De um lado, a candidatura da presidente Dilma Rousseff amparada pela potência eleitoral dos senadores Renan Calheiros (PMDB), Fernando Collor (PTB) e o ex-governador Ronaldo Lessa (PDT).
Do outro, um historiador que tenta convencer PCB, PSTU e PSOL a se unirem contra as "candidaturas do grande capital"- representadas por todos os nomes que encabeçam esta matéria.
Golbery Lessa é filiado ao PCB e conversa com Heloísa Helena (PSOL) e PSTU para a formação de um "blocão da esquerda". Veja entrevista:
1. Um dia a esquerda de Alagoas teve a sua chance com Ronaldo Lessa no Governo, mas esta confiança ficou abalada. Por quê?
Golbery Lessa-. A rebelião civil-militar de julho de 1997, na qual o povo tirou do Executivo estadual a mais influente liderança de direita alagoana do último terço do século XX, abriu um leque de oportunidades para as principais organizações da esquerda.
Entretanto, as lideranças em ascensão no momento posterior ao 17 de Julho tomaram duas decisões que comprometeram o desenvolvimento da esquerda durante uma década e meia: 1) Focaram apenas nas eleições, não agiram para consolidar a ascensão conjuntural da consciência do povo por meio da organização de conselhos e assembleias populares formados por camponeses, sem terras, assalariados rurais e urbanos e setores progressistas da classe média; 2) Escolheram Ronaldo Lessa, que já transitara de uma posição social-democrata para uma posição neoliberal (enquanto os alagoanos lutavam contra Suruagy , Lessa estava fazendo um curso no Banco Mundial durante todo ano de 1997), como candidato ao governo em detrimento de Heloísa Helena, a incontestável liderança civil do 17 de Julho e, naquele momento, já uma das influentes figuras antineoliberais do país.
A esquerda perdeu uma ótima oportunidade por não ter acreditado na organização política da população e ter escolhido o candidato para o governo que estava aquém do nível de consciência crítica adquirido pela população.
Informações de bastidor nos levam a crer que o PT nacional teria obrigado o PT alagoano a apoiar Ronaldo Lessa no contexto de uma aliança nacional com o PSB e outros partidos na eleição presidencial de 1998.
Naquela conjuntura, a ida de Heloísa Helena para o Senado significou uma derrota para a esquerda estadual, pois a máquina pública de Alagoas foi entregue a um indivíduo com um histórico importante de lutas democráticas e sociais, mas que já tinha transitado ideologicamente para o lado do grande capital e, portanto, estava mais disposto a aliar-se às oligarquias do que em auxiliar no avanço da lutas populares.
O primeiro governo Ronaldo Lessa teve avanços pontuais, principalmente na saúde e na educação, porque incorporou nessas áreas a influência positiva do clima pós-17 de Julho e bons quadros técnicos da esquerda.
Entretanto, rapidamente, o governo adernaria à direita, integrando-se à maneira oligárquica de administrar. O segundo governo Ronaldo Lessa foi, essencialmente, a radicalização desse processo.
Conclusão: a esquerda alagoana saiu de um momento de ofensiva e de vitórias, durante os anos 1990, na qual chegou a disputar a prefeitura da capital com duas candidaturas competitivas (Heloísa Helena - PT e Kátia Born- PSB) e tirou do governo estadual um dos mitos da direita, para uma situação na qual parte significativa dos seus quadros foi cooptado pelas oligarquias e fizeram governos municipais e estaduais conservadores.
Concomitantemente, o PT alagoano, a partir de 2002, passou a aliar-se aos partidos de direita da base aliada de Lula no Congresso, o que significou sua adesão às oligarquias. Criaram-se, portanto, vários espaços políticos vazios à esquerda, os quais passaram a ser preenchidos, progressivamente, pelo crescimento do PSTU, do PSOL e do PCB, as agremiações que permaneceram fieis aos princípios antineoliberais e socialistas.
2. Como andam as negociações em Alagoas para a formação de um bloco de oposição contra Lessa, Collor, Renan e Teotonio Vilela Filho?
GL- As Jornadas de Junho demonstraram o enorme deficit de representação política em Alagoas e a profundidade da insatisfação das massas.
Ficou claro para os partidos socialistas o potencial pré-revolucionário das grandes manifestações de 2013, entretanto também evidenciou-se a necessidade desses partidos tornarem-se mais conhecidos do grande público.
No atual momento, a esquerda alagoana tem clareza da necessidade da unidade entre suas organizações e está sendo bastante cuidadosa com o tema.
É possível perceber uma flexibilidade e um bom senso muito significativos em todos os participantes desse diálogo.
Parece haver em todos a crença de que não adianta uma organização crescer em detrimento das outras, pois todas têm uma contribuição específica e valiosa a dar e as tarefas colocadas pela nova conjuntura apenas podem ser efetivadas pelo conjunto da esquerda.
Em 2014, a unidade da esquerda alagoana seria fundamental para aumentarmos as possibilidade de não deixarmos o duro jogo político macro ser jogado apenas por candidaturas representantes do grande capital.
A unidade eleitoral na esquerda facilitaria a criação de um polo discursivo e prático de verdadeira oposição, de oposição ao status quo e não apenas a um dos grupos políticos que o representam, bem como aumentaria as possibilidades de usarmos as eleições para irmos além delas, ou seja, para auxiliarmos na organização dos oprimidos e no avanço do debate crítico em relação aos males de Alagoas e à sociedade capitalista.
Estou muito otimista em relação à unidade eleitoral e à participação da sociedade civil numa campanha de uma esquerda unificada. Se esse fenômeno ocorrer, poderemos, no mínimo, sustar a barbárie que o projeto oligárquico tem imposto ao povo alagoano.
É desvantagem grande demais enfrentar um bloco- que inclui a disputa eleitoral com Dilma- quando os próprios partidários dela em Alagoas afirmam que ela deve ganhar com 60% dos votos aqui e a esquerda ter este discurso de oposição a uma candidata em condições tão favoráveis?
GL- Partidos revolucionários, como o PCB, o PSTU e o PSOL, não participam das eleições para conseguirem votos de qualquer maneira e, por essa via, ocuparem cargos no Legislativo e no Executivo.
A esquerda alagoana participará das eleições de 2014 com os objetivos principais de ajudar na organização e na conscientização dos oprimidos e de fazer uma crítica minuciosa dos defeitos de todas as políticas públicas, demonstrando que a origem desses defeitos está no próprio sistema capitalista e não, essencialmente, nas falhas de gestão.
Desse modo, o êxito da esquerda não poderá ser avaliado pelo número de votos que venha a obter, mas pela sua capacidade de fortalecer as organizações políticas do povo e revelar o quanto de farsa existe nos processos eleitorais de uma sociedade capitalista.
Ao longo da história moderna, a popularidade de governos liberais é advinda da própria aparência da realidade capitalista e não, essencialmente, de suas ações ou propaganda.
O simples fato de comprar e vender impõe ao indivíduo a convicção de que o capitalismo é justo, já que, aparentemente, se troca sempre mercadorias de igual valor.
Contudo, na realidade, o trabalhador entrega uma mercadoria bem diferente da que recebe do patrão, oferece a única mercadoria que produz valor.
Os governos federais petistas operacionalizam o projeto político do grande capital há doze anos e os meios de comunicação informam às massas que Lula e Dilma são os representantes dos valores capitalistas. A adesão da maioria da população não é, principalmente, a Lula e a Dilma, mas à Ordem.
Assim, a esquerda alagoana já espera conflitar-se com o enorme poder simbólico, político e econômico dos representantes do status quo, esteja representado por Dilma, Renan, Vilela ou Collor, pois esse poder é uma variável permanente no interior do processo de luta da esquerda pela superação do capitalismo.
Enfrentar Dilma é difícil porque enfrentar a Ordem é difícil. Mas há contra-tendências capazes de auxiliar a luta da esquerda em 2014.
Uma delas é a clara insatisfação dos trabalhadores das cidades contra o caos urbano instalado pelas políticas neoliberais e pelas práticas das oligárquicas de cada cidade.
Outra contra-tendência importante é o avanço do processo inflacionário, principalmente aquele que atinge os estratos mais vulneráveis das populações trabalhadores, do campo e da cidade.
E, finalmente, os efeitos na renda dos trabalhadores da mercantilização e da precarização das políticas públicas. Pelo que vimos em junho de 2013, essas contra-tendências foram suficiente para levar a Ordem às cordas e para dinamitar um terço da popularidade do governo Dilma.
Se o mesmo ocorrer em 2014, a esquerda alagoana terá ótimas condições para dialogar com as populações oprimidas.