Sou cristão e católico, necessariamente nesta ordem. Por qual razão estabeleço esta ordem? Bem, é que há coisas na Igreja com as quais não concordo, como meu desprezo pela Teologia da Libertação e pela CNBB. Por sorte, no caso da CNBB tem menos autoridade do que muitos imaginam ter. Se duvidam é só pesquisar.
Mas, por que toco neste ponto aqui? É que – ainda durante a madrugada – li notícias dando conta do quadro irreversível da ex-primeira-dama Marisa Letícia. Ainda antes de dormir, orei por ela, como oro por tantos. Faço isto – muitas vezes – independente de gostar do comportamento ou não de determinadas pessoas. É que observo a Fé como olho para um Hospital. Sadios não precisam de hospitais. Portanto, o reencontro ou encontro com a Fé, seja em que momento for, pode significar cura para os que cometeram atos reprováveis durante a vida. A morte não limpa biografias, mas faz com que nos deparemos com nossa pequenez e nossas fraquezas.
Alguns com pecados mais graves que outros, mas enfim.
Na vida cristã, não julgamos o pecador, mas o pecado. No Estado Democrático de Direito e laico, tal julgamento não pode ser de exceção. Ele vem acompanhado do amplo Direito à defesa. Neste sentido, Marisa Letícia – assim como ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva (PT) – foi citada em inquérito. O casal responde por seus atos. Quero que ambos tenham um julgamento justo. Continuo querendo o mesmo em relação a Lula, que – para mim – representa o que há de pior na política. Mas não desejo mal a ele, muito menos cultivo ódio. Desejo que seja feita Justiça.
Assim como oro por um país em que as pessoas não sejam vistas por rótulos, mas diante da compreensão da complexidade humana e se vejam livres de determinados grilhões, como os impostos por determinadas visões ideológicas nas quais os “salvadores da pátria” acabam em castas privilegiadas e conduzem nações às tragédias. Já vimos isto diversas vezes na História. Lições não faltam.
Mas, momentos de dor não são momentos para se fazer política ou politicagem. Sei que existem aqueles que enxergam política em tudo. Eu lamento por eles. Eu busco ter um respeito enorme pela vida humana, mesmo quando discordo de ações, práticas e pensamentos do outro. Apenas rezo para que o outro sempre encontre a Justiça terrena e a misericórdia divina, que é infinita, mas não se dissocia também de outra Justiça, que é perfeita!
Então, em minhas orações pedi que Deus tenha misericórdia de Marisa Letícia, assim como tenha piedade dos que – de forma direta ou indireta de uma forma ou de outra - utilizam do episódio para fazer política da maneira mais vil. Seja comemorando a morte de alguém (que é algo terrível), seja culpando os adversários por infortúnios inerentes à natureza humana, seja buscando fazer de tudo um palanque ou cultivando sentimentos ruins que apenas expõem o que de pior há em suas almas neste momento, estejam estes em defesa de qual causa estiverem.
Confio em Deus. Em minha vida, quando há sofrimentos inevitáveis – como a perda daqueles que amo – peço para ser forte e para que tal dor me traga lições para me fazer melhor. Espero que assim seja para todos, confiem eles em Deus ou não. Acreditem eles em Deus ou não. É que não acho que determinados sentimentos, por mais presentes que sejam no real Cristianismo, são monopólio de uma crença, nem se introduzem por mágica no íntimo de quem compartilha de uma Fé. Há pessoas que não crêem no que eu creio e são seres humanos maravilhosos. Assim como existem cristãos que me levam a indagar como eles podem ser cristãos.
Por mais que tenhamos reprovado o casal Marisa Letícia e Lula da Silva (eu reprovei/reprovo muito de seus atos) aprendamos a separar as coisas. Torci pela recuperação de Marisa Letícia, mas o quadro se fez irreversível pelo que vejo nas manchetes. Então, que Deus opere da forma como age em relação à vida de todos, com sua misericórdia infinita e com a Justiça que é inerente a ele.
Lembro de uma canção que gosto muito em que diz: “O que agrada Deus em minha pequena alma é que eu ame a minha pequenez e minha pobreza. É a esperança cega que tenho em sua misericórdia”. Que Deus conforte os que verdadeiramente amam Marisa Letícia e que a dor sirva de revisão e crescimento espiritual.
Aos que acham que esta oração de nada vale, aos que acham que é hipocrisia por conta dos meus conhecidos posicionamentos políticos e filosóficos, aos que acham o que quiserem achar, o problema é de deles e não meu. Cada um é responsável pelo que carrega em si e a eles é dada a dor e/ou a delícia de conviverem com isto. Só posso falar por tudo o que busco conviver.
Pouco me importa se alguém não acredita que, nos momentos em que fui atacado com rótulos pejorativos, rezei para que esta pessoa enxergasse o que realmente eu penso, mesmo quando sei que o outro sabe o que penso, mas mente de propósito. É que Deus me ensinou que sou tão frágil quanto qualquer ser humano. Portanto, não é fraqueza ou força que nos diferencia, mas sim a forma como lidamos com tais fraquezas superando a nós mesmos não para sermos melhores que os outros, mas para sermos melhores que nós.
A primeira luta é interna! Não posso condenar o pecado no outro se eu não o renunciei em mim, se eu não consigo controlar as minhas fraquezas e tentações. Se eu não luto comigo mesmo em busca do que eu tenho de melhor como esperar ser agente de qualquer luta externa? Isto tem um nome: hipocrisia. E é por reconhecer que, em alguns momentos de minha vida, já cai em erros que me levaram ao arrependimento, que me levaram a me enxergar como um pecador terrível, que eu pude me erguer e encontrar braços abertos em Nosso Senhor Jesus Cristo e nos que me amam.
Que tais braços nunca se fechem para ninguém e que tenhamos apenas a ciência de que as escolhas possuem um preço.
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