Enquanto assistiam ao governo da presidente Dilma Rousseff impor corte orçamentário de quase R$ 70 bilhões, limitar obras públicas, afetar o mercado e reduzir direitos trabalhistas, prefeitos alagoanos e o governador Renan Filho (PMDB) concluíram a última semana com a esperança de que o socorro financeiro virá por meio do Congresso Nacional e do estabelecimento de um novo pacto federativo. E é bom mesmo que a divisão do bolo e de cada uma de suas migalhas produza um resultado mais justo para a sociedade e os serviços públicos já sucateados.

Mas ao contrário da postura festiva ensaiada pela classe política, ao final da tal Marcha Nacional em defesa dos municípios, o socorro não deve ter como motivação apenas a melhoria da imagem já desgastada dos senhores gestores públicos, às vésperas de mais um ano eleitoral.

A desesperança é o sentimento nada animador vivido pela maior parcela da população brasileira, ainda mais, pela de Alagoas. Falta de limite para a carência de recursos para manter as estruturas do poder público vai muito além dos gabinetes. Ela chegou ainda mais forte nos corredores do Hospital Geral do Estado (HGE) e, aliada aos lances de imprudência administrativa, tem se tornado presença cada vez mais comum, nestes tempos em que tudo de ruim que acontece é por culpa da crise.

Concluída a data-base de maio sem a menor perspectiva de reajuste para o servidor público do Estado de Alagoas, policiais civis e agentes penitenciários largaram na frente em movimentos grevistas comuns aos tempos de “farinha pouca, meu pirão primeiro”. E a Central Única dos Trabalhadores (CUT), aliada aos governos de Renan e de Dilma, prometeu finalmente tentar ganhar “no grito” a batalha pelo cumprimento da lei estadual que prevê o gatilho automático para a reposição salarial das perdas do poder de compra com a inflação. Devem ir às ruas nos primeiros dias de junho.

O tal improvável socorro financeiro não chegou a tempo de evitar que o alagoano sofresse com cortes em programas sociais que alimentavam parte da população mais pobre de um dos estados mais pobres do Brasil. Sem a menor cerimônia ou sentimento de pesar, o governo do Estado suspendeu a distribuição de sopa e de cestas nutricionais para as alagoanas gestantes.

E qual a ideia brilhante que surge, tal qual a proposta do passe livre depois da suspensão do transporte escolar? A pasta da Assistência Social do Estado, comandada pelo ex-presidente do PT em Alagoas Joaquim Brito, vai instituir uma bolsa que pagará até R$ 100 por família, com o objetivo de substituir a cesta criada para que a gestante pudesse suprir toda a carência dos alagoanos que já sofrem as dores da crise antes mesmo de vir ao “mundo”.

Assim como foi na pasta da Educação, a mudança no programa social não foi substituição imediata. Quase 70 mil mulheres grávidas que eram atendidas com cestas nutricionais foram largadas à própria sorte, com grandes chances de não verem se concretizar a “bolsa família” estadual até o final de 2015. Até lá, seus filhos podem sofrer complicações e desnutrição. Um risco de recuo na queda da mortalidade infantil, que o governo estadual resolveu assumir.

Se em tempos de crise, arrocha-se até via cordão umbilical, o que mais de inovador pode-se esperar dos gestores públicos.

Este editorial foi publicado na Edição 85 do jornal CadaMinuto Press desta sexta-feira (29). Confira os destaques:os destaques: