O ano era de 1985.

O momento político, dos mais importantes. Era a primeira eleição direta para prefeito nas capitais brasileiras, após a ditadura militar.

Em Manaus, como repórter de A Crítica, me foi confiada a missão de cobrir a agenda eleitoral de dois candidatos: Manoel Ribeiro, do PMDB, e Professor Botinneli, do PDT.

Além das minhas reportagens especiais para a Editoria de Cidades, uma por dia.

Paralelo a essa correria, tinha o meu filho, seis anos de idade, que pela manhã ficava comigo no trabalho e , à tarde, ia para a escola.

Em meio às pautas, eu precisava parar ao meio-dia, dar almoço a ele e deixá-lo na escola antes das 13h30.

Pois em um desses dias em que a agenda tá apertada, depois de cobrir uma caminhada do candidato Manoel Ribeiro, participar de uma coletiva no Tribunal Regional Eleitoral, lá vou eu à casa do Professor Botinelli para mais uma matéria.

Evidente, que meu filho me acompanhando.

Entra no carro, desce do carro, acompanha a mãe às entrevistas, volta para o carro, desce do carro, mais uma pauta...

Na casa de Botinelli, já vendo o horário estourar pelo relógio comprado com gosto na Zona Franca de Manaus, eu nem percebi que o meu filho tinha descido do carro. Entrei, o candidato me levou ao escritório dele, e por cerca de meia hora, 40 minutos no máximo, sai de lá feito furacão.

Entrei no carro de A Crítica e disse ao motorista:

- Pelo amor de Deus, bora logo para a redação. Tô pra lá de atrasada!

Mal cheguei ao jornal, me avisaram:

- Professor Botinelli ligou para cá e pediu que você ligasse para ele, urgente.

No cheiro da notícia, liguei de imediato:

- Pois não, professor, o senhor esqueceu-se de me dizer algo?

E ele, rindo:

- Não. Você é que esqueceu seu filho aqui em casa.

Misericórdia! Cadê o menino?!

Constrangida, nem sabia o que dizer.

- Meu Deus, professor, desculpe-me, vou aí buscá-lo agora.

- Não, ele almoça aqui e depois eu o deixo aí no jornal. Não se preocupe, ele se enturmou com os meus meninos.

A partir desse episódio, era um olho na pauta, outro no filho.

A propósito, meu filho conquistou meu entrevistado. Ficaram amigos. E ele chorou quando Botinelli perdeu a eleição. Venceu o candidato Manoel Ribeiro, apoiado pelo governador Gilberto Mestrinho e pelo prefeito de então, Amazonino Mendes, todos do PMDB.