Há pelo menos dois anos a comunidade quilombola Cajá dos Negros conseguiu fazer com que a distância territorial se tornasse apenas um mero detalhe para que seus habitantes tivessem mais acesso ao conhecimento. Situada a 25 km do Centro de Batalha, município do Sertão de Alagoas, o local foi um dos escolhidos para abrigar um telecentro. E é justamente a internet que está dando cara nova ao movimento negro da nova geração de quilombolas.

Em meio à paisagem verde e seca, típicas do Sertão nordestino, uma estrada de chão batido corta a zona rural de Batalha e um trecho do Rio Ipanema antes de chegar à comunidade. Em meio aos vales e plantações, as famílias quilombolas descendentes de Antônio Leite, foram, ao longo de décadas, instalando suas residências próximas a cajazeira que dá nome ao povoado.

Uma das salas da Associação Quilombola foi adaptada para receber os computadores e o satélite responsável pela captação do sinal da internet. Envolto em pesquisas, jogos e estudos, os jovens quilombolas e até pessoas de povoados vizinhos recorrem ao local para se conectar com o mundo.

Ivaniza Leite, líder comunitária, contou ao CadaMinuto que soube por amigos do projeto mantido pelo governo estadual e pensando no bem estar da comunidade, correu para preparar os documentos necessários. O projeto apresentado foi aprovado e contemplado com toda a estrutura através do Programa Alagoano de Inclusão Digital, que já beneficiou 53 localidades no Estado.

“A primeira coisa que me veio na cabeça quando soube do telecentro foi o bem estar da comunidade e das crianças que iam ter oportunidades melhores. Antes era tudo muito difícil e hoje ele modificou o movimento negro do Cajá dos Negros. As crianças e adolescentes são mais ativas, estudam, fazem cursos pela internet e gostam de vir aqui”, conta.

Uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2011 mostrou que Alagoas foi um dos Estados brasileiros que mais avançou em número de pessoas com acesso à internet. Os números apontam que 34,3% dos alagoanos possuem internet, ficando acima da média do Nordeste, que é de 25,1%. Parte dessa alavancada é efeito da implantação de pontos de acesso à internet em cidades ou comunidades isoladas, como é o caso de Cajá dos Negros.

Segundo dados da Secretaria Estadual de Ciência e Tecnologia (Secti), 28 cidades já foram beneficiadas com a implantação de telecentros. A meta é conseguir implantar outros 15 pelo Estado ainda este ano. O investimento com os telecentros em Alagoas gira em torno de R$ 1,5 milhão.

Assim como outros jovens quilombolas, Roberto Ferreira da Silva, de 22 anos sonha em ingressar na faculdade e se tornar especialista em computadores.  Por conta da paixão pela tecnologia, há dois meses ele trabalha como monitor do telecentro, orientando e passando noções de informática aos frequentadores do espaço.

“Com o telecentro nossa comunidade passou a viver outro momento. Os meninos tem mais vontade de estudar, mexem no Facebook, são muito espertos. Nem parece mais aquela comunidade de antes. Acho que a tendência é que as coisas melhorem para que a gente consiga ter mais desenvolvimento”, afirmou.

On line para o mundo

Entre os pequenos quilombolas, a tecnologia começa a mostrar que será fator importante na reconfiguração identitária e cultural da condição racial. Entre os vários projetos que beneficiam a comunidade, eles foram escolhidos pelo projeto fotográfico Autorretrato Nordeste, vencedor do Prêmio Artes Negras, da Fundação Nacional de Artes (Funarte), do Ministério da Cultura, que promove oficinas de fotografia em algumas comunidades quilombolas do Estado.

 

Além das oficinas, divididas em duas etapas, eles serão contemplada com a exposição dos trabalhos fotográficos em agosto durante uma exposição na própria comunidade.  Com máquinas digitais em punho e com a missão de lançar um olhar diferenciado sobre o cotidiano da comunidade onde vivem, a proximidade com o mundo digital acabou facilitando o domínio das técnicas. Ítalo dos Santos, de 9 anos, era um dos mais empolgados. Com a câmera buscava enquadrar as paisagens, os animais e procurava os melhores planos para capturar as expressões dos vizinhos.

Mesmo sendo fluente com os computadores no telecentro, a primeira vez que fotografou aconteceu durante a oficina. “Adorei a experiência. Quero fotografar mais, principalmente as paisagens, o gado e as casas da minha comunidade”, contou enquanto clicava um vizinho que passava.

Com apenas oito anos, Viviane Gomes se destacava entre as crianças. Atenta, fazia seus registros e procurava um dos monitores para saber se tinha acertado. “Tia, é assim?” perguntava apontando para o visor da máquina.

“Foi uma felicidade para mim poder ver essas crianças tendo a oportunidade de ter o contato com a fotografia. Eles estavam muito empolgados desde que souberam que o pessoal viria aqui. Eu sei o quanto isso vai ser importante para nossa comunidade e para a nossa cultura. Apesar de ainda preservarmos nossos costumes, muita coisa mudou e acredito que ter acesso à internet e a tecnologia é importante para divulgar o Cajá dos Negros”, contou Ivaniza enquanto acompanhava o grupo pela comunidade.

Não é apenas em Alagoas que a internet é apontada como uma das opções para tirar do isolamento comunidades de remanescentes de quilombos. Um projeto encabeçado pelo Banco Mundial e o Japan Trust Fund iniciado em 2009 leva melhores condições de vida e acesso à internet a comunidades da Bahia, Pernambuco e Ceará. O projeto inclui ainda a construção de 15 centros multiuso conectados à internet.

Segundo Clébio Correia, coordenador do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros (Neab) da Universidade Estadual de Alagoas (Uneal), dar acesso à tecnologia a comunidades quilombolas é uma forma de contribuir e incentivar a busca por um discurso mais politizado, a fim de reduzir a fragilidade existente no conceito de “ser quilombola”.

De acordo com o professor, as questões culturais afro-brasileiras sofreram uma perda de valor por conta do racismo e da discriminação. “Hoje essas questões passam por um processo de reconstrução identitária. O quilombola luta pelos seus direitos. Há muitas comunidades que ainda possuem dificuldades para lidar com seus costumes. Muitos deles perderam suas tradições e hoje são adeptos de outras religiões como a evangélica, por exemplo”, afirmou.

Correia cita ainda a comunidade quilombola Pau D’arco, que fica em Arapiraca, onde o grupo começou um processo de retomada das raízes culturais. “Liderados pelo professor Ivan, a comunidade está em um processo muito interessante de retomada da identidade cultural. Eles têm até um projeto para a instalação de um ponto de cultura onde pretendem realizar diversas atividades”, conta.

Mesmo imerso nas novidades do mundo digital, o Cajá dos Negros ainda sobrevive da agricultura e do artesanato. As carências que afligem a dura realidade social dos quilombolas perduram há décadas e continuam sendo uma das principais bandeiras de luta. Ivaniza afirma que faltam oportunidades de trabalho para os jovens que conseguiram concluir um curso superior e que moram na comunidade. Ela interrompeu a faculdade de Pedagogia no quinto período para se dedicar às questões ligadas a comunidade e à agricultura e o artesanato que produz.

“Tenho sobrinhas formadas em pedagogia além de outros jovens aqui que já conseguiram se formar, mas ainda falta dar oportunidade a eles. Tem a escola onde eles poderiam estar ensinando, mas não há muita parceria com os professores. A gente precisa de espaço, já conquistamos tanta coisa boa aqui, mas precisa melhorar outras”, completa.

“Nesse ponto a tecnologia é algo extremamente positiva e importante, pois vai colocar esses quilombolas em contato com outras comunidades pelo país a fora que já estão mais avançadas no processo de afirmação da identidade cultural, além de ser uma ferramenta importante para amenizar a fragilidade social”, completa Clébio.