Quem me conhece sabe que meu problema não é o de não gostar de futebol, mas, principalmente, de não entender absolutamente nada desse tema.
Nem mesmo os jogos da Copa do Mundo me motivam a ficar 90 minutos na frente de uma televisão, vendo a bola ser levada de um lado a outro, por chutes e jogadas que me são totalmente incompreensíveis.
Mas tudo tem seu momento e, por uma boa pauta, não meço esforços.
Pois em 1998, plena campanha eleitoral, eu na editoria geral da Tribuna de Alagoas, consegui que o candidato a presidente pelo PPS, ex-governador do Ceará Ciro Gomes, aceitasse falar com exclusividade para nós, em uma de suas vindas a Maceió.
Não foi fácil.
A programação de Ciro era extensa em Alagoas.
Ajudou-me a convencê-lo o conhecimento que travamos em Fortaleza, cerca de dois anos antes, em um evento promovido pelo Sindicato dos Jornalistas do Ceará, o qual eu participei.
Ciro marcara a entrevista para às 16 horas, no antigo Hotel Meliá (hoje Atlantic), onde ele estaria hospedado. As fotos, eu recomendei à redação que priorizasse a agenda eleitoral do candidato, pela manhã e início da noite. E fui sozinha cumprir a pauta.
No hotel, pelo interfone, eu o comuniquei da minha chegada. Ele perguntou se eu poderia esperar um pouco, que desceria em dez minutos. Mas nem bem eu acabara de dizer que o aguardaria, Ciro perguntou se eu gostava de futebol. Tomada pela surpresa, respondi as primeiras palavras que me saíram à boca:
“Mais ou menos”.
Ele me disse que estava acabando de ver um jogo e se eu me incomodava de assistir com ele. Faltavam cerca de uns 20 minutos e a gente poderia ir conversando ao longo da partida, sugeriu o candidato. Ele estava com a agenda apertada, e eu cheia de trabalho na redação.
Decidi apressar a pauta.
Acomodei-me numa poltrona, tirei papel, caneta e gravador da bolsa, mas percebi que ele estava vidrado na tela da TV.
Ou seja, até o final da partida, nada de perguntas políticas.A minha sina era acompanhar o tal jogo.
Ciro é um torcedor nato. Ele xingou jogadores, juiz, deu sugestão, gesticulava como se estivesse num estádio, e, vez ou outra, me “consultava” sobre as jogadas, o que me forçava apenas a cooncordar com ele, totalmente alheia ao que se passava na televisão.
Houve um gol, ele vibrou, e eu, sem jeito, também comemorei. Houve outro gol, empate, e ele se desesperou. A decisão foi tirada em pênaltis, para meu desespero.
Não lembro quais times estavam em campo, os jogos da Copa do Mundo já tinham passado, mas eu nunca me senti tão torcedora como naquele final de tarde.
Finalmente, partida encerrada, o time dele vitorioso, o entrevistado sentou-se ao meu lado e em cerca de meia hora, conversamos sobre política, campanha, adversários, polêmica, Brasil e, como não poderia deixar de ser, futebol. Ciro não se elegeu. Naquele ano, o presidente FHC, do PSDB, foi reeleito para mais quatro anos de mandato no primeiro turno.
Mas, o melhor, foi ao final, na despedida, o comentário do entrevistado:
“E então, gostou do jogo? Poderia ter sido melhor, parece que estavam todos empacados”.
Empacada estava eu, ainda bem que ele não percebera.
Ou fez de conta que não percebeu.
Em tempo, o resultado eleitoral daquele ano para a presidência do Brasil:
1º lugar - Fernando Henrique Cardoso (PSDB / PMDB / PFL / PPB / PTB) - 35.936.540 votos (53,06%)
2º lugar - Luiz Inácio Lula da Silva (PT / PDT / PSB / PC do B) - 21.475.218 votos (31,71%)
3º lugar - Ciro Ferreira Gomes (PPS / PL / PAN) - 7.426.190 votos (10,97%)
4º lugar - Enéas Ferreira Carneiro (Prona) - 1.447.090 votos (2,14%)
5º lugar - Ivan Moacyr da Frota (PMN) - 251.337 votos (0,37%)
6º lugar - Alfredo Hélio Sirkis (PV) - 212.984 votos (0,31%)
7º lugar - José Maria de Almeida (PSTU) - 202.659 votos (0,30%)
8º lugar - João de Deus Barbosa de Jesus (PT do B) - 198.916 votos (0,29%)
9º lugar - José Maria Eymael (PSDC) - 171.831 votos (0,25%)
10º lugar - Teresa Tinajero Ruiz (PTN) - 166.138 votos (0,25%)
11º lugar - Sérgio Bueno (PSC) - 124.569 votos (0,18%)
12º lugar - Vasco de Azevedo Neto (PSN) - 109.003 votos (0,16%)
