O deputado estadual Ronaldo Medeiros é vice-presidente da Mesa Diretora da Assembleia Legislativa do Estado de Alagoas. Natural de Palmeira dos Índios, Medeiros está exercendo seu segundo mandato, eleito pelo PT, partido que era oposição ao governo de Teotônio Vilela. Hoje numa posição diferente, lidera a bancada governista que apoia Renan Filho.
Um dos fundadores do PT em Palmeira dos Índios, ainda em 1987 e depois de um período afastado, voltou em 2007. Já foi diretor da Central Única dos Trabalhadores, em Alagoas, fundador do sindicato dos previdenciários, seu primeiro vice-presidente, e sustenta uma história nos movimentos estudantis e sindicais.
Ronaldo Medeiros falou sobre a “nova” ALE, a mudança de partidos, os governos federal e estadual, e ainda falou sobre as expectativas para as eleições municipais no próximo ano, que pode ocorrer sem o financiamento “oficial” de empresas.
Nesta entrevista exclusiva, Medeiros revela sua “tristeza” em relação ao partido que “estuda” deixar pelo PMDB, ou outro partido que não quis mencionar. Teceu críticas ao governo federal, mas também ao PT que, segundo ele, é incoerente. Deveria ter expulsado todo militante que foi condenado pela Justiça, como ocorreria se fosse ele o condenado.
Como avalia esta nova fase que passa a ALE?
É uma fase de avanço, porque pegamos uma ALE deficitária. Temos um déficit de mais de R$ 20 milhões somente com pessoal. Liquidamos o 13º do ano passado dos servidores, estamos liquidando, até dezembro deste ano, o mês de dezembro do ano passado, hoje pagamos em dia. Agora estamos pagando o 13º no mês do aniversário do servidor. Eu estou aqui há 5 anos, nenhum ano desses 5 anos, a ALE pagou 13º no ano trabalhado, nem no mês de dezembro, sempre depois e com muita polêmica. Então, eu estou vendo avanços. A formatação da Casa, estamos no começo ainda, mas a internet aqui da casa era em nome de um terceirizado, temos hoje tudo regularizado, adquirimos mais de 200 computadores, scanners, internet. A escola legislativa vai ser um grande marco. A biblioteca que a gente inaugura até dezembro, que já é folclórica, mas iremos inaugurar até dezembro. Hoje funciona o protocolo novo, é digital. O painel eletrônico da Casa foi licitado na sexta-feira, esta semana vamos assinar o contrato com a empresa. O parlamento tem seus problemas, mas vem evoluindo, e vem evoluindo mesmo. O que a gente cobrava da mesa passada era transparência e que a casa se informatizasse.
Por falar em transparência, ainda falta disponibilizar a lotação de todos os servidores, bem como seus salários.
O salário dos comissionados, o que cobram, é que cada deputado tenha identificado lá quem são os assessores. Eu divulguei os meus, o deputado Bruno Toledo também divulgou. Alguns deputados divulgaram e outros não querem. Todos os comissionados nossos estão dentro da lei, não existe um excesso aqui, não existe ninguém pago por fora. As contribuições previdenciárias, encontramos uma folha de R$ 300 mil mensais, hoje estamos pagando R$ 1,5 milhão. Houve um acréscimo muito grande. Nós estamos fazendo questão de pagar todos os impostos em dia. Hoje nós temos todas as certidões.
Toda essa modernização tem gerado economia para Casa?
Nós licitamos um painel eletrônico aqui que o preço dele é R$ 296 mil, ele foi comprado por R$ 229,5 mil, tudo licitado, empresa que veio de fora, todo material nosso, material de informática, tudo licitado, então nós não temos mais nenhum problema com isso. E ganha a empresa que tiver o menor preço. Todas as licitações nossas estão no portal. A empresa que ganhou e os contratos também estão disponíveis. Até porque hoje a gente não tem mais o que esconder. A sociedade não aceita mais isso.
E o duodécimo, pretendem lutar por aumento?
O duodécimo da ALE teve uma redução maior do que os outros poderes no começo do ano e agora tivemos um aumento linear de 3.45% para todos os Poderes, que é a previsão de aumento de receita. Com tudo isso que a gente vem fazendo aqui, claro que o orçamento, segundo os cálculos do pessoal aqui da Mesa, não dá. Mas se for o jeito, a gente vai ter que se adaptar. Estamos informatizando a Casa, estamos pagando os atrasados, pode ser que a gente diminua os gastos. O único Poder que não deu aumento a seus servidores. Isso também não é justo. A gente tem que negociar com os servidores, quando terminar o pagamento dos atrasados, pelo menos uma reposição da inflação que tem aumentado substancialmente.
Será que nesta nova ALE a comissão de ética vai funcionar?
A comissão de ética não foi ainda instalada, ela foi indicada. A comissão de ética funciona quando é provocada por algum membro ou por algum ato que ocorra aqui na ALE que justifique a sua reunião, como não tem nenhum processo aberto na comissão de ética, ela não se reúne.
É verdade que o senhor pretende deixar o PT?
Eu estou estudando a questão porque quando eu fui pedir voto para Dilma e para Lula eu pedia dizendo o que o partido ia fazer. O partido avançou muito, várias conquistas do Brasil deve-se ao governo do PT, mas eu acho que nos últimos anos a gente saiu do nosso caminho. O partido precisa fazer uma reflexão e voltar-se para dentro para ver em que momento foi que ele errou. Nós tínhamos militantes históricos, militantes que praticamente deram suas vidas pelo Brasil, mas que erraram. Se fosse eu, eu estaria fora do partido. A Justiça que serve para o Antônio tem que servir para o Zé também. O partido tem que analisar da mesma forma e eu acho que o partido tinha que tratar da mesma forma.
Esses militantes condenados pela Justiça deveriam sair do partido?
Sim. Deveriam sair do partido. Se fosse em outros tempos, se fosse eu como deputado, eu estaria fora do partido, eu não tenho nenhuma dúvida, mesmo antes do processo ser julgado pela corte maior do Brasil. Eu acho que deveria fazer com todos.
E como avalia a gestão da presidente Dilma Rousseff?
Tem umas medidas que nós não podemos só penalizar os trabalhadores. Sou servidor público da Previdência e tivemos uma greve lá agora, o reajuste só em agosto do ano que vem, 5,5%, não é nem reajuste, você não recupera nem as perdas inflacionárias. O servidor do INSS quando se aposenta recebe a metade do salário dele, e num momento de velhice, ora, trabalhou, contribuiu em cima do que recebia. Da mesma forma o aposentado do regime geral de previdência do INSS, os que ganham mais de um salário mínimo são penalizados pelo fator previdenciário, pelos reajustes diferenciados que existem entre quem ganha um salário mínimo e quem ganha 2 ou 3. Isso fica ruim para a agente justificar a perda de alguns benefícios sociais conquistados, como o seguro desemprego e outros e outros, o pescador...
Sente-se cobrado por seu eleitorado?
Ah, sim, porque não foi isso o que eu disse na minha campanha, não é isso o que eu defendo. O partido tem que fazer uma autocrítica, o partido tem que voltar a ser aquele partido dos trabalhadores que eu conheci em 1987, quando militei e até nos dois governos do presidente Lula. A presidente Dilma tem uma grande dificuldade de diálogo.
Diria que está decepcionado?
Não digo que estou decepcionado, mas estou triste. Uma parte da gente fica triste pela falta de diálogo, por essa crise toda que estamos vivendo, é uma crise política que está afetando a economia. Está afetando o pão, o feijão, o arroz, de quem mora lá longe, por alguém que não está tendo a habilidade de conversar e dialogar e esta é uma das ações primordiais da política. Quando você tem essa ruptura no diálogo é perigoso. Ela, com todos os problemas, foi eleita e deve concluir o seu mandato, mas as vezes a gente acaba provocando algo que a gente não quer provocar, que eu sei que ela não quer provocar, ela sofreu muito na ditadura, na sua juventude, mas ela está agindo de uma forma...
Acha que ela poderia convocar as forças armadas?
Não. Retirando ela do poder. Mesmo eu não concordando com as medidas que são adotadas pelo governo federal, mas retirar não pode. Ela tem que voltar a dialogar, governar, ela foi eleita. Ela tem dialogado pouco. Ela tem um perfil mais gerencial, mas se ela se candidatou à presidente, tem que também ter esse perfil de conversar. A fundação Perseu Abramo, uma fundação muito importante do partido, saiu com um documento criticando claramente a politica econômica, propondo uma política que vai na contramão da política que está sendo proposta hoje. Que era uma política que nós combatíamos. Quem está pagando essa conta são os trabalhadores, não é só o Ronaldo que esta descontente.
Está falando dos deputados federais que saíram do PT recentemente?
Já dois deputados saíram. O Molon do Rio, um deputado importante para o partido. Também saiu um de Minas. E eu tenho certeza que o partido ainda vai perder muitos. Principalmente se passar agora essa janela para as pessoas mudarem para qualquer partido. E isso não é bom, porque são militantes. O senador Paulo Paim mesmo é um senador que vai de encontro à maioria dessas medidas que estão sendo adotadas, e tem grande expressão justamente porque mantem sua coerência. Ele não é contra ou a favor hoje. Ele era contra lá atrás, antes do partido ser governo e ele continua contra hoje.
O senhor encontra incoerência no discurso do partido?
Antes éramos contra o fator previdenciário, hoje somo a favor. Éramos contra a CPMF, somos a favor. Isso é incoerência. A gente tem que ter esse diálogo com a sociedade, ela foi eleita, o país elegeu para o segundo mandato principalmente porque os movimentos sociais organizados voltaram a militar, porque muitos já estavam desiludidos e pensando no retrocesso que seria se o oponente dela tivesse sido eleito. E logo depois da eleição dela, adotou uma serie de medidas que desiludiu muita gente, desiludiu com a política e com o partido, duas coisas ruins.
Está considerando ir para o PMDB, partido do governador Renan Filho?
Eu tenho recebido convite de alguns partidos, que eu estou analisando. Tenho que analisar também a questão legal, porque eu não posso colocar em risco um mandato que eu consegui com tanto sacrifício. Tenho que analisar legalmente e também tenho que escolher um local que eu me sinta bem. Que eu saia do partido, se eu sair, eu saia com a cabeça erguida, tranquilo, dentro de um clima, do mesmo jeito que eu entrei no partido. Eu não vou sair para qualquer lugar, senão estarei trocando seis por meia dúzia, tem que ser um lugar onde eu me sinta bem, eu tenha voz, tenha espaço, que minhas ideias eu possa expor e possam ser aceitas, que mesmo que não sejam aceitas, que eu possa negociar.
O sr. acha que teria esse espaço no PMDB?
O PMDB é um partido bom, eu não teria nenhum problema em ir, assim como outros partidos. Eu preciso pensar muito. Eu me elegi os dois mandatos pelo PT. Hoje temos divergências com a condução da política que afeta muitas pessoas que votaram em mim, que votam em mim e que agora estão me cobrando. Eu tenho sido muito cobrado para que eu tome um posicionamento, até mesmo criticar, e eu fico numa posição incômoda, porque eu sempre defendi que as críticas deveriam ser feitas em casa. Mas o partido não está aceitando mais as críticas. O partido também não pode ficar nessa de “não, os outros também estão fazendo coisas erradas, não é só a gente”. Não, este não é um discurso correto. Até porque o maior discurso nosso, sempre foi a ética, a cidadania, o trabalhador, a defesa do trabalhador, nós crescemos e chegamos onde chegamos com esse discurso e com essa prática. E hoje ela mudou muito essa prática. Hoje nós estamos fazendo o que antes criticávamos.
Como o Brasil sai dessa crise?
Dialogando e com projetos para o futuro. O governo vem com remédios muito amargos, mas a gente vê que mesmo com esses remédios amargos, a área econômica não mostra
perspectiva de melhora, sempre diz que próximo ano piora, que a inflação vai aumentar, como é que o empresariado vai investir? Já que é uma crise de confiança aqui no Brasil. O trabalhador tem que deixar de pagar sozinho a conta. O desemprego está aumentando, o arrocho está aumentando, as empresas estão fechando, os estados e prefeituras estão falindo, indo à bancarrota. Aqui em Alagoas, por exemplo, se o governador não tivesse adotado as medidas lá atrás, quando ele assumiu, hoje não estaríamos aqui. Temos mais de dez estado no Brasil que estão atrasando a folha de pagamento, isso é inconcebível, a receita diminui, mas os custos aumentam. A sociedade não quer que demita médicos, professores, o governo tem que manter este padrão. Temos que ter um plano econômico que o Brasil cresça, não que ele encolha. Temos vários avanços sociais que o partido conseguiu e nós não podemos voltar no tempo.
Que avaliação o senhor faz da gestão Renan Filho?
Faço uma avaliação boa. Ele assumiu em crise. Foi o único governador que assumiu com a LRF estourada. O governador que reduziu secretarias aqui em Alagoas, reduziu cargos comissionados, foi discutir contratos, conseguiu reduzir alguns contratos e tem projetos. Da última vez que fui lá, ele me mostrou vários projetos. Demonstra que quem está no comando tem um bom horizonte para as pessoas que estão no seu barco. Poderia ser melhor se o Brasil estivesse numa situação melhor, mas dentro das condições que recebeu o estado, eu avalio como positiva a gestão.
Estas medidas de cortes adotadas pelo governador deveriam ter sido adotadas também pela presidente Dilma, como diminuição de ministérios e cortes de cargos?
São Paulo tem 40 secretarias. O valor percentual desses cortes seria mais simbólico, na economia não representa como representou em Alagoas. Mas isso tem que ser feito. A sociedade, as empresas e os empresários precisam ver que o governo está dando exemplo. Que está cortando na própria pele. O gestor de uma empresa, um gerente, tem que ser exemplo. O governo federal tinha que ter feito isso lá atrás. Não sei se terá o mesmo efeito se fizer agora.
Como estão as tratativas em relação às eleições municipais?
As eleições já começaram, principalmente com essa nova legislação sendo aguardada. Quando as pessoas poderão mudar de partido, as articulações começaram. Nas grandes cidades, as pessoas já buscam espaço em rádio, aqui em Maceió já buscam espaço na TV.
Há preocupação em relação ao financiamento de campanha?
A gente tem que ser muito pé no chão. Claro que eu sempre torci pelo financiamento público de campanha. Muitas vezes a sociedade não entende e pensa que o dinheiro da campanha está saindo dela, de seu imposto. Mas ela paga de forma muito mais cara. Com empresariado e as pessoas que financiam as campanhas fica mais caro depois para o Brasil e para as próprias pessoas. A Justiça Eleitoral tem que ter mais estrutura para fiscalizar. Não adianta você acabar com o financiamento oficialmente e ele continuar em caixa 2, ficando em paralelo. É até pior. No Brasil tem acontecido algo que é muito perigoso. É a junção do poder político
com o poder econômico. Antigamente, o poder econômico financiava, indicava seus representantes. Hoje, o poder econômico está indo para o poder político, coloca filho, cunhado, esposa, dentro do poder. Você acaba dando muita força e criando um desequilíbrio muito grande com isso.
O que ainda está faltando fazer na ALE?
Reformar a Casa fisicamente. Nós temos uma auditoria feita por uma fundação de renome internacional, que é a fundação Getúlio Vargas. Saíram os primeiros relatórios, mas os primeiros são mais relacionados ã legislação e valores. Mas agora vão começar a detalhar cada registro funcional, eles devem entregar este relatório até fevereiro, era até dezembro ou janeiro, mas tiveram dificuldades em conseguir legislações da década de 60, 70 e 80, para poder analisar toda a folha. Mas eu estou muito confiante neste trabalho. Não que não tenham fundações em Alagoas que poderiam ter feito, não quero desrespeitar, mas uma fundação de renome que está livre de pressões. São medidas corajosas, você não vai fazer uma auditoria com a fundação Getúlio Vargas para não dar em nada. A sociedade já reconhece que melhoramos bastante, claro que ainda há críticas e elas devem mesmo existir, pois é para a sociedade que nós trabalhamos e precisamos prestar contas a ela.
O sr. pensa em ser presidente da Mesa?
Eu gosto e aprovo o trabalho de Luiz Dantas, eu não sairia candidato de maneira nenhuma contra ele.
E como tem sido ser líder do governo depois de tantos anos fazendo oposição?
Tem sido desafiador. Sai de um extremo para o outro. Eu era a liderança da oposição e agora sou o líder do governo. É uma experiência nova, uma experiência que requer muito da gente. A gente termina tendo que negociar com 26 deputados. Cada um tem demandas para o estado, a gente tem que saber administrar. E muitas vezes a gente acaba esquecendo o próprio mandato. Mas está valendo a pena ser líder, está sendo muito rica a experiência, principalmente pelo envolvimento do governador. Gosto de trabalhar com pessoas que tenham ritmo de trabalho feito o governador Renan Filho, que é político e é técnico, isso dá uma tranquilidade muito grande para a gente poder trabalhar.
*colaboradora