Recebi - em grupos de WhatsApp - um vídeo que me incomodou bastante. Consciente ou inconscientemente é possível perceber um jornalismo que escolheu um lado: o do bandido. E qual lado o jornalismo deveria ter? O da busca pela verdade e nada mais. Mesmo as análises de opiniões, como as que faço neste blog, não podem se distanciar, distorcer ou ignorar os fatos em nome de visões ideológicas. 

Todavia, parece que vivemos no período da “pós-verdade”. Tudo é relativizado. Consequentemente, não temos mais mal nem bem, vítimas ou culpados. Afinal, tudo passa a depender do “ângulo” que se olha. Não defendo com isto a visão dicotômica rígida do real. Claro que não! É óbvio que a realidade possui suas complexidades. Porém, defendo - sem medo de errar! - a existência de valores e de “virtudes cardinais”, como diz Santo Tomás de Aquino, que orientam nossas escolhas e nossas decisões. 

Por qual razão digo tudo isso?

Bem, a reportagem que assisti trata de um policial militar que saiu de casa, em sua moto, para trabalhar e foi abordado, em uma das ruas da cidade onde mora, por criminosos. Ao que tudo indica, uma tentativa de assalto. Os bandidos, na ação criminosa, executaram o policial. Na sequência, conseguiram fugir sem deixar pistas. O vídeo está em meu Facebook.

Está mais do que claro quem são os criminosos nessa questão: aqueles que tiraram a vida de outro ser humano e ponto final. Seja homicídio ou latrocínio, os criminosos são eles e devem ser punidos, dentro do que preconiza o Estado Democrático de Direito. 

Mas o que faz o jornalismo quando ele já tem um lado no qual o banditismo é a referência? Busca meios de relativizar e atenuar para o criminoso. Em alguns casos, até mesmo tenta culpar a vítima. Eis que no caso que aqui relato: a jornalista não se envergonha de comentar o seguinte: “os bandidos podem ter atirado para tentar se defender”. Como é? 

Quer dizer que, com base nas informações que ela mesmo relata (de um possível latrocínio), se a vítima - ainda mais se for um policial - reagir, o bandido passa a ter o “direito” de se defender e você vira um homicida caso consiga levar a melhor na busca por defender a sua vida e o seu patrimônio? Que afirmação estúpida! 

Vejam a comparação. Em uma reportagem de outro veículo de comunicação, um outro policial reagiu ao assalto e levou a melhor. Mas, na manchete ele virou “suspeito de reagir”. Desde quando reagir é crime, ora bolas?

São os discursos que vão sendo construídos na sociedade e justificando, cada vez mais!, as ações criminosas e relativizando quem é vítima. É o que faz com que você pareça um “otário” quando tem seu celular roubado no meio da rua e alguém lhe diz: “também, anda ostentando o celular?”. Como se o aparelho de celular não fosse seu, como se você não tivesse o direito de usar seus fones de ouvidos e seus aplicativos a hora que bem entendesse, pois você comprou o aparelho para isso. Mas, não. Na nossa sociedade, você é obrigado a ter medo. Caso contrário, você estará facilitando para o bandido e o culpado será você. 

É o que faz com que a arquitetura moderna de nossas casas, nesse país de miséria moral e intelectual imensa, seja cheia de grades. Como diria o cantor e compositor Renato Russo: “os assassinos estão livres. Nós não estamos”. E assim vão lhe tirando o direito de se indignar, de reagir quando possível, de viver sem medo, da legítima defesa e por fim vão dando todos os direitos aos criminosos, já vistos por muitos como “as pobres vítimas da sociedade”. 

No caso deste policial, quando vi o vídeo a primeira coisa que pensei foi na família dele. Imagine, pessoas que além de perderem seus entes queridos pela violência ainda são obrigados ao ouvir essa relativização que tenta amenizar para os assassinos. Que valores defenderemos para as futuras gerações? Que não existe o certo e o errado? Que não devemos buscar defender nossas vidas e aqueles que amamos? Discursos como o dessa jornalista - completamente dissociado da realidade - me causam asco. 

Fica evidente, ao menos para mim, que ainda há um outro ponto: a visão ideologizada que se tem das forças policiais. Eu defendo - e com muito orgulho - os policiais. Estão em um trabalho duríssimo, combatendo uma violência crescente na ponta e colocando suas vidas em risco e muitas vezes sem o apoio daqueles que “formam a opinião pública”. Quando um policial erra, é o suficiente para julgar toda uma corporação e sequer se leva em consideração as nuanças de um fato. Agora, quando é o bandido que leva a melhor, aí se buscam nuanças até onde não tem. E é claro que não se defende o mau policial. Ao contrário, quero ele fora da corporação para que não suje a imagem dos bons.

Os policiais deste país - na sua imensa maioria - são pessoas honradas que arriscam suas vidas tendo pouco retorno. Falo da questão financeira mesmo. Converso com alguns amigos policiais e fico indignado de eu ganhar mais que eles quando é óbvio que a profissão deles possui mais riscos. Ao assistir reportagens assim, eu me revolto pelos policiais. Pois com os elementos que aquela jornalista tinha em mãos para descrever os fatos, ela jamais poderia ter feito tal juízo de valor admitindo a possibilidade dos bandidos - que escolheram praticar o mal e ir lá matar alguém - “apenas tivessem reagido”. E independente desses elementos, bandido é aquele que escolhe deliberadamente fazer o mal. Nessas horas, eu tenho que me se segurar para não enfiar um palavrão no artigo e direcioná-lo a esta senhora. Mas, pude fazê-lo em privado olhando o vídeo no celular. 

Estou no twitter: @lulavilar