“Estava numa estrada estreita de terra, no meio de um matagal. O mato estava alto e algo fazia Paula continuar caminhando. De repente foi atingida por uma pedra e quando se virou viu o irmão se escondendo no meio das plantas. Correu atrás dele e pediu que ele parasse, que voltasse para casa porque a mãe estava muito aflita a sua procura. À sua frente apareceu um grande galpão e quando se aproximou, olhou pelas frestas da grade e viu várias pessoas lá dentro. Amontoadas, algumas em pé, outras agachadas, algumas vestidas com farrapos e outras sem roupas. Desesperada, encontrou o irmão no meio daquelas pessoas e gritou por ele. Mas ele respondeu que não podia sair, que estava preso, e mandou que Paula voltasse, saísse dali rápido porque podiam prendê-la também. Com medo, Paula prometeu voltar com ajuda e tomou o mesmo caminho no sentido de casa. Ao final da trilha encontrou um pastor, o mesmo que diz estar rezando por seu irmão. Aos gritos pediu ajuda, mas antes que algo pudesse ser dito, Paula acordou”.

Este foi um dos sonhos que Ana Paula, irmã de Davi da Silva, teve no último ano. Neste mês de agosto (25), completa um ano desde que Davi, o Amarildo alagoano, sumiu depois de ser levado por uma guarnição, numa viatura da radiopatrulha. O sonho foi contado por dona Maria, mãe de Davi, que se apega a qualquer coisa, qualquer sinal, para não perder as esperanças de que o filho um dia retorne. “Minha filha, me diga, você está sabendo de algo? Você sabe onde meu filho está? Ele morreu? Não aguento mais esta angústia”.

Com dificuldade na fala, dona Maria pediu desculpas por não ser fácil a conversa. Em novembro do ano passado, menos de três meses do desaparecimento do filho, dona Maria foi atingida por uma bala na cabeça. O projétil ainda está alojado e, sem os cuidados médicos necessários, a moradora do conjunto Frei Damião, no Benedito Bentes, segue superando mais estas dificuldades.

“Meu filho completou dezoito anos em maio”. Assim dona Maria se refere ao filho, sempre no presente, como se ele ainda estivesse presente, como se esperasse pelo presente do retorno, a qualquer momento, do filho desaparecido. Chinelo no pé, bermuda e camiseta era como Davi estava vestido na última vez que saiu de casa. Há um ano dona Maria luta contra tudo e todos que tentam fazê-la esquecer que seu filho foi raptado por uma guarnição da polícia e que depois disso jamais voltou para casa.

Ela crê que Davi esteja preso, ela deseja que ele esteja, “pelo menos eu poderia visitá-lo, dar um abraço e lutar para que ele fosse libertado”. Mas a falta de notícias – qualquer uma – continua sendo um tormento para esta dona de casa, mãe de três filhos, avó de apenas 56 anos de idade, mas que a tristeza e o abandono fez com que tivesse feições castigadas pelo tempo.

Na última semana, enfim, o Ministério Público do Estado ofereceu denúncia contra os quatro militares que viram Davi pela última vez com vida. Eles continuam negando que saibam do paradeiro do rapaz que sumiu quando ainda era menor de idade. Protegidos pela farda e pelo silêncio, dois deles são ainda jovens, quatro ou cinco anos mais velhos que Davi. Estes jovens militares, um rapaz e uma moça, não pensam nessa mãe – que poderia ser a sua –, não pensam que suas oportunidades os fizeram não ser o Davi naquela fatídica manhã de segunda-feira, no agosto passado, mas poderiam ter sido, poderia ter sido um irmão, um primo, um amigo.

Os outros dois militares, mais experientes, mas ainda jovens, já respondem por envolvimento em outros crimes, sempre juntos. Uma das supostas vítimas pode também ter sido um adolescente torturado. Este sobreviveu para contar sua história e colocar “a polícia” no seu lugar de “bandido”, mas Davi nunca mais voltou. Isto porque os militares continuaram com suas fardas e, mesmo sendo investigados, continuaram indo às ruas, tendo acesso irrestrito a outros adolescentes, como Davi.

O crime perfeito? Davi não voltou e, se morto, seu corpo nunca foi achado. Só o tempo – e o julgamento – poderá dizer se Davi será mártir ou não. Enquanto isso, não há um só dia que dona Maria não chore e ore pelo filho amado. Ela lamenta não sonhar com o filho e ter a oportunidade de entender as mensagens que ele tenta mandar através das irmãs. Mas dona Maria quase não dorme, está sempre sobressaltada com a esperança de que, no meio de uma noite qualquer, o filho entre pela porta de casa.

Qual a diferença entre dona Maria e as mães e pais que perderam seus filhos durante o regime militar? Os desaparecidos da repressão eram criminosos que lutavam contra o governo, hoje são heróis da nação. Davi não era bandido, consumia uma substância que hoje ilegal, amanhã pode não ser. Não fazia mal a ninguém, não roubava, não matava, não desobedecia à mãe e nem confrontava a polícia. Era gago.

Seu problema de fala o impediu de se defender e impor-se frente às investidas policialescas. Inocente, Davi não sabia que Alagoas se tornou um estado policial, não de hoje, nem de ontem, mas o estado deixou de ser democrático para o pobre, ignorante, indefeso e gago. Davi não teve chance de defesa, não respondeu num devido processo legal. Capturado, julgado, condenado, sentenciado e executado numa única manhã, Davi é o símbolo da injustiça, do abuso, do autoritarismo e da maldade.

Enquanto dona Maria chorar pela falta de notícias de seu filho, nenhum alagoano poderá se sentir em paz. Enquanto guardiões da Constituição e do Estado Democrático de Direito se confundirem em seus papeis. Bandidos ou mocinhos? Enquanto outros Davis e outras Marias forem separados pela intolerância, tortura e desumanidade, a imprensa não poderá calar, não poderá esquecer e nem deixar que a sociedade esqueça.

O papel da imprensa é vigiar os poucos poderosos da sociedade em nome dos muitos na luta contra a tirania.

 

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