No fim de tarde e início da noite de domingo (8) foi dada mais uma prova de que não se pode admitir segurança pública nos eventos privados do Campeonato Alagoano de Futebol. O que mais se ouviu, no momento em que torcedores delinquentes e criminosos agiram dentro do estádio Rei Pelé foi o questionamento: "Cadê a polícia?". A verdade é que a polícia deveria estar concentrada fora do Trapichão, não sendo utilizada na arena esportiva para garantir maiores ganhos financeiros para a Federação Alagoana de Futebol (FAF) e para os clubes alagoanos.
Mas é exatamente pelo fato de ser utilizado como braço eleitoral da classe política que o futebol é a exceção a qualquer evento privado. Seus dirigentes não preveem o investimento na segurança dos torcedores, e os dirigentes de clubes são cúmplices do poder público nos crimes ocorridos no episódio lamentável exibido dentro do gramado, nas arquibancadas e na periferia, nas ruas do Bairro Santa Lúcia, onde dois torcedores foram assassinados após a final do campeonato em que o CRB foi campeão contra o CSA.
A pergunta "cadê a polícia?" já nem mais se repete na Santa Lúcia, por um simples motivo: A polícia não atua há tempos na dispersão das torcidas. Famílias deixam de sair de casa em busca de lazer, nas praias e nos lugares públicos, porque há apedrejamento de veículos particulares e sempre se repetem os sequestros de ônibus (invadidos por torcidas que ditam o itinerário, assaltam, aterrorizam e impedem passageiros de descer). As emboscadas aos rivais que utilizam o transporte público também se repetem. É assim em todos os clássicos.
Terror na periferia
Foi justamente neste contexto que Leandro da Silva Lima, 19 anos, foi esfaqueado e morto em um matagal deste mesmo bairro, após o jogo deste domingo. Segundo relatos da tragédia, o jovem tentou contribuir com o papel que deveria estar sendo feito pela política, ao se esforçar para impedir que ônibus fossem apedrejados por torcedores identificados como sendo seus amigos.
Após o jogo, espalharam-se pelas ruas da periferia as vergonhosas batalhas nas quais, além de paus, pedras e outras armas, foram utilizados rojões e explosivos. Houve relatos de batalha campal na Praça Centenário. E uma delas ocorreu na Avenida Durval de Góes Monteiro, à entrada da Santa Lúcia, onde um ônibus coletivo apinhado de torcedores do CSA foi alvejado por rojões por criminosos vestidos com as cores do CRB. Estes aguardavam a chegada dos rivais em um ponto de ônibus. Houve o revide e o terror tomou conta de numa das principais vias de Maceió, a Avenida Belmiro Amorim.
A polícia que estava no rei Pelé não estava lá e o fato se prolongou por aproximadamente 20 minutos, enquanto batalha avançava para o interior do bairro, onde também foi assassinado a tiros Claudio Henrique Pino da Silva, 28 anos, diante da esposa, ao discutir sobre o jogo em um bar, localizado na Rua Solimões.
Repúdio e lamentação inúteis
O presidente da FAF, Felipe Feijó, o secretário de Segurança Pública, coronel Lima Júnior, e o governador de Alagoas, Renan Filho (PMDB), repudiaram e lamentaram a selvageria, após as cenas voltarem a envergonhar o alagoano Brasil afora. O chefe do Palácio dos Palmares foi além, disse, na manhã desta segunda-feira (9) que vai trabalhar pelo fim das torcidas organizadas e sugeriu que o “Clássico das Multidões” seja realizado com torcida única.
Além disso, o governador determinou que o Conselho Estadual de Segurança Pública investigue se houve negligência da PM. Uma óbvia negligência deveria ser o resultado de qualquer apuração sobre os fatos: o mau uso dos recursos públicos, o mau uso da força policial.
Pois o maior dos crimes dessa relação promíscua entre clubes de futebol e poder público é a exposição das forças de segurança ao descrédito, à ação de mafiosos, à omissão das autoridades, no momento em que policiais são colocados no centro da arena para serem julgados por falharem em uma função que não é sua.
No último domingo, a PM se tornou uma vitrine no Rei Pelé. Vitrine que foi apedrejada por não conter a violência contra quem transforma o esporte em um ato de violência.
Quem invadiu o gramado ontem, se aproveitando da ausência de policiais que poderiam estar ostensivamente posicionados, demonstrou que tinha a disposição de simplesmente agredir rivais. Quem viu as imagens da luta compreendeu que alguns se tornaram vítimas do próprio instinto violento e criminoso, apesar de espancamentos covardes.
Veja o flagrante do canal Esporte Interativo, que repercutiu no canal internacional 101 Great Goals:
Fala sério!
Cartolas e as autoridades que comandam a Segurança Pública de Alagoas deveriam calar, se não estivessem dispostos a defender, honestamente, que a Polícia Militar não é culpada pelas cenas de violência, que as torcidas organizadas precisam deixar de ser tratadas como instituições legítimas para negociar com o Ministério Público, o Judiciário e com a Segurança Pública. Negociações estas que jamais avançam na promoção de segurança.
Aos dirigentes de clubes de futebol é negado o direito de condenar, com demagogia, a ação policial ou de apontar falhas ocorridas na segurança dos torcedores, pelo simples fato de eles usurparem a segurança pública dos alagoanos como se fosse segurança privada em benefício de seus interesses. Investimentos em segurança privada, em tecnologia para identificar torcedores e na reparação de danos causados deveriam ser feitos pelos clubes e pela FAF, que enchem seus bolsos de dinheiro de bilheteria e, muitas vezes, do poder público, por meio de patrocínios.
A Polícia tem que cuidar da chegada e dispersão de torcedores. Dentro do estádio, a responsabilidade é de quem cobra o ingresso.
À cúpula da Segurança Pública de Alagoas também é negado o direito de somente condenar a selvageria no Rei Pelé, em vez de repudiar a presença dos agentes públicos de segurança naquele evento privado. Mas é fato que, se decidem ceder a PM para a segurança do jogo, os gestores públicos também não podem omitir suas responsabilidades dentro e, principalmente, fora de campo.
A relação da PM nos estádios é tão absurda que já chegaram a dar a policiais tarefas de catar lixo após os jogos.
Infelizmente, as cenas voltarão a se repetir, enquanto autoridades permitirem e até incentivarem a inclusão da PM nesta relação obscena entre a cartolagem e as torcidas criminosamente organizadas, em uma sociedade que deveria valorizar a busca pela justiça social.
É preciso respeitar o papel da Polícia Militar, que deve atuar pela promoção da paz no estado que tenta escapar da pecha de mais violento do Brasil. Alagoas não tem gladiadores para lutar em arenas públicas na política de pão e circo. Os agentes de segurança pública devem ser banidos dos estádios. Pois quem vende ingresso não pode terceirizar ao poder público a responsabilidade que tem com a segurança do espetáculo do futebol, que é importante social e economicamente para o alagoano.
Na verdade, a única segurança garantida com a presença da PM nos estádios é usar policiais covardemente para proteger os cartolas das responsabilidades que deveriam assumir com a segurança no futebol de Alagoas.
Enfim, a culpa não é da PM!
