O ex-integrante do CQC Ronald Rios tem o direito a ter a opinião que quiser em relação ao Estatuto do Desarmamento. Agora, na função de jornalista ele precisa respeitar as fontes primárias existentes sobre o tema, para que suas gracinhas não se tornem apenas o demonstrativo explícito da própria ignorância ou engane incautos. Nos dois casos, estamos distantes da função do jornalismo.

Não quero convencer Rios de absolutamente nada. Porém, quando nós jornalistas travamos a batalha para discutir um tema com a sociedade, devemos nos cercar – antes de tudo – de todas as fontes existentes. Isto significa que, mesmo diante de uma posição tomada, é obrigação nossa mostrar com fidelidade o contraditório. Se elementos tivermos, que o “quebremos” com os argumentos que julgarmos mais sólidos.

É assim que se faz um debate sadio e no campo das ideias.

Mas, Ronald Rios se aproveita do perfil humorístico para descredibilizar uma fonte e ainda dar a falsa impressão de que está sendo imparcial na mostragem do tema. Tenta tomar quem pensa diferente dele – por meio dos gracejos – por imbecil. O problema para o qual o comunicador não atenta é a seguinte máxima: inteligência é algo que quanto mais perdemos, menos sentimos falta. Desta forma, ao tentar ridicularizar o outro, é ele que sai por ridículo e desinformado quando exposto à luz do sol. Ah, o sol! O sol é um maravilhoso e natural desinfetante.

Ronald Rios gastou a maior parte do tempo de um suposto debate sobre o desarmamento para se posicionar a favor do Estatuto do Desarmamento. Na sequência, apresentou – para cumprir tabela e se mostrar isento – uma entrevista de poucos minutos com o advogado Bene Barbosa, que defende o armamento civil dentro de regramentos. Não satisfeito, ainda quis ridicularizar Barbosa. Deu-se mal antes mesmo da entrevista, pois só conseguiu demonstrar – a quem inteligência tiver – seu raciocínio torpe.

Antes da entrevista usou de fontes jornalísticas para dizer que o presidente interino Michel Temer (PMDB) teria compromisso em derrubar o Estatuto do Desarmamento por “gratidão” á “bancada da bala” que o teria ajudado no impeachment. A chamada bancada da bala votou pelo impeachment, mas não por acordo com Michel Temer e sim – o que é legítimo – por achar que o país precisa de outros rumos. Dentre estes rumos, a necessidade de revisar o Estatuto do Desarmamento.

Pois, é óbvio que em governo petista isto não anda por mais que tenha aprovação popular. Isto é legítimo. Isto é política. E não “uma mão lava a outra”, como quis insinuar o apresentador. Uma mão lava a outra é o que se vê no mensalão, por exemplo. Um dia ele aprende sobre política e para de falar tanta bobagem querendo dar uma de “o entendedor”.

Mas, vamos adiante! Se Michel Temer tivesse gratidão com a bancada da bala nomearia Raul Jungmann – um ferrenho desarmamentista – como ministro da Defesa? Acho que não, não é Ronald Rios? Talvez você não saiba quem é Jungmann ou a posição dele. Natural de quem se informa sobre o tema com base nos tabus pré-existentes, e ainda evoca para si a missão de quebrar tabus. É comum no raciocínio esquerdista este tipo de prática.

Ronald Rios ainda acha que precisamos de um “três oitão” para “apimentar o país”. O comunicador acredita que a violência reinante no país não é pimenta o suficiente. São mais de 50 mil homicídios por ano. Nos últimos anos, em escala crescente e demonstrando a completa ineficiência do sistema de segurança pública. Contabilize os assaltos e a impunidade e talvez Rios ache que seja um pouco de pimenta para seu manjar de bobagens. Ou não? Sem contar, que estes números mostram a falência do Estatuto do Desarmamento que não desarmou sequer um mísero bandido. Vale lembrar a Ronald Rios: que a essência da criminalidade é o desrespeito à lei. Logo, não respeitaria um Estatuto. Não é? Só um exercício de lógica simples já leva a isto.

Mas Rios prefere as estatísitcas das “mortes evitadas”. Talvez provenha do Instituto Chico Xavier e psicografadas do futuro pelas almas que não foram assassinadas em função do Estatuto do Desarmamento, já que no Brasil se contabilize quem poderia ter sido assassinado um dia, mas foi salvo pelo Estatuto.

Bene Barbosa nos ensina, na entrevista, a ter paciência. O monge Bene Barbosa tenta explicar tudo isto. Provavelmente conseguiu, mas a edição – para variar – não lhe foi favorável. Todavia Bene Barbosa está corretíssimo: “O Estatuto do Desarmamento foi um fracasso”. Isto! O advogado ainda fala o óbvio: para o bandido foi um sinal de entreguismo da pátria, já que criminoso ficou sabendo de antemão que ninguém terá armas em casa, nos estabelecimentos comerciais, etc...uma barreira que cai para possibilitar o aumento da criminalidade.

O único anteparo ao crime virou a segurança estatal que – em regra geral – age posterior ao crime ocorrido. Afinal, ninguém pede licença ao bandido para ligar imediatamente para a polícia, quando está com uma arma apontada para a sua cabeça. Entende isto,Ronald Rios? Entende? É isto que Bene Barbosa mostra. E mais: coloca claramente que a derrubada do Estatuto não é o desregramento absurdo que o comunicador tenta passar para seu público, como se as armas fossem compradas no supermercado sem qualquer tipo de legislação vigente para adquiri-las. Isto sim é que é confundir “pássaros” e “morcegos”, usando da piadinha de Ronald Rios, que na verdade confunde opinião embasada com macaquices.

Ele ainda pergunta a Bene Barbosa sobre estatísticas e fica espantado com ser necessário apenas 10 horas para aprender a manusear a arma. Talvez, na cabeça de Rios, ele ache que são 10 horas seguidas e que o cidadão faz um curso em um dia e no outro dia vai à porta da Polícia Federal pedir a autorização para ter armas. Santa ignorância.

Em relação às estatísticas, se espanta quando Bene Barbosa diz que, no caso das crianças, nem todos os relatos de morte por arma de fogo são acidentes e que há homicídios. Ele se espantou – vejam bem! – com o fato de menores matarem e morrerem no Brasil com arma de fogo. Olha só. Isto é novidade para Ronald Rios, que ainda resolve tirar “ondinha” com a suposta “burrice” de seu entrevistado sem perceber que ele é quem babava na grama. Meu querido, a ignorância é sua. Pois, crianças – infelizmente – matam e morrem no Brasil. Pesquisa no Google.

Ah, Ronald Rios ainda tira onda com suicídios. Um dado para o cidadão comunicador baseado no próprio Mapa da Violência: entre 1980 e 2012 os suicídios por arma de fogo aumentaram 49%, isto sem contar os casos em que houve dúvidas. O Brasil é o oitavo país com mais suicídios no mundo. Em 2012, foram registradas 11.821 mortes, sendo 9.198 homens e 2.623 mulheres. Grande parte destes...advinha!?...por arma de fogo. Mas, o inteligente Ronald Rios acho isto motivo de piada, claro!

Outra reflexão ao comunicador: quando se tem mais de 50 mil homicídios por ano, qualquer ocorrência com arma de fogo será alta e isto nada tem a ver com a discussão séria sobre o armamento civil, pois é a situação do país com desarmamento.

Todavia, o objetivo do jornalista era fazer de conta que Bene Barbosa havia negado que existiam acidentes. Ele nunca negou isto. Apenas frisou que “é preciso lembrar” que nesta contabilidade existem casos que não são acidentes. Entendeu? É difícil?

No mais, são ponderações que Bene Barbosa faz das estatísticas com base em estudos, que apontam falhas comuns às pesquisas que desconsideram as reações que não acabem com feridos. O que é um fato. Ora, nada mais natural do que se questionar metodologia de pesquisa.

Porém, do alto de sua inteligência e intelectualidade, Ronald Rios prefere ironizar para se “manter 100% confuso”, como ele mesmo diz. Mas, ele não está 100% confuso. Ele está 100% certo de que sua missão é defender o desarmamento, nem que para isto ele ridicularize o outro ao invés de prestar atenção nos argumentos e travar o debate com um pouco mais de honestidade.

O vídeo AQUI. O artigo de Bene Barbosa AQUI.