Era abril de 1986.

Nessa época, a imprensa de Manaus praticamente acampava na porta da superintendência da Polícia Federal. A cada momento, havia um fato novo na pauta do Colarinho Verde, operação que apurava irregularidades na Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa).

O chamado inquérito-mãe, sob a responsabilidade da delegada federal Graça Malheiros, já tinha se subdividido em várias outras peças de investigação e a que apurava a possível participação de políticos no esquema de corrupção na Suframa, estava a cargo do delegado federal Gustavo Gominho.

Para azar nosso, é claro.

Gominho não dava seu ar da graça à imprensa.

O que dependesse dele, a gente não divulgaria uma linha do caso até que tudo estivesse devidamente investigado.

Mas como jornalista não nasceu para aceitar regras, insistíamos todos os santos dias.

Eu estava determinada a conseguir mais do que informações, uma entrevista com o tal do delegado.

Missão impossível, diziam-me alguns colegas dele, rindo. Ele era visto como um dos mais competentes, rigorosos, éticos dos delegados da Polícia Federal, e que não gostava de holofotes.

Cheguei a ligar para o diretor-geral da Polícia Federal, Romeu Tuma, quem já tinha se tornado uma fonte para minhas matérias nesse caso.

Nada feito. Gominho só fala se quiser. O que a Polícia Federal achar que deve ser divulgado, fará uma comunicação oficial à toda a imprensa.

Eu tinha comigo a informação de que pelo menos dois políticos amazonenses estavam sendo investigados, e um deles era o governador do Estado, Gilberto Mestrinho. Mas ninguém me confirmava.

Quando Gominho chegava à sede da Polícia Federal, descia do carro e mal nos olhava. No máximo, fazia um gesto negativo com a cabeça se alguém tentasse se aproximar dele.

Mas como eu não sou uma pessoa de entregar fácil os pontos, não desisti.

Uma sexta-feira, eu com matéria especial de domingo para redigir, pauta do dia para fazer, decidi que só sairia da superintendência da Polícia Federal com, no mínimo, um “bom dia” do delegado carrancudo.

Fui entrando na sede, tomei água, passei os olhos em alguns jornais espalhados na sala de recepção, e vi a porta do gabinete do delegado, com o nome dele inscrito numa placa. Bati, ninguém atendeu, entrei. Havia uma antessala, com um sofá pequeno, duas poltronas e uma mesa de atendente. Sentei-me, bonitinha.

A porta se abre e entra o delegado.

Ele já tinha me visto inúmeras vezes circulando por ali, sabia que eu era da imprensa, tinha recebido vários recados meus pedindo uma entrevista,  arrisquei um bom dia e antes que ele me respondesse, soltei o texto já decorado:

- Dr. Gominho, sou do jornal A Crítica, fui eu quem deu o furo na imprensa sobre esse caso, tenho vivido praticamente essa história nesses últimos três meses, só preciso que o senhor me confirme o que puder. Só tenho três perguntas, rápidas, que o senhor pode responder aqui mesmo, em pé.

Passava do meio-dia.

E a resposta dele me surpreendeu:

- De que estado do Nordeste você é?

Claro, meu sotaque sempre me denunciou, o que sempre me orgulhou e muito:

- Alagoas.

- Muito bem. Eu sou de Pernambuco. Se você é mesmo nordestina vai ali comer uma buchada de bode com farinha seca, comigo.

Eu comeria qualquer coisa, ou nem comeria nada.

- Agora?

- Agora.

E lá vamos lá para um boteco (não me recordo o nome), perto do estádio Vivaldão, também nas proximidades da superintendência da Polícia Federal.

Ele não me deu a entrevista, não me deixou chamar um fotógrafo, mas confirmou algumas das minhas informações, me repassou outras, e no sábado, A Crítica deu mais um furo e ganhou uma baita dor de cabeça com o Palácio Rio Negro:

“PF investiga Mestrinho (*) no caso do Colarinho Verde”.

Encontrei Gustavo Gominho anos depois, em Maceió. Ele foi designado para investigar o crime de assassinato da deputada Ceci Cunha. Lembramos e rimos dessa história e desse almoço que conquistei a duras penas. Ou sob a boa convivência nordestina.

(*) Gilberto Mestrinho era o Governador do Amazonas à época.