Pode parecer estranho imaginar que duas garrafas pet, uma parte de um pote de sorvete, vinagre e bicarbonato de sódio fizeram com que o sonho de um jovem estudante alagoano começasse a tomar forma. Davi Marciano reuniu esses materiais e focado no sonho de se tornar um engenheiro espacial construiu um foguete e venceu primeiro as dificuldades financeiras e depois a etapa nacional da Olimpíada de Foguetes, no Rio de Janeiro. De malas prontas, o jovem segue para morar sozinho no Ceará, após ser selecionado para uma bolsa de estudos no colégio Ari de Sá. Lá ele vai se preparar para um dos vestibulares mais difíceis do país: o do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA).
Assim como outros meninos, desde pequeno sonhava em ser astronauta. A aptidão foi aflorada aos 12 anos, quando os pais o levaram para um encontro de astronomia aqui em Maceió. Hoje aos 18 anos Davi surpreende pelo conhecimento técnico em astronomia, adquirido com leituras por conta própria, e pela quantidade de medalhas e prêmios conquistados em competições locais e nacionais.
Ele foi campeão nacional de um evento de robótica, venceu as Olimpíadas de informática, foi ouro e bronze na Olimpíada de Astronomia, campeão alagoano da Olimpíada Alagoana de Foguetes, participou da Olimpíada de Nacional de Foguetes e da Space Camp (SP). O jovem também representou Alagoas em outras competições de matemática e física.
Porém o caminho até a bolsa de estudos no Ceará não foi fácil. O pai, Davi Barros da Silva, atualmente trabalha como vendedor de milho pelas ruas da capital e a mãe, Maria da Costa Barros, é dona de casa. A família mora e uma casa simples no bairro da Jatiúca. Sem condições financeiras de custear um colégio particular, seu Davi conta que pegava no lixo das ruas da cidade livros e levava para casa para que os filhos pudessem estudar.
“Comecei a ver o interesse do Davi para a matemática. Daí eu pegava livros no lixo e trazia para ele estudar. Depois ele foi mostrando o conhecimento com astronomia aí alguns colégios particulares ofereceram bolsas de estudo para ele e o outro irmão, que hoje é campeão estadual de xadrez”, conta o pai orgulhoso.
O voo do foguete ecológico
Em abril do ano passado a relação de Davi com o mundo da astrofísica começou a ganhar novos rumos e parte de um sonho começava a ser realizado. Junto com mais dois amigos, ele venceu a etapa regional da Olimpíada Brasileira de Foguetes. A proposta era de construir um foguete com materiais recicláveis.
Ganhava quem conseguisse fazer o protótipo sair do chão e alcançar a maior distância. A equipe do colégio Contato alcançou a marca de 174 metros e foi classificada para representar o Estado na etapa nacional.
A ida até o Rio de Janeiro quase não aconteceu já que Davi não possuía patrocínio. Ele só conseguiu custear a viagem após uma campanha feitas por internautas, que se mobilizaram e custearam parte dos custos.

“Tudo só foi possível após uma matéria que saiu no blog do Odilon Rios, no Cada Minuto. Depois da repercussão, a Braskem e a Secretaria de Estado da Tecnologia me procuraram e me ajudaram. Depois disso, participei da Space Camp, no Rio de Janeiro, e fui procurado por dois colégios especializados em preparatório para o ITA. Vou morar sozinho em Fortaleza para tentar o vestibular em engenharia espacial”, contou.
O foguete ecológico projetado por Davi e que despertou o interesse na Olimpíada funciona de forma simples. Com um conhecimento que surpreende, ele explica como fez duas garrafas pet movidas a vinagre decolarem do chão.
“Uma das garrafas fica inteira. A outra corta uma parte e acopla para servir de base. As valetas eu fiz com uma parte do pote de sorvete. Elas servem para dar mais aerodinâmica ao foguete. Já o combustível eu misturei 700 ml de vinagre a 200 ml de bicarbonato de sódio. Essa substância fica dentro do corpo do foguete e faz com que ele voe”, detalhou.
Durante a competição, ele usou uma base feita de cano de PVC e apenas uma corda amarrada à base do protótipo, que funcionava como a ignição para o foguete voar. A engenhoca chamou atenção dos organizadores do evento, já que diferente de um foguete espacial, o combustível usado para fazer o foguete alagoano voar pode ser utilizada em sinalizadores náuticos e salvar náufragos em alto mar.
O detalhe mais importante da trajetória do jovem astrofísico de Alagoas é que todo o conhecimento que ele usou para desenvolver o foguete ele aprendeu sozinho. “Leio muito sobre astronomia, física e matemática. Quero mesmo é me aprofundar nessa área e me tornar um astronauta”, afirmou.
(Acima, vídeo do lançamento do foguete durante a Olímpiada Alagoana)
De grão em grão até quem sabe à NASA
O menino que brincava descalço pela rua onde morava, que estudou em escola pública e que logo cedo pensou em trabalhar para ajudar nas despesas da casa também começou a mostrar interesse pela astronomia. Chegou à Academia da Força Aérea (AFA), depois ao ITA, virou piloto de caça e chegou à Nasa, a Agência Espacial Norte Americana.
A história do astronauta brasileiro Marcos Pontes virou o modelo que Davi pretende seguir. Durante sua participação na Space Camp o jovem alagoano conheceu Pontes e em uma conversa rápida falou da semelhança entre as histórias de vida.
A lembrança do momento, uma fotografia e um autógrafo no livro da biografia do astronauta, são guardados com orgulho por Davi. “A história do Marcos bate com a minha. Ele era de origem pobre, estudou e conseguiu ser o primeiro astronauta brasileiro e do hemisfério Sul na Nasa. Quero ir devagarinho, estudar, entrar no ITA ou tentar outra universidade que tenha o curso de engenharia espacial. Quem sabe um mestrado ou um estágio na NASA ou outra agência espacial na Ásia, na Índia, ou Europa. Apesar de minha família no começo achar que não ia dar certo, estou conseguindo mostrar que posso chegar mais longe”, planeja Davi.

