Brasília continua em polvorosa. Desde que se iniciou o ano legislativo de 2015, deputados e senadores trabalham em ritmo acelerado. Nos cem primeiros dias da atual legislatura a Câmara dos Deputados aprovou 59 matérias. Trinta, só projetos de lei, contra 14 no início da última legislatura, em 2011.
Na condução destes trabalhos ganha destaque o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), que apesar de integrar partido da base de apoio do governo federal, desde julho assumiu publicamente sua postura oposicionista ao governo. Cunha tem enfrentado companheiros de partido e adotado medidas que contrariam diretamente os interesses da presidente Dilma Rousseff (PT) e seus aliados.
No início deste mês de agosto, a Câmara aprovou o texto base da “pauta-bomba” lançada por Cunha, aprovando o aumento salarial para carreiras da Advocacia-Geral da União e para delegados federais e civis. O golpe atingiu frontalmente os planos do governo federal e do Ministério da Fazenda sobre o ajuste fiscal implantado visando à recuperação da economia brasileira.
Nada acalma o presidente da Câmara que já foi denunciado por Rodrigo Janot, procurador-geral da República, por envolvimento com os esquemas investigados na operação Lava Jato, da Polícia Federal. Na última segunda-feira (24), o Governo Federal anunciou – enfim – cortes de dez ministérios.
Os 39 ministérios serão reduzidos a 29. Tal medida, como o presidente do Senado Renan Calheiros (PMDB) já vinha alardeando como indispensável, também não arrefeceu os ânimos de Cunha, que aproveitou a oportunidade para conclamar os colegas de partido a serem os primeiros a devolverem seus ministérios.
“Todos deveriam entregar (ministérios), todos deveriam reduzir. O PMDB deveria ser o primeiro a entregar todos, não só a redução proporcional, mas sair da base do governo”, disse Cunha. Tamanha provocação parece ter passado despercebido entre colegas de bancada federal.
Marx Beltrão não recebeu orientação do partido para devolver cargos
O deputado federal alagoano Marx Beltrão (PMDB), logo após reunião com a bancada peemedebista, revelou à reportagem do CadaMinuto Press que não houve nenhuma orientação no sentido de devolução de cargos federais por parte do partido. Ao mesmo tempo em que demonstrou desconhecer a declaração do presidente da Câmara, seu colega de partido, Beltrão justificou o apoio ao governo.
Segundo Beltrão, o líder da bancada do PMDB na Câmara, Leonardo Picciani (RJ)disse que foi aprovado em convenção nacional que o partido faz parte da base do governo e que só poderia sair da base do governo sendo aprovado em outra convenção nacional.E reiterou: “A liderança disse isso”.
Questionado sobre sua disposição em devolver cargos ao governo federal, o deputado disse que não ia responder antes que o partido definisse a situação. “Eu estou num partido que está na base do governo, que foi aprovado em convenção nacional, eu não fiz parte dessa convenção, porque eu não era deputado federal na época”.
O deputado também não sabia que já há data para a próxima convenção nacional do partido, em novembro. Mas disse que se for aprovado pela maioria, o PMDB sairá da base do governo. Beltrão disse ainda que “uma discussão particular de deputado A ou B que tenha rompido com o governo, não fala em nome do partido, fala em nome de si próprio”, referindo-se a Eduardo Cunha.
Claramente Beltrão não comunga dos pensamentos de Cunha, mas não se omite e deixa claro que faz parte do partido e que está com o governo. No entanto, o deputado esclarece que seus votos são independentes. “Eu sempre declarei que meu partido é da base do governo, mas que ninguém vai dizer no que eu devo votar ou não no Congresso. Eu não aceito cabresto de ninguém. Eu voto de acordo com o povo. Sempre fiz isso e sempre vou fazer”, afirmou.
PMDB ainda negocia cargos no Planalto
Foi veiculado na imprensa alagoana que caberia ao deputado Marx Beltrão, único do PMDB de Alagoas na Câmara dos Deputados, a indicação aos cargos políticos disponíveis na Caixa Econômica Federal, dentre eles o de superintendente no estado. Beltrão negou veementemente que houvesse qualquer envolvimento com a Caixa.
“Isso aí é uma questão interna que ainda estamos discutindo, mas Caixa Econômica não tem nada a ver comigo não”, esclareceu. Beltrão também não quis revelar quais cargos lhe competiriam na repartição do bolo federal em Alagoas, limitou-se a dizer que o assunto ainda está sendo discutido com a bancada de Alagoas, “ainda estão sendo feitas essas negociações”.
A reportagem tentou contato com o líder da bancada alagoana, deputado Ronaldo Lessa (PDT), mas não obteve sucesso, durante a semana que foi bastante tumultuada em Brasília-DF.
