seu trabalho diário pautado na ética. Tenho muito orgulho de ser jornalista, e não me imagino fazendo outra coisa. Ainda que seja cansativo, ficarei quantas vezes forem necessárias 14 horas na frente de computador para fazer o meu trabalho e esclarecer à população sobre o que é verdade ou não... E que sorte a minha poder contribuir no enfrentamento deste vírus ao lado de grandes profissionais farmacêuticos, que diariamente tem me ensinado a importância deles neste cenário”, concluiu.

Papel de informar                                                                                     

Presidente do Sindicato dos Jornalistas de Alagoas (Sindjornal), Izaías Barbosa abordou um ponto que tem preocupado toda a classe: as Fake News, que se disseminam espalhando não só notícias falsas, mas o medo entre a população, já temerosa devido à pandemia.

“O mais preocupante é quando o governo federal se coloca contra o que os governadores e as prefeituras sérias estão fazendo para combater o novo coronavírus, com ações baseadas nas orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS), e alguns seguidores replicam inverdades. Nesse momento é que se faz necessário o jornalismo sério e esse é o nosso papel: informar”, afirmou Izaías.

Quanto aos registros de profissionais do jornalismo alagoano infectados pela covid-19, o presidente do Sindjornal disse que a entidade não foi oficialmente comunicada dos casos, mas na tentativa de preservar de alguma forma a saúde dos profissionais da área, no dia 27 de março enviou um ofício à Secretaria Municipal de Saúde (SMS) requisitando a inclusão dos jornalistas entre os grupos aptos a receber a vacina contra influenza. Até o momento, no entanto, o Sindicato não obteve resposta ao requerimento.

O sindicalista alertou ainda que “já começamos a enfrentar o problema da superlotação de leitos e nós, jornalistas, estamos todos os dias na linha de frente e sem muita proteção, por isso não devemos nos arriscar. A nossa saúde e de nossa família está em primeiro lugar”.

Lágrimas na coletiva

Repórter do CadaMinuto, a jornalista Gabriela Flores destacou que seria impossível escrever esta matéria sem deixar seu relato: “Para mim, o dia 20 de março de 2020, com certeza não será esquecido facilmente. No início da tarde, o governador Renan Filho anunciou o decreto de estado de emergência e, enquanto acompanhava a coletiva de imprensa e escrevia a matéria, as lágrimas caiam dos meus olhos de forma incontrolável, como nunca me aconteceu. Ao escrever cada medida restritiva e cada determinação tomada para evitar a propagação de um vírus que parecia ser algo tão ‘outro mundo’ me assustava e ao mesmo tempo aquilo tudo me dava adrenalina por estar participando e escrevendo sobre um fato que vai marcar a história não só de Maceió ou Alagoas, mas da humanidade”.

Segundo Gabriela, depois de mais de 70 dias de isolamento social e de acompanhar, apurar e escrever sobre o novo coronavírus, não tem sido mais fácil. “As mortes, os depoimentos de famílias devastadas, as histórias interrompidas e todo o medo pela falta de respostas objetivas, como quando acaba isso e como será o mundo pós-coronavírus, tem me acompanhado em algumas madrugadas, quando observo pela janela o dia nascer no silêncio da cidade. No entanto, como jornalista, sei que este é um momento ‘único’ na carreira e temos um papel essencial, que é o de informar e levar a verdade à população. Saber que podemos fazer a diferença é reconfortante e isso me ajuda muito nos dias que estou mais ‘pra baixo’”, finalizou.

Enfrentando os medos

Sobre os efeitos psicológicos da pandemia nos jornalistas, o psicólogo Carlos Gonçalves - também jornalista e colaborador do CadaMinuto – explicou que apesar da realidade que se apresenta cada vez mais grave, algumas profissões não podem parar, como médicos, enfermeiros, policiais e jornalistas. “Esse último profissional, se estiver em algum veículo de comunicação, como sites, rádios, jornais ou TVs, vai ter que enfrentar seus medos, suas incertezas, em prol de uma única e necessária busca: a informação. Sem ela, todos os cidadãos não teriam como acompanhar o que de fato está acontecendo no país e no mundo diante dessa pandemia”, defendeu.

Para Carlos Gonçalves, além da pressão natural em cumprir as pautas, o jornalista também  lida com a ansiedade de estar nas ruas, nos hospitais, onde a informação, e consequentemente o perigo, estão.

“O nosso cérebro está preparado para reagir de certa maneira quando vivenciamos situações de stress ou incerteza intensa. A parte racional do nosso cérebro é facilmente ultrapassada pelo sistema emocional, podendo resultar em pânico e comportamento de grupo irracional. Este é um fenômeno conhecido como modo de sobrevivência, com três reações instintivas: luta, bloqueio ou fuga. Ou atacamos, ou paralisamos ou fugimos. Trata-se de um instinto impulsionado pela necessidade de autopreservação”, explicou o psicólogo.

O especialista recomenda que, para tentar “desligar” da pressão enfrentada diariamente neste momento de pandemia, o jornalista precisa tomar alguns cuidados com sua mente: “Tentar se desligar quando chegar em casa é uma maneira de repor a energia. Ouvir música, fazer meditação, praticar exercício físico são boas opções para lidar com esse estresse”.

Essa “pressão” emocional pode deixar, possivelmente, algumas sequelas nos profissionais da imprensa.  O psicólogo destaca que antes mesmo dessa situação de instabilidade, a OMS já declarava o Brasil como o país com o maior número de pessoas ansiosas. Sendo que 18,6 milhões de brasileiros, ou seja, 9,3% da população convivem com o transtorno.

“Não precisa ser nenhum vidente para analisar que esse número irá aumentar significativamente. Se o profissional de jornalismo não buscar ajuda nesse momento, principalmente de um psicólogo para fazer terapia, talvez dificulte um pouco mais... A terapia irá ajudar a colocar pra fora toda tensão, medos, angústias e incertezas de tudo que está vivendo", afirmou, chamando a atenção também para algo relativamente comum em quem passa por eventos de grande impacto: o transtorno do estresse pós-traumático, cujos sintomas podem aparecer apenas muito tempo depois.

Carlos Gonçalves prosseguiu alertando que é preciso buscar informações sobre o que fazer para se cuidar e cuidar de outros: “Escolha fontes de informação confiáveis e procure saber a procedência das notícias que recebe, para não disseminar Fake News sem querer. Outra medida para relaxar é evitar ficar o dia todo checando as mídias sociais (WhatsApp, Facebook, Instagram) ou lendo os jornais e ouvindo notícias, para não haver sobrecarga de informações, é algo quase impossível, mas que ajudaria muito a minimizar o sofrimento psíquico”.

Outra dica importante para tentar “desligar” é preencher o tempo com informações otimistas e atividades prazerosas. “Busque um ambiente tranquilo, faça um chá ou algo que lhe dê conforto para se sentir mais capaz de realizar as tarefas. Planeje atividades para o dia, que não sobrecarreguem seu corpo e mente. Separe horários para trabalho, lazer e interação familiar. Inclua na sua rotina ações de autocuidado, como exercício físico, meditação ou relaxamento, uma alimentação saudável, incluindo frutas e verduras. Beba uma quantidade adequada de água diariamente”, concluiu o psicólogo.