Se há algo que o senador Renan Calheiros (PMDB) soube ser em Brasília é ser governo. Calheiros desliza pelas correntes de poder sempre acumulando mais poder dentro do estamento burocrático brasileiro. 

Assim, já foi ministro do governo tucano, aliado forte dos governos petistas, deu uma de “isentão” no processo de impeachment e ajudou a assegurar os direitos políticos de Dilma Rousseff (PT);  agora - como oposição ao governo de Michel Temer (PMDB) - aposta em uma aliança com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). 

Tem sido opositor mais ferrenho. 

Ao mesmo tempo em que comemora os arquivamentos ocorridos de processos contra ele no Supremo Tribunal Federal (STF), Calheiros investe em um discurso agressivo para capitalizar diante da impopularidade de Temer. 

Que Temer é um presidente fraco, não tenho dúvidas. Que no mérito algumas reclamações de Calheiros procedem, também não duvido. Afinal, Temer é a “parte do pacote” do lulopetismo que assumiu o Brasil e ficou como herança, ao mesmo tempo em que deixou Temer com uma herança maldita que, simplesmente pelo fato de ter feito parte dos governos de Dilma Rousseff, ajudou a construir. 

Renan Calheiros também já esteve nesse pacote.

Todavia, o texto é sobre a seletividade de Renan Calheiros. Hoje, o senador de oposição é um ferrenho preocupado com as nomeações que Michel Temer faz e com o futuro do país. Mas, onde estava Calheiros quando investigados faziam parte do governo e Dilma Rousseff? Quando Luiz Inácio Lula da Silva foi condenado por corrupção, sabemos onde Calheiros estava: ao lado de Lula. 

Quando o petismo desandava, Calheiros alternou entre o silêncio, críticas tímidas e apoios. O que é natural de seu enxadrismo político sempre focado na matemática eleitoreira. O olhar de Renan Calheiros é voltado a 2018. Precisa chegar lá com o que dizer. Afinal, não é um processo eleitoral fácil mesmo para o homem mais poderoso de Alagoas e com tantos aliados, incluindo o filho: o governador da Terra dos Marechais, Renan Filho (PMDB). 

Agora, Calheiros ataca a nomeação de Carlos Marun. No mérito, tem até alguma razão. Porém, não é exclusividade de Michel Temer tais nomeações. Por qual razão mesmo que Dilma queria Lula ministro? Será que não era a busca por um primeiro-ministro e ao mesmo tempo uma tentativa de salvar o pescoço do ex-presidente em um momento tão delicado. Onde estava o combativo senador alagoano?

Marun é da “tropa de choque” de Temer. Mais um do estamento burocrático de uma nação onde o poder emana do povo, mas contra ele é exercido. Se com isso, vem de “brinde” uma influência de Eduardo Cunha no governo do presidente, como afirma Renan Calheiros, é algo de fato deplorável. Então, o que Renan Calheiros diz - por entender como ninguém dos bastidores da política - merece ser observado e destrinchado. 

Marun tem uma missão clara na função: angariar votos para a reforma da previdência. Isso é óbvio. Afinal, mostrou competência ao ajudar a barrar as denúncias contra Temer. 

Todavia, não é interessante esquecer da biografia de quem fala. Falo aqui da biografia política mesmo e não necessariamente da biografia dos processos contra Renan Calheiros, que tem todo o direito de se defender e assim deve fazer. Se tiver a inocência reconhecida, que esta seja reconhecida. 

Mas é que Renan Calheiros anda tão preocupado com o país que não avaliou que o presidenciável que carrega em seu coração disse essa semana que se sentia triste com a prisão dos governadores do Rio de Janeiro por conta de terem roubado o povo, apesar de terem sido eleitos democraticamente. Uma declaração terrível e que pouco repercutiu e pouco preocupou esses atuais baluartes da ética na política. 

Calheiros indaga quem falará com o “chefe do governo” e diz que é uma preocupação mesmo e não duplo sentido. 

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