O Brasil é um país “sui generis”. Até para definir o que vem a ser direita e esquerda é uma complicação terrível. E diante do fato de alguns partidos - como o PT e semelhantes - terem dominado o campo das ideias com suas definições, qualquer coisa que discorde deles já passa a ser não somente direita, mas extrema-direita. É assim, por exemplo, que desvirtuam conceitos para transformá-los em xingamentos atribuídos a qualquer adversário, como o uso do termo “fascista”. 

No Brasil, fascista pode designar qualquer um que discorde da esquerda revolucionária, quando - historicamente - sabemos que, em um resumo básico, são os apologistas de um regime político que defende que tudo seja pelo Estado, para o Estado, com o Estado. Ou seja: o completo gigantismo estatal e a ausência de liberdades individuais, ausência de pluralidade de ideias e crenças e ataques a qualquer possibilidade de redução da influência do Estado. São as paralaxes cognitivas brasileiras alimentando verdadeiras jabuticabas. Grande parte dos valores da direita podem ser atacados de diversas formas (afinal, a crítica é essencial e não há postura ideológica, política ou de crença que esteja acima dela), mas jamais podem ser comparados ao fascismo. Mas este é só um ponto. 

Aqui fica a dica da leitura de Fascismo de Esquerda do jornalista americano Jonah Goldberg e a biografia de Mussolini escrita por Milzza Pierre. Há também os próprios escritos e discursos do Mussolini. 

Vamos a outro ponto: em sua recente edição, a Revista Veja (a de maior circulação do país) fala do nascimento ou renascimento de uma “nova direita” que ganhou forças diante dos péssimos resultados eleitorais do PT. Que o Partido dos Trabalhadores foi punido nas urnas devido seus desmandos e esquemas de corrupção, não resta dúvida. Agora, se isto se traduz em uma direita organizada capaz de ocupar espaços e mostrar seus valores claramente, aí é outra história. Veja erra! A direita deste país ainda está longe de ter um partido forte, estruturado e capaz de disputar eleições de igual para igual com quem domina vários espaços não apenas na política, mas nos diversos campos de fomentação de ideias. 

O principal erro de Veja é desconsiderar questões históricas e classificar - em um quadro bastante questionável - o PSDB como sendo um partido de direita. Em que pese, o ninho tucano - atualmente - abrigar pessoas que defendam o liberalismo e o conservadorismo, esta defensa ainda é posta de forma tímida e são atores isolados, distante dos caciques tucanos que, a exemplo do senador Aécio Neves (PSDB), dizem com todas as letras: “não adiante me jogar para a direita que eu não vou”. Esta foi, por sinal, uma das declarações de Neves logo após o resultado das urnas, em 2014, quando se deparou com a vitória de Dilma Rousseff (PT). 

O PSDB se funda - historicamente - em uma visão de “social-democracia”, o que é uma das correntes de esquerda. Não é a esquerda da mentalidade revolucionária mais acirrada, mas abriga os valores progressistas também. No Brasil, portanto, o máximo que se tem é um campo que vai do centro à esquerda e, na maioria dos casos, os valores de direita são completamente atacados ao ponto de serem confundidos com tudo que há de ruim, mas na esquerda se abriga o “monopólio das virtudes”. Uma maniqueísmo pueril que domina as discussões de mesa de bar e de ambientes acadêmicos, muitas vezes. 

É preciso que se entenda que - no campo dos valores - uma direita é aquela que se associa ao seguinte: defesa da propriedade privada, das liberdades individuais, da igualdade perante à lei e a Deus (no caso dos que possuem fé), respeito à meritocracia, liberdade de mercado (maior liberdade econômica), direito à vida, reconhecimento de que existem direitos naturais que são pré-civis, como explica o pensador Leo Strauss, e o respeito às tradições, costumes, religiões e valores ocidentais que estão fundados na base judaico-cristã. Se você discorda da direita, você discorda disto. 

Claro que há direitistas bandidos, assim como há esquerdistas honestos. Estamos falando aqui de campo de valores e, em todo campo de pensamento, há extremistas tomados por uma imaginação totalitária por se acharem guardiões da verdade e do “monopólio das virtudes”. Eu, particularmente, tenho um respeito imenso por quem discorda de mim e até aprendo com isto. Desprezo os que não sabem discutir, mas apenas grunhir chavões. 

Porém, vejam que ao analisar o PSDB e suas práticas o que veremos é um partido que está distante dos valores aqui descritos. Pode ter, é verdade, em alguns momentos agido em favor do mercado, como nas privatizações, mas muito mais por fazer um fundo de caixa e um ajuste fiscal em busca da estabilidade econômica que, necessariamente, por ideologia. Tanto é assim que, no início dos anos 2000, o PSDB lamentou não participar da Internacional Socialista. Ora, que partido de direita faria isto? Sem contar com as bandeiras progressistas defendidas por seu maior cacique: Fernando Henrique Cardoso (PSDB), em muitas entrevistas, como a mais recente concedida à Revista Exame.

O mesmo acerto do PSDB é encontrado no PT. A matriz econômica adotada por Lula no início de seu primeiro mandato foi acertada. A coisa degringolou a partir de 2007. 

Mas, voltando ao assunto, eis as palavras de FHC: "Eu acho que é preciso tomar cuidado, no Brasil, neste momento, está havendo uma onda de direita, de verdade, e eu sou contra. Uma coisa é você ser contra os desvios do PT, outra coisa é apoiar a onda de direita, a bancada da bala (...) Acho que não precisa entrar nessa onda direitista do ponto de vista de costumes, isso é delicado. A própria estrutura da família mudou. A família hoje é uma coisa diferente do que era antes".

Há quem defina isto como “estratégia das tesouras”. Ou seja: partidos de um mesmo campo ideológico que são oposição - como o PSDB é oposição ao PT - dominam a “batalha”, porém independente das vitórias sempre se anda em um projeto semelhante com pequenas divergências e assim se vai adiante impedindo que outro campo de valor surja neste debate. A tesoura tem dois lados, mas só corta pra frente. Sempre no mesmo sentido.  

É fato que, dentro do PSDB, novos nomes estão surgindo, como já disse neste texto, mas o PSDB ainda é apático, covarde, com discursos obtusos que evitam posições mais firmes, temendo pagar o preço por estas e com escândalos que também precisam ser explicados à sociedade. O PSDB é um partido que merece ser visto com toda a desconfiança do mundo. Não é “salvador da pátria” nem opção sólida para quem discorda de tudo que ocorreu nos últimos anos neste país, até porque contribuiu e muito para a República esfacelada que temos, apesar dos méritos que possui como o Plano Real e uma relativa estabilidade econômica. 

Em resumo: o PSDB não é direita. E se houve um crescimento de novas ideias neste país como o liberalismo econômico, o liberalismo político, o conservadorismo filosófico, dando início a discussões sobre ideias de Mises, Hayek, Roger Scruton, Eric Voeglin, Milton Friedman, dentre outros tantos, nada disse é devido ao PSDB. Tudo isto ocorreu apesar do PSDB e não por causa dele.

Estou no twitter: @lulavilar