À frente da campanha #CorrupçãoNão, que visa mudar o paradigma ético da população, por meio da conscientização da juventude das redes sociais, o procurador-chefe da Procuradoria da República em Alagoas, Rodrigo Tenório, considera que um problema decisivo a ser enfrentado pela sociedade é a sensação de amortecimento do cidadão diante das diversas formas de corrupção, das mais brandas, às mais graves.

Nesta entrevista em que são apresentados os detalhes da campanha internacional, o chefe do Ministério Público Federal (MPF) em Alagoas também fala sobre a reação do senador Fernando Collor (PTB) contra o procurador-geral da República Rodrigo Janot. Depois de o MPF solicitar que o Supremo Tribunal Federal (STF) investigue o suposto envolvimento do ex-presidente no esquema de corrupção instalado na Petrobras, Collor acusou Janot de cometer crimes de responsabilidade no comando do MPF. Mas Tenório garante que as acusações do senador não são minimamente razoáveis contra o procurador-geral da República.

O objetivo da campanha #CorrupçãoNão é voltar a sociedade para um combate participativo, popular, da corrupção. Como deve ser esse combate?

O objetivo é duplo, na verdade. O primeiro deles é conscientizar a sociedade, especialmente os jovens, do quão prejudicial é a corrupção; dos pequenos atos, do parar em vaga proibida, da falsificação de atestado para conseguir faltar ao trabalho, aos grandes atos de corrupção e do desvio de dinheiro público, propriamente dito. O foco da campanha está no público jovem, entre 16 e 33 anos. Primeiro porque esse público é o mais propenso à mudança, de acordo com a Transparência Internacional, e o menos tolerante à corrupção. Em segundo lugar, a campanha tem foco nas redes sociais. Dessa camada que mencionei, 70% tem acesso à internet e 50% faz uso quase que diário das redes sociais. Então, é evidente o alcance que a campanha terá, ao focar neles. A intenção é trazer o jovem para o lado dos órgãos de controle, em especial o Ministério Público, para que colabore efetivamente para o combate à corrupção. E esse jovem servirá como instrutor em sua casa.

Porque esta campanha é importante para os órgãos de controle?

Em primeiro lugar, a sociedade tem que andar ao lado do MP Público e os órgãos de controle. O Ministério Público não tem pernas para estar em todos os lugares. As capilaridades vêm do cidadão. Somente o cidadão está em todos os cantos. Somente o cidadão tem contato direto com quase todas as mazelas que a corrupção gera. Daí a importância da atuação integrada da sociedade civil e o Ministério Público. E esta campanha quer estimular esta integração.

E o que esse cidadão pode fazer? Quais os canais para ele chegar a uma ação mais efetiva?

Há muitos. O primeiro deles é se fiscalizar. Há uma espécie de amortecimento com relação à corrupção, de todo mundo. Todos acham natural a existência da corrupção. Colocam no mesmo saco os políticos, os servidores públicos e os atos de corrupção. Criticam determinado político, mas conseguem nota falsa para pagar menos tributo. A intenção é mudar o paradigma ético, mesmo; colaborar com uma maior educação. Os países que conseguiram se livrar da corrupção, investiram enormemente na educação. Essa campanha tem esse viés de contribuir com uma melhor educação, com relação à perniciosidade da corrupção.

Quais as vias que o cidadão pode usar para denunciar formalmente qualquer ato de corrupção?

Primeiro, nossos sites, qualquer um do Ministério Público Federal, para fazer a denúncia. Segundo, pode ir presencialmente ao local, prestar o seu depoimento. O que importa é que as informações precisam ser minimamente qualificadas. Descrição precisa de fatos é o que importa. E não acusações genéricas. Não dá para chegar e dizer: ‘O prefeito da minha cidade é um ladrão’. Isso em nada ajuda ao Ministério Público; pelo contrário, atrapalha. Quando o cidadão se conscientizar da importância de sua participação no combate à corrupção e passar a trazer dados mais precisos, fatalmente, haverá melhora no desempenho dos órgãos de controle contra a corrupção.

Há um desestímulo popular... Como se pode vencer este desestímulo na fé no Judiciário e nas instituições de controle?

O desestímulo é injustificado estatisticamente. A gente tem hoje, no sistema prisional brasileiro, aproximadamente 600 mil presos. Desses 600 mil, algo em torno de 700 presos são oriundos dos crimes de colarinho branco. Em outras palavras, a gente tem um pouquinho mais do que 0,1% de presos de colarinho branco no País. E é evidente que isso cria uma sensação de impunidade imensa. Agora, como superar isso. Vamos analisar as coisas a partir de uma linha de base. Até 1988, até a Constituição Federal, não existia Ministério Público com independência funcional. Ou seja, Ministério Público com força suficiente para atacar os maiores poderes formais e informais da República. Caminhando um pouquinho para a década de 1990, a gente consegue enxergar a Lei de Improbidade, Lei Orgânica do MP, Lei de Lavagem de Dinheiro. No início dos anos 2000, temos a Emenda Constitucional 35, possibilitando que parlamentares do Congresso Nacional sejam processados, independentemente de autorização do Congresso.

Confira entrevista completa no Cada Minuto Press.