Aos 36 anos de idade, Tavares Bastos já havia produzido muito para quem teve uma curta vida. Do doutorado às publicações em que discutia o modelo de federalismo brasileiro, propondo a descentralização aos moldes do que ocorreu na fundação dos Estados Unidos da América, Tavares Bastos foi genial em obras como A Província e Cartas do Solitário. Infelizmente, dois livros pouco conhecidos no país. Se Tavares Bastos nascesse em qualquer outro lugar do mundo seria um liberal clássico de referência.

Mas, ao invés de resgatarmos a memória de Tavares Bastos, o condenamos a ser lembrado como o nome da Assembleia Legislativa do Estado de Alagoas: a Casa de Tavares Bastos. O parlamento estadual pode ser tudo, menos a residência do espírito de Tavares Bastos. Em sua mais recente história, o parlamento foi envolvido em escândalos que fariam Bastos ter vergonha da homenagem. São escândalos como a Taturana (sem as punições devidas e um processo que se arrasta ao infinito) ou a “lista de ouro”.

O parlamento alagoano se tornou um “microcosmo” do patronato denunciado por Raimundo Faoro na obra Os Donos do Poder. É casa das decisões políticas monopolizadas pelos interesses dos que detém currais eleitorais, poderio econômico e poder de barganha. Uma barganha sempre por mais dinheiro, enquanto os servidores do Legislativo – os que de fato trabalham - sofrem por anos. Sofrem com injustiças em relação aos planos salariais, sofrem com injustiças para se aposentarem e, recentemente, sofreram com uma Casa que parcelou salários atrasados em minúsculas parcelas enquanto os próprios deputados formavam uma “casta” bem longe deste dolorido episódio.

Portanto, o que vimos na eleição da atual Mesa Diretora – com trocas de acusações para lá e para cá, nos bastidores – é um reflexo da hipocrisia do parlamento estadual alagoano. Com raras exceções, vozes completamente distantes dos anseios populares capazes de traírem uns aos outros por interesses pessoais que visam o controle sobre os atos e as finanças da Casa. Eis a verdadeira razão dos “momentos de tensão” narrados pela jornalista Vanessa Alencar em excelente matéria publicada no CadaMinuto.

Nada mais distante do conceito de descentralização de Tavares Bastos que isto. Tavares Bastos falou de liberdade. Nosso parlamento – ano a ano – nos oferece grilhões, como os milhares de projetos de lei que fazem do Estado uma babá. Muitos destes já critiquei aqui. De acordo com Vanessa Alencar, em um determinado momento do dia de ontem foi até preciso chamar militares que fazem a segurança da Casa para que estes se posicionassem ao lado do presidente Luiz Dantas (PMDB).

Que ato ridículo em uma democracia.

Dantas teve uma primeira presidência pífia. Falava por outras bocas, como as de Isnaldo Bulhões (PMDB) e Ronaldo Medeiros (PMDB). Na época o apelidei de “Rainha da Inglaterra”. Ontem, teve uma postura mais corajosa ao manter o pleito apesar dos pesares. Mas isto não apaga o silêncio conveniente de Dantas no passado.

Só não avalio como uma das piores presidentes daquele parlamento, porque na História da Assembleia existe o ex-deputado estadual e atual conselheiro Fernando Toledo (PSDB), que mais parecia um bobo da corte com explicações estapafúrdias, como quando culpou a Caixa Econômica Federal (CEF) pelos erros nos diversos repasses feitos às contas de funcionários comissionados. Era a “lista de ouro” denunciada pelo ex-deputado estadual e atual deputado federal João Henrique Caldas, o JHC (PSB). Lembram? Toledo foi agraciado com uma cadeira de conselheiro.

No dia ontem, o filho de Toledo, o deputado estadual Bruno Toledo (PROS) - que tem biografia própria e por isto já o elogiei diversas vezes, inclusive com um deputado que desponta no parlamento estadual – se lançou candidato a presidente. Ele perdeu a eleição, mas sua candidatura foi vista como traição. Ora, se Toledo – o filho – não se comprometeu com o grupo, não há que se falar em traição. Se se comprometeu, há sim. Mas é ele quem precisa explicar isto.

Durante o processo, o parlamentar questionou o “fatiamento” da eleição. Por sinal, já havia questionado antes. A insatisfação de Bruno Toledo com o processo não era segredo. Eu mesmo já havia conversado com ele sobre o assunto. Mas, não sei de tudo o que rola nos bastidores.

Neste contexto, a fala de Olavo Calheiros chama atenção: "Eu soube que havia um acordo para preservar vossa excelência (Luiz Dantas) na presidência e mudar toda a Mesa. Eu aceitei e fui surpreendido com a disputa para o cargo de presidente... Então acho que pode haver também disputa para o restante da Mesa". Bem, Bruno Toledo estava neste acordo?

Diz a jornalista Vanessa Alencar: “Antes de negar o pedido da e Olavo e dar prosseguimento à votação, Dantas também desabafou, contando que se surpreendeu com a candidatura de Toledo. "Isso não deveria ter ocorrido... Hoje à composição foi duvidosa, mas, se der para eu administrar essa Casa, eu vou. Se não der, vou ver os meios para isso"”.

Como Bruno Toledo foi colocado como o pivô, vejo como importante ele explicar a motivação de sua candidatura e negar (ou não) ter fechado acordo em torno da eleição de Dantas e do fatiamento da Mesa.

A situação foi tão tensa que o parlamentar Marcelo Vitor (PSD) ameaçou deixar a vida pública e ir embora de Alagoas caso a eleição não se realizasse. Confesso que fiquei curioso se ele cumpriria a promessa.

O “pivô” Bruno Toledo ressaltou que sua candidatura nasceu da inércia dos que conduzem a Casa, mas deixou claro que não se referia a Dantas. Ora, então se referia a quem? Dantas é o presidente. Os nomes aos bois se fazem necessário. É por ausência de nomeá-los que convivemos com os acordos em surdina e nós, meros mortais, somos surpreendidos com as cenas dantescas (de Dante e não de Dantas) no parlamento estadual.

Há lacunas na história contada ontem. São apenas mais lacunas que se somam à História recente do parlamento estadual e que dizem muito sobre o espírito que rege a Casa. Em uma mesa espírita se pode evocar qualquer uma alma, menos a de Tavares Bastos...

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