Locais de grande concentração de pessoas têm sido certeza de eventualidades policiais. No último domingo, durante a tradicional “Parada Gay” na orla de Maceió, mais uma tentativa de assalto foi registrada, com populares conseguindo capturar o criminoso e fazendo justiça com as próprias mãos, o que tem se tornado constante diante dos números alarmantes da violência em Alagoas.
Ainda sem identidade confirmada, um jovem que aparenta entre 20 e 25 anos é duramente espancado por populares que claramente falam sobre um possível assalto que aconteceu durante a “Parada Gay”, neste domingo, na orla de Maceió.
O CadaMinuto entrou em contato com a assessoria de comunicação do Hospital Geral do Estado (HGE) para buscar mais informações de um jovem espancado na noite de domingo, mas, sem o nome do paciente, o detalhamento do caso fica limitado.
Mesmo sem as informações do estado se saúde do suposto assaltante, é possível acompanhar pelas imagens que as agressões duram um tempo considerável com chutes e pisadas por todo o corpo, principalmente na cabeça. Um dos populares chega a bater com um capacete no então agressor que se tornou vítima.
Este tipo de reação da população já se tornou comum no dia a dia dos alagoanos, tendo em vista a sensação de insegurança e o ato de fazer justiça com as próprias mãos. É comum que vídeos sejam divulgados e compartilhados através de redes sociais.
O tema foi abordado inclusive numa matéria especial do jornal CadaMinuto Press, que aponta números da violência em Alagoas e os constantes assaltos que são revidados com atitudes intempestivas da população.
CONFIRA PARTE DO TEXTO DO JORNAL:
Insegurança
Os roubos também têm números alarmantes, recentemente um aposentado foi morto em frente a uma clínica no bairro de Mangabeiras ao reagir a um assalto, o carro foi levado. Só em 2013, até setembro, foram roubados 944 carros, a maioria é recuperada, mas o crime não é evitado, ocorre e cada vez com maior frequência.
Muitas são as manifestações de descontentamento com os rumos da segurança pública no estado. “Viver em uma cidade sitiada é prova de que os governos não estão cumprindo com as suas obrigações básicas. O que é propagado não é cumprido e todos se acovardam. A palavra cidade é ‘prima’ da cidadania que é a qualidade de ser cidadão, indivíduo no gozo de seus direitos. Direito de morrer ou sobreviver?”, indaga Géssika Costa, estudante universitária.
Relatos como o de Renata Barbosa são cada vez mais comuns: “umas 18 horas fui a uma padaria com meu marido no [conjunto] Santo Eduardo, ele desceu para comprar pão e eu fiquei no carro travado, veio uma moto com dois rapazes, um entrou na padaria e o outro veio com a moto na minha direção e apontou uma arma para minha cabeça, eu só ouvi os tiros e gritos do povo que estava na padaria e na rua, o cara da garupa da moto foi baleado nas costas, alguém atirou nele, eu não vi quem foi”.
Em todo estado a sensação de medo é inegável, mas o bairro do farol, onde há muitos estudantes no período noturno e onde os pontos de ônibus são bem distantes das faculdades, tem sido alvo constante das investidas de bandidos. Roubos a pedestres, a motoristas, a comerciantes, clientes e estudantes são comuns. Nas imediações da rua Professor Ângelo Neto, os assaltos são diários, mas a maioria das vítimas não registra a ocorrência.
A descrença é tanta que não admitem, sequer, que o policiamento possa ser intensificado na área com o aumento das estatísticas. “Tive meu carro roubado em plena luz do dia, não chegou nenhum policial para me dar apoio e quando fui prestar queixa encontrei a delegacia fechada”, revelou Adailton Alves.
Daniela Medeiros já sofreu muito com o crescimento da violência no estado, seu próprio irmão já perdeu a vida. “Perdi um irmão em um assalto e eu já sofri um sequestro relâmpago, onde quatro homens rodaram comigo no meu carro, apontando um revólver para minha cabeça dizendo que iria estourar meus miolos. O governo não sabe o que é passar por uma situação dessas”, revelou.
Ladrões pegos por populares são condenados no meio da rua, amarrado em árvores
Segundo o Centro Integrado de Operações da Defesa Social (Ciods), são quase dois casos por semana de linchamento ou tentativa de linchamento. Populares que testemunham tentativas de assalto resolvem fazer “justiça com as próprias mãos” e prendem e agridem acusados dos mais diversos crimes. A prática de agressão física a acusados presos em árvores e postes era comum séculos atrás, quando a cidadania ainda não tinha seu conceito consolidado e o “justiçamento” era o único caminho conhecido.
A retomada de práticas atribuídas a bárbaros medievos mostra o quanto a sociedade tem se bestializado, acompanhando o caos social em que Alagoas está inserida. Já não são mais casos restritos a pobres e ignorantes, já toma todo estado e toda a capital, não há, sequer, ilhas de segurança. O aumento da criminalidade é indiscriminado e está incontrolável.
No mesmo dia em que houve o roubo do carro na frente de uma faculdade particular, na rua Prof. Ângelo Neto, e do assalto aos estudantes nas proximidades de um supermercado – narrado no início desta matéria –, um homem foi assalto na rua Sandoval Arrochelas, na Ponta Verde. Da mesma forma que não há mais local menos perigoso, também não há distinção entre as vítimas. “Uma das irmãs da congregação Damas (Colégio Santa Madalena Sofia) e graduanda do Cesmac, já foi vítima de assalto. Nem freiras estão perdoando! Estamos no fim do "poço" mesmo”, explica Cátia Pimentel.
Karina França sugere uma medida mais drástica: “todas as pessoas que sofrerem com a negligência do Estado deveriam entrar com ação na Justiça, requerendo um direito garantido na Constituição: segurança. Quando o governo sentir nos cofres públicos, talvez comece a fazer algo”.
