Como presidente do Serviço de Engenharia de Alagoas (Serveal), o ex-deputado estadual do Partido dos Trabalhadores (PT) e engenheiro civil por formação há 37 anos, Judson Cabral tem se dedicado à missão que recebeu pessoalmente do governador Renan Filho (PMDB). Numa conversa franca, como o próprio entrevistado assegurou, Judson falou sobre sua indicação dissociada do Partido dos Trabalhadores à presidência do Serveal, “fui convidado diretamente pelo governador, não foi uma indicação partidária”.
Conhecido por suas posições moderadas, mas de oposição firme, enquanto deputado estadual, Judson Cabral não conseguiu se reeleger, mas reconhece que sempre buscou passar para a sociedade segurança em suas decisões, propostas e condutas. Entrou na política ainda na militância estudantil e continuou na militância profissional em sua classe de engenheiros civis.
Nesta entrevista, Cabral revelou posicionamentos importantes sobre sua atuação à frente do Serveal, suas expectativas e não fugiu nem das perguntas mais espinhosas, como a crise do PT e sua relação com o partido em Alagoas. Deixou claras suas críticas, mostrou sua frustração, provocou o movimento Brasil Livre e ainda falou sobre a atual Mesa Diretora da Assembleia Legislativa e seus planos políticos para o futuro.
Como está se sentindo como gestor à frente do Serveal, depois de tantos anos no Poder Legislativo?
Para mim, estar à frente da Presidência do Serveal é mais uma etapa que cumpro com muita naturalidade. Primeiro, porque é uma empresa que presta serviço na área de engenharia e, como profissional da área, já trabalhei muito nesta área, e já fiz gestão à frente de outros órgãos. De modo que não tenho encontrado nenhuma dificuldade. O único problema é que o Serveal precisa de uma implementação maior para, verdadeiramente, assumir o papel de empresa. Hoje ela trabalha muito com os vícios do serviço público. E ela é uma empresa de economia mista e essas empresas foram criadas, nos mais diversos estados, justamente para ter mais agilidade. Atualmente o Serveal vem atendendo às demandas, nós temos nos esforçado bastante, mas um dos nossos desafios é tornar o Serveal mais ágil. O Serveal conta com um excelente corpo técnico, profissionais do mais alto gabarito, competentes, com muita experiência. E pretendemos cada vez mais viabilizar a sua produção.
Quais conquistas o senhor poderia nos revelar, desde que assumiu o Serveal?
Quando há uma mudança de gestão, normalmente, há uma herança de problemas. Até agora foram mais projeto e obras para que a gente pudesse sanar o passado. Uma das coisas que nos deixa mais satisfeito foi retomar a obra do IML, que estava parada há um ano de oito meses, com problemas de medições, de aditivos, conseguimos com todo esforço, colocar a obra para andar. Já foi reiniciada, a expectativa é que o cronograma seja cumprido em 240 dias. O governador Renan Filho tem dado prioridade e acredito que cumpriremos o cronograma.
E são muitas as demandas do Serveal?
No Serveal, o que não faltam são demandas. Nós recebemos todas as demandas do estado. As demandas maiores, de projetos estruturantes, como o Canal do Sertão, ficam com a Infraestrutura. Mas, a parte da assistência, reforma de delegacia, dos prédios das secretarias, dos institutos, das empresas do estado, tudo fica com o Serveal. E, no momento, as maiores demandas são na área da Secretaria de Defesa Social. O governador priorizou educação, saúde e segurança pública. Considerando que a Saúde e a Educação têm seus departamentos de engenharia, nós apenas complementamos as obras que eles não conseguem dar conta. Mas todas as obras da área de segurança: reforma das delegacias, do sistema prisional, ampliação do sistema de inteligência, perícia, inclusive o IML, hoje todas essas obras estão sob a responsabilidade do Serveal.
Como o senhor analisa a participacao do PT na gestão do governador Renan Filho?
Primeiro, você há de convir que estou aqui profissionalmente. Eu fui convidado diretamente pelo governador, não foi uma indicação partidária. E eu estou aqui trabalhando profissionalmente, na realidade estou aqui – não deixo de ter vinculação com o partido – mas aqui estou trabalhando como engenheiro.
De qualquer forma, qual seria a análise do senhor sobre a Secretaria de Assistência Social, já que a pasta é do PT e houve cortes nos programas sociais de distribuição de sopa e cesta nutricional para gestantes?
Eu não tenho elementos, lá está a cargo do secretário Joaquim Brito (PT), ele montou uma equipe de pessoas bem preparadas e eu não sei detalhes das diretrizes emanadas do governo para que fossem suspensos estes serviços de assistência que vinham sendo prestados, como a sopa e as cestas nutricionais. Afinal, o Estado – e o país como um todo – está passando por uma crise e, naturalmente, os reflexos chegam aqui em Alagoas. E o governo tem tratado a questão com muito cuidado. Desde o início, implantou um plano de redução de gastos que atingiu a todos, aqui, por exemplo, reduzimos gastos com contratos de assistência jurídica, com veículos, e temos feito redução com o custeio, para enxugar o possível, embora o Serveal seja uma empresa pequena e não temos muito como enxugar as contas. As coisas aqui já estavam bem limitadas. Mas eu quero crer que o Estado tem avaliado as circunstâncias. Quando um governo assume, nem sempre suas diretrizes coincidem com as do governo anterior. São planejamentos totalmente diferenciados. Não sei lhe dar detalhes, eu percebo que agora, depois de passados quase os primeiros 180 dias, primeiro semestre de governo, as coisas começam a amadurecer, até pela própria visão da consolidação da arrecadação.
Como o senhor vê o PT no cenário estadual. Enfim, o partido está prestes a se emancipar?
O PT está passando por um processo muito difícil, em função de todas estas questões que estão ocorrendo nacionalmente, termina refletindo aqui. Nós também temos sido alvo de uma crise, que o PT tem sua culpa de participação. Mas ela toma uma dimensão muito maior. Eu acho que há exageros por parte de setores da mídia. Aqui em Alagoas, o PT sempre foi alvo de uma disputa ideológica muito grande, e neste momento que o partido enfrenta algumas dificuldades – problemas criados pelo próprio PT também – não quero aqui eximir ninguém de sua culpa. E tem que ser apurado todo esse processo que envolve a Petrobras ou outras fontes, seja do PT, do PMDB, do PSDB, do PP, todos eles, tenham mandato ou não, sejam gestores indicados ou não, tudo deve ser apurado. E eu acho que os partidos estão passando por um momento muito conturbado e só uma reforma política estrutural é que pode apontar para um futuro de melhor desempenho dessas estruturas partidárias.
Acha que o partido também está enfraquecido junto aos trabalhadores, que sempre foram sua razão de existir?
O partido saiu de seu quinto congresso recentemente, tomou uma série de decisões, inclusive de apoio ao governo e de crítica também. E eu fiquei até certo ponto contemplado com as inúmeras intervenções da juventude. É uma das grandes dificuldades atualmente conseguir formar novas lideranças. As lideranças dos diversos partidos vêm envelhecendo – a não ser os parentes de clã de políticos, da influência da rede familiar –, mas lideranças novas, dos movimentos estudantis, sindicais, que apontem para a intervenção no processo político do Estado está muito difícil. E nós estamos realmente buscando superar esta crise. Porque não tenha dúvidas, nós saímos extremamente fragilizados. Acho que a maior pena o PT tem recebido. O PT tem sim sua responsabilidade, mas está demais. Aqui, então, a coisa é ainda muito pior.
O senhor também faz críticas ao ajuste fiscal implantado pelo governo federal?
Faço sim. Acho que há algum exagero. Acho que a dose foi cavalar. De repente, você aponta logo para direitos e conquistas dos trabalhadores. Quando eu acho que deveríamos começar por quem mais acumulou. A riqueza ainda está concentrada nas mãos de poucos. Então nós deveríamos apontar, a princípio, para as grandes fortunas, os grandes lucros. É claro que é necessário que certas coisas sejam corrigidas quanto aos direitos trabalhistas. Acho que deveria ter ajustes, mas não da forma como foi feito. Logo suprimindo direitos. Acho que a direção do ajuste foi no sentido errado, não deveria ter atingido logo as conquistas dos trabalhadores. Tem sido muito difícil. Juntando com a crise no setor energético, a crise econômica que desacelera o crescimento, a inflação saiu um pouco do ritmo que vinha. Não que ela esteja fora do controle, mas não é esse exagero que querem passar – do quanto pior, melhor. Não, não é assim. O governo precisa reavaliar e dar uma satisfação à sociedade que não seja só penalizando os trabalhadores.
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