O alagoano pobre e trabalhador, maioria neste Estado, antes de tudo, carrega em sua vida os signos da esperança, da desilusão e da vergonha. Tal ciclo, nesta ordem, renova-se a cada novo momento político. E apesar da eterna crise que insiste em realimentar tal rotina perversa, o alagoano, trabalhador que é, encontra forças para se reinventar.

Sem educação, sem saúde, sem segurança, o alagoano morre, mas também mata. E como mata! Com e sem “motivos”, tem matado a si mesmo, cada vez mais, nos últimos anos, movidos pela perigosa fuga da realidade, que é o crack. Mas o alagoano também mata e se mata, quando violenta sua própria dignidade, quando se mostra apático ou eufórico nos períodos eleitorais.

Se desestimulado, vota nulo, vota em protesto, vota irracionalmente, no menos pior, no mais bonito ou rico. Se estimulado, vota pela promessa, pela ilusão, pelo cargo, pela conveniência. Se desinformado ou mal-intencionado, vota por R$ 50 vende as oportunidades de mudança, por mixaria, por necessidade, pela miséria na qual insistem em mantê-los.

As tragédias, das secas, das enchentes, da falta de oportunidades, das ausências de representação, de participação, de cidadania. Estas todas chegam de modo mais violento por estas terras, não batem à porta, não pedem licença, nem anunciam a chegada. Elas avançam com munhecadas, com “baculejos”, com mentiras e humilhações. Sacodem este povo com crueldade sem igual, por saber que o alagoano ainda terá esperança. Uma esperança que o imobiliza, que é da fé, de um cabresto-apêndice darwiniano, da mais cruel evolução natural.

Soubesse de seu valor, de sua história, o alagoano pobre, trabalhador e, na sua maioria, negro, instalaria em suas terras um campo fértil para florescer justiça. Nesta pátria desvalida, estaria instituída a república mais justa que a de seus marechais, mais grandiosa do que Palmares, mais bela que as letras de Graciliano, que as poesias de Jorge, que as canções de Djavan.

Fosse dado a este alagoano pobre e trabalhador a chance de nascer por aqui, talvez escolhesse viver por aqui mesmo. Imaginaria que já nasceria com esta tal imunidade desumana, pois que sobrevive em meio a tanta covardia e mentira de quem age como monarca tirano, ao conquistar a chance de falar pelos sem voz e de agir pelos imóveis seres animalizados pela falsa elite hipócrita dos bairros nobres do litoral, dos casarões, das fazendas, dos gabinetes.

Festejemos, alagoanos pobres e trabalhadores! A violência ruiu à força! Mas o coturno te espreita a cada esquina. A educação está em revolução! Mas não tem aula nas escolas. A democracia precisa ser preservada! Mas te arrancam os direitos. Tem mais projetos aprovados no PAC! Mas o Planalto contingenciou recursos. Tem pauta bomba no Congresso! Mas quem decide são os poderosos, grande parte deles, filhos de sussurros indecorosos que jamais irromperiam dos lábios de quem adormeceu profundamente a sua indignação, por ter retomado seu ciclo natural rumo à imobilidade.

Sem a energia dos combustíveis da Petrobras, sem educação dos bem nascidos da elite política do Estado, sem a saúde dos nutritivos banquetes, sem repasses federais, sem condenados, sem transporte para qualquer lugar mais justo, o alagoano pobre e trabalhador passeou pela esperança, ensaiou a indignação e agora tem vergonha de ser o que realmente não é: cidadão. 

Este editorial está publicado na edição nº 95 do jornal CadaMinuto Press que chega às bancas nesta sexta-feira (7). Confira os destaques: