Desde que a Operação Lava Jato revelou o “núcleo político” dos supostos envolvidos no esquema de desvio de recursos públicos (a lista de políticos investigados que ficou conhecida como “lista de Janot”, em referência ao pedido do procurador-geral da República, Rodrigo Janot), que tenho buscado ouvir os alagoanos envolvidos no esquema que ficou conhecido como Petrolão.
A minha ideia é trazer suas versões de forma detalhada. Até aqui, apenas o deputado federal Arthur Lira (PP) aceitou o papo.
Como contexto, vale lembrar: da bancada alagoana, os três senadores (Benedito de Lira (PP), Renan Calheiros (PMDB) e Fernando Collor (PTB)) e um deputado federal (Arthur Lira (PP)) foram citados e são alvo de inquéritos. Destes, Arthur Lira aceitou o convite para uma entrevista longa sobre o assunto. O deputado do PP me recebeu em seu escritório – em Alagoas – na sexta-feira, dia 1º de abril, às 15h30. Iniciou o diálogo fazendo questão de afirmar o seguinte: “Estou tranquilo de que provarei minha inocência. O que está sendo feito comigo é uma sacanagem”.
Os quatro respondem e devem provar suas inocências na Justiça. Repito o que venho dizendo aqui: diante dos indícios de corrupção, quem for podre que se quebre. Quem for inocente, que seja inocentado. Mas um homem público tem que prestar esclarecimentos de seus atos e detalhar os fatos nos quais se vê envolvido.
Lira é acusado de corrupção e se encontra numa vasta lista de políticos do PP que são investigados como tendo recebido recursos oriundo de propina em suas campanhas políticas. No caso de Lira, a suspeita do pagamento de dívidas. Retornarei ao caso mais adiante.
Mais recentemente foi denunciado – pela Procuradoria Geral da República - juntamente com outros seis pepistas por conta de quatro inquéritos. “Está aqui esta denúncia (mostra o processo em mãos). Pode folhear. O que é falado sobre mim cabe em meia página (Lira aponta o trecho). Não há razão do meu nome estar aqui”, defende-se.
De acordo com Arthur Lira há erros de interpretação por parte das investigações que fazem “ilações”. “É preciso explicar toda a história para poder se entender o que aconteceu. Eu fui candidato a deputado federal em 2010, quando meu pai (senador Benedito de Lira) foi candidato ao Senado Federal. Eu coordenei minha própria campanha e a campanha do meu pai. Era eu quem tratava das doações”, salientou.
Lira diz que – em 2010 – esteve duas vezes em Brasília para “tratar de doações de recursos para a campanha com o PP Nacional”. “Eu não obtive sucesso em nenhuma ocasião. Nem mesmo cheguei a ser recebido pelo tesoureiro do PP, José Janene”, diz. Segundo Lira, isto era natural. “Em 2010, meu pai aparecia nas pesquisas em terceiro na disputa pelo Senado”, explica.
Como não chegava – segundo o deputado federal – recursos do fundo partidário, Benedito de Lira teria entrado em contato com a direção do PP. “Eu fui orientado a procurar o Pedro Corrêa, em Recife (PE). Ele era deputado federal pelo PP de lá. A visita foi inócua. Depois, o Pedro Corrêa entrou em contato, por telefone, com o tesoureiro José Janene. Foi quando eu conversei com o tesoureiro”, detalha ainda.
Arthur Lira afirma que Janene (já falecido) marcou um encontro com ele. No encontro, estava alguém identificado apenas como “Primo”. “Este encontro ocorreu em São Paulo. Eu estive no endereço, localizado na Avenida Gabriel, na capital paulista. É nesta visita que aparece aquela fotografia que a Veja usa, para mostrar que eu fui ao encontro do Alberto Yousseff. É este encontro que ele cita. Eu tirei a fotografia na portaria do prédio. Identifiquei-me. Se eu estivesse indo fazer algo errado, eu me identificaria? Neste encontro eu tratei das doações de campanha para o Senado, na disputa das eleições de 2010”.
O “Primo” é ninguém mais, ninguém menos que Alberto Yousseff. “Eu nem sabia que Primo era a alcunha do Alberto Yousseff. Eu só vim a tomar conhecimento disto em 2011. Eu me encontrei com ele no escritório e ouvi dele que seria difícil obter doações para o meu pai, porque dificilmente ele conseguiria derrotar Renan Calheiros (PMDB) ou Heloísa Helena (PSOL), que eram os rivais na disputa. Eu simplesmente agradeci por ter me recebido e fui embora”. De acordo com o pepista, não houve recebimento de qualquer valor nesta visita.
“Semanas depois, é que o escritório do senador Benedito de Lira recebeu um telefonema do PP informando que foi feita uma doação. A Construtora Constran (um dos braços da UTC de Ricardo Pessoa) doou R$ 400 mil para o partido. O partido repassou a quantia para a campanha de meu pai. Foram realizados dois depósitos no valor de R$ 200 mil cada um. Um em julho de 2010 e outro em agosto de 2010. As duas quantias foram repassadas à campanha de Benedito Lira oficialmente, sem nenhum vício de legalidade, de acordo com a legislação vigente”, colocou Arthur Lira.
Lira diz que como as campanhas – dele e do pai – foram vitoriosas, ele resolveu visitar os “doadores de campanha para agradecer”. “Fiz isto com as doações que recebi aqui localmente, já que estas ocorreram quando o senador Benedito de Lira começou a crescer nas pesquisas, assim como busquei agradecer a Constran, que a única referencia que eu tinha era o escritório que ficava em São Paulo. Fui agradecer aos representantes da Constran – que era o presidente João Santana – porque Janene já havia falecido. Foi quando foi marcada uma outra reunião com a presença de João Santana, Alberto Youssef e eu, em um restaurante no bairro dos Jardins, e São Paulo. Eu agradeci”.
Segundo Arthur Lira, como a campanha do pai não teve grandes gastos, em função de ocorrer de forma conjunta com a do ex-governador Teotonio Vilela Filho (PSDB), Benedito de Lira teria lhe repassado – como doação de candidato para candidato – recursos obtidos pela Constran. “De forma legal, pois a legislação permite”, frisa. No entanto, para as investigações, pode ter existido a tentativa de lavagem de dinheiro por meio das doações. Arthur Lira nega. Como nega qualquer outra relação com Yousseff, além dos encontros que ele relata dentro das situações que descreve.
Outra denúncia é a de que Alberto Yousseff quitou uma dívida de Arthur Lira, no valor de R$ 200 mil, num negócio ilegal que envolveria o empresário Eduardo Leite. “Ele é um grande empresário e amigo meu que foi envolvido nisto sem nenhum motivo”. Indaguei ao deputado federal, o que então há em relação a esta dívida.
Ele (Arthur Lira) dá a versão dele: “Estive em Recife – em março ou abril de 2010 – para encontrar com o Pedro Côrrea. Na época, agradeci. Porém, o Pedro me pediu um empréstimo no valor de R$ 400 mil. Como eu era grato por ele ter ajudado na campanha do meu pai, eu me prontifiquei em ajudá-lo. Eu não tinha aquela quantia, mas acionei um empresário que é amigo meu e com quem mantenho relações comercias, que é o Eduardo Freire Bezerra Leite”.
Lira diz que conhece Eduardo Leite desde 2006 e que – na época – intermediou uma compra de uma fazenda em Quipapá (PP). Daí, nasceu a amizade. “Quando eu disse que o empréstimo era para o Pedro Corrêa, ele se negou a emprestar. Mas quando empenhei a minha palavra, assegurando o pagamento, o Eduardo concordou em realizar o empréstimo de metade do valor solicitado (R$ 200 mil). Eu nunca tive posse desse dinheiro. Ele foi entregue a um portador indicado por Pedro Corrêa. Três meses depois recebi o telefonema de Eduardo Leite cobrando o pagamento do empréstimo feito a Pedro Corrêa. Eu liguei para o Pedro, que pediu o número de uma conta para o pagamento. Eu repassei os dados bancários e a história ali havia se encerrado. Depois que eu soube que a conta informada por Eduardo Leite é a da empresa Câmara & Vasconcelos”.
Influência e acusações
Lira assumiu o mandato em 2011, mas tenho ganho espaços de destaque dentro do Congresso Nacional e – por consequência – do próprio partido. É, atualmente, o presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). De acordo com ele, todo este caminho foi traçado com muitas brigas internas no PP. O grupo de pepistas no qual ele se inclui comprou uma briga com o grupo de pepistas do ex-ministro das Cidades, Mário Negromonte.
O grupo de Negromonte era – segundo Lira – o que tinha forte ligação com o ex-diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa, e com o operador e doleiro Alberto Yousseff. “Houve uma forte disputa política, com trocas de acusações. Tudo isto está fartamente documento na imprensa da época. Isto se deu logo no primeiro ano de meu mandato, em 2011. Era um grupo de novatos do PP, do qual eu fazia parte, pois estava em meu primeiro mandato, com um grupo de dissidentes. Nós nos juntamos e tivemos esta disputa – no campo político – com o grupo mais antigo. Como este grupo mais antigo caiu, o Paulo Roberto Costa perdeu sustentação, assim como o Youssef perdeu espaço. Nós fizemos a liderança do PP e depois indicamos o ministro. Obviamente o Youssef não gostou de perder espaço. Aproveitou as delações para se vingar”.
Questionei o que motivava a briga dentro do PP. “Os dissidentes e os novatos estavam insatisfeitos com a condução da liderança do PP. Então, uniram-se em um único bloco para mudar os rumos do PP. O grupo predominante acabou perdendo espaço político e, no segundo semestre do primeiro ano daquela Legislatura (2011-2015), o então líder do partido na Câmara, Nelson Meurer (PR), acabou sendo destituído do cargo pelo novo grupo. Em agosto de 2011, o PP elegeu Aguinaldo Ribeiro (PB) para o cargo de Líder do PP na Câmara. O novo Líder assumiu em agosto de 2011 e ficou no posto até fevereiro de 2012. Saiu da liderança para comandar o Ministério das Cidades, em lugar de Mário Negromonte, que retomou seu mandato de deputado federal pelo PP-BA. Em lugar de Aguinaldo Ribeiro, fui eleito para o posto de Líder do PP na Câmara, cargo no qual permaneceu entre fevereiro de 2012 e outubro de 2013”.
Paulo Roberto
Diante do que Arthur Lira conta, eu indago sobre a relação entre o Paulo Roberto Costa e o PP e se o deputado federal alagoano matinha alguma relação com o ex-diretor da Petrobras. “Eu só estive com ele em três ocasiões. A primeira delas, em um jantar oferecido pelo PP, quando nem sequer foi apresentado formalmente a Costa. A segunda, na sede da Petrobras, no Rio de Janeiro (RJ), para tratar de um loteamento por onde passava um gasoduto na cidade de Pilar (AL). O assunto, que nunca chegou a ser resolvido. O terceiro encontro foi realizado no Rio de Janeiro (RJ). Com as mudanças no comando do PP, no final de 2011 e início do ano de 2012”.
Arthur Lira diz que o terceiro encontro serviu para Paulo Roberto Costa pedir o apoio das novas lideranças do PP, já que o grupo que dava suporte a Costa na Petrobras havia caído. “Nesse encontro também estavam presentes os deputados Aguinaldo Ribeiro, então líder do PP na Câmara, e Eduardo da Fonte e o senador Ciro Nogueira. A reunião foi realizada na casa de Henry Hoyer, amigo de Costa, que embora tenha cedido o local para o encontro não participou da conversa”.
“O Paulo Roberto pediu apoio político para seguir à frente da Diretoria de Abastecimento da Petrobras. O grupo de parlamentares presentes ouviu o pedido do então diretor da Petrobras e não deram nenhuma resposta na ocasião. Os parlamentares responderam que o tema seria debatido com outros parlamentares do PP. Depois, a decisão dos parlamentares do PP foi a de não prestar apoio político a Paulo Roberto Costa”, salientou. O parlamentar alagoano deduz que isto incomodou Costa e acabou atrapalhando os planos da antiga ala do PP.
Isto pode ter ajudado na demissão de Paulo Roberto Costa, segundo Lira. “Quando o grupo do qual fazia parte assumiu a liderança do PP, deixamos de prestar qualquer tipo de apoio ao Paulo Roberto Costa na Petrobras. A origem de todas as doações para a campanha já foi esclarecida, inclusive no inquérito da Polícia Federal. O que há são ilações de delatores que têm notória inimizade”. Em resumo: Arthur Lira se diz vítima de vingança por uma ala do PP ter implodido um possível esquema de operações de recursos que existia no comando da outra ala.
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