Presidente Jânio Quadros tomou posse em janeiro de 1961 e renunciou após 7 meses de governo.

O mundo encontra-se mergulhado em uma profunda crise que tem como ponto central a brutal acumulação do capital financeiro rentista, enquanto os povos e as nações patinam em uma depressão econômica sem precedentes na História recente do capitalismo.

A pandemia provocada pelo corona vírus agravou sobremaneira essa catástrofe financeira global, cujas origens residem na doutrina do neoliberalismo e o seu toque de finados a que assistimos ao vivo e em cores cinzentas.

Nesse sentido, não foi essa pandemia que provocou a debacle das economias das nações, simplesmente ela foi o elemento catalizador que a desestabilizou e a conduziu à paralisia quase que absoluta.

Nesse período, a globalização do capital especulativo é que tem mandado no mundo atual, que promoveu também as sua próprias ideologias, e que sempre tiveram dois objetivos centrais: a exaltação das suas próprias ambições de acumulação desenfreada, absolutamente desvinculadas dos investimentos na produção de riquezas dos povos e das nações.

O outro objetivo, também central, foi, e tem sido, a fragmentação, em grande escala, do sentimento de solidariedade entre as sociedades, de tal forma que imobilizasse o espírito de pertencimento das pessoas a uma comunidade nacional.

Assim é que até às vésperas da pandemia sanitária em que estamos mergulhados e confinados, não existia qualquer discussão relevante sobre um projeto estratégico para a nação brasileira.

Porque a hegemonia ideológica do rentismo especulativo reside exclusivamente nas prioridades do Mercado financeiro, nos lucros estratosféricos dos Bancos, nas políticas econômicas ultraliberais que abatem o protagonismo do Estado nacional e aprofunda de maneira acelerada os imensos abismos sociais.

De tal forma cristalizou-se essa hegemonia, que nas últimas décadas todas as instituições da República foram, de uma forma ou de outra, tragadas pelas ideologias do capital financeiro, e as organizações partidárias de todos os espectros também foram gravemente contaminadas por uma espécie de irrelevâncias programáticas.

O resultado disso tudo é que a vida política se apequenou, e perante os olhos da opinião pública, transformou-se no contrário do que realmente é, da sua verdadeira essência: a maneira pela qual o povo exerce a sua vontade soberana nos destinos democráticos da nação e de cada um de nós.

Daí, a sociedade migrou paulatinamente para as redes sociais, seja para tratar das suas vidas diárias, seja para se dedicar a um ativismo político, em paralelo à vida política real.

Mas a verdade que também nas redes sociais o capital financeiro exerce a sua hegemonia ideológica, assim como os agentes políticos atuam forte e profundamente, comprovando que não há vida fora da política.

O governo Bolsonaro

O desorientado governo do presidente Jair Bolsonaro não é fruto do acaso, ele é resultado desse contexto de falta de rumos para o Brasil, de um Projeto Nacional de Desenvolvimento em todos os níveis, na economia, da vida social, na cultura etc., que em 500 dias de mandato mergulhou, ou aprofundou, melhor dizendo, a desorientação generalizada em que se encontra a nação.

Sem uma união nacional em torno de um propósito comum de País, parece que o cidadão foi envolvido em uma falsa premissa: a pessoa só é ocasionalmente brasileira, se o seu grupo político, ao qual é alinhado ideologicamente, ou por interesses concretos, encontra-se no poder. Isto é o ápice da fragmentação da sociedade nacional.

Jair Bolsonaro é resultado de uma crise espiritual nacional e social, com essas características já destacadas, cujo sinais, mais externos, apareceram nas manifestações de 2013 e daí foram num crescendo, passando pelo impedimento da ex-presidente Dilma.

Nas manifestações contra a realização da Copa do Mundo de futebol, que uniu setores de esquerda e de direita com objetivos distintos, no governo Temer, na imensa judicialização da vida política, a melhor expressão e testemunha que as grandes corporações do Estado nacional tomaram conta dos destinos nacionais, substituindo, nada mais nada menos, que as grandes maiorias sociais, o povo brasileiro.

Incapazes de achar um rumo nacional, as organizações partidárias foram, assim, destruídas e ao mesmo tempo se destruindo, abrindo uma vácuo de poder que possibilitou o surgimento do governo Bolsonaro.

Que se guia por uma ideologia fanática, uma total falta de discernimento político, conceitos estapafúrdios e fora da realidade, como o terraplanismo, a intolerância generalizada e medieval, que se avulta na visão de uma falsa dicotomia sobre a atual pandemia sanitária, entre o óbvio e cientificamente comprovado isolamento social e a imprescindível questão da economia.

O presidente Jair Bolsonaro não é, na prática, presidente de todos os brasileiros, mas de um grupo de ativistas envolvidos, por enquanto, com a sua visão estreita do Brasil e do mundo, prejudicando enormemente os interesses nacionais através da orientação delirante da nossa política externa, nessa louvação sem nexo à dependência aos Estados Unidos e Israel, sem observar os múltiplos interesses geopolíticos e comerciais do Estado brasileiro. Uma enorme prejuízo.

Nesse sentido, é imprescindível que as diversas forças políticas nacionais contribuam, e não fiquem simplesmente marcando posição, para encontrar uma solução democrática e constitucional para o Brasil em meio a uma tríplice crise: sanitária, econômica e institucional. Porque estamos marchando, sem dúvida, para uma encruzilhada institucional gravíssima.

Mas a verdade é que se não construirmos um projeto de nação que recupere a confiança das amplas maiorias sociais, do povo brasileiro, em si próprio e nos destinos do País, estaremos condenados a patinar inevitavelmente nesse presente contínuo em que estamos mergulhados há algumas décadas.

Porque o Brasil é inevitável, mas falta-nos um rumo, um estado de espírito, um destino factível e perfeitamente realizável nos marcos democráticos. Mas, enfim, como disse o grande maestro Tom Jobim: o Brasil não é para iniciantes.