Desde os primeiros dias do governo de Renan Filho (PMDB), a repressão ao crime reduziu, de imediato, números oficiais de mortes violentas em atos criminosos, bem como no aumento das mortes de alvos de ações policiais. Vidas foram poupadas, mas Alagoas não foi pacificada, nem o crime reduzido ao patamar condizente com os esforços de agentes de segurança, que viram na nova cúpula da segurança pública, no secretário Alfredo Gaspar de Mendonça Neto, um líder e defensor da firme atuação policial. Porém, a morte de policiais, três em quatro dias, não deve acionar um gatilho que amplie um duelo com o crime que ameace mais alagoanos.

O desafio das autoridades e dos agentes de segurança abalados pela criminalidade que os espreita é medir a natural reação do Estado, com freios da inteligência policial, do controle emocional, de parâmetros legais e de um discurso que cultive a paz, ao invés de palavras que soem como convocação para uma guerra, ou desafiem criminosos para um duelo.

Alfredo Gaspar iniciou a semana afirmando que o Estado não perderá “o duelo contra a criminalidade” – dentro da legalidade – nem será leniente com nenhuma ação fora da lei. Um dia depois, quando apresentava resultados da apuração das mortes de policiais, ressaltou que a polícia não deve exterminar suspeitos, ao avaliar que os agentes de segurança cumpriram seu papel, tanto quando abateram dois acusados de assassinar o policial civil Carlos Alfredo de Oliveira Vanderlei, como quando prenderam cinco envolvidos na morte do sargento Dietmarx José da Silva.

Um dos conceitos mais antigos sobre segurança pública é o de que “violência gera violência”. Uma grande obviedade da existência humana. Para a máxima babilônica do “olho por olho, dente por dente”, – a Lei de Talião, encontrada no Código de Hamurabi, em 1780 a.C –, seria justo instituir pena de morte para assassinos ou latrocinistas. Mas, no Estado Democrático de Direito, retaliações oferecem riscos à vida de cidadãos e podem igualar autoridades a bandidos. Por isso, que escudos da lei contra a banalização da vida sigam exibidos pelo Estado.

O Estado agiu rapidamente na apuração dos crimes que também fizeram tombar um policial federal, Ubaldo de Oliveira Melo, no dia 18, além do sargento da Polícia Militar, no dia 16; e do policial civil, no dia 19. A prisão os acusados foi exposta por Alfredo Gaspar como prova de maturidade do Estado na repressão a criminosos.

A contraditória guerra por paz quer ser falsamente legitimada por parte dos dois lados das trincheiras escavas em Alagoas. Do lado da ilegalidade, podem exaltar que já houve mais de 40 suspeitos abatidos em supostos confrontos com policiais em serviço. Mas o importante é que os agentes de segurança saibam que, no lado errado da vida há interessados em ampliar a insistente sensação de insegurança, sem se importar com a origem do sangue derramado.

Atingir, mesmo que por acaso, a linha de frente das forças policiais, é oportunidade para desestabilizar o Estado. Armadilha perfeita do crime para garantir um contra-ataque que abra atalhos no campo de batalha de um governo que ainda enxerga a repressão como via única para uma paz, que não chegará sem prevenção, assistência social e educação eficazes.

Esta edição expõe a realidade de descaso do poder público que ignorou a CPI da Violência contra Jovens Negros e Pobres e mantém sob a mesma vulnerabilidade a população e os policiais que se esforçam para protegê-la. Que o Estado priorize duelar contra a fome, a exclusão social, a cultura de violência e contra sua própria estupidez.

Este editorial está publicado na Edição nº 93 do CadaMinuto Press, nas bancas desde a manhã desta sexta-feira (24). Confira os destaques: