Catorze dias. Foi quanto os primos Brian Ceballo e Joseph Cruz tiveram de esperar na porta da loja da Apple na 5ª Avenida, em Manhattan, para conquistar a vanguarda da fila e comprar primeiro o novo iPhone 5S.

Eles e outras 400 pessoas viraram a noite de quinta para sexta vigiados por dois carros da polícia.A aglomeração em Nova York é apenas mais uma entre centenas no mundo, onde consumidores ávidos se dispõem a enfrentar o desconforto por um iPhone 5S ou 5C.

O Terra acompanhou a movimentação na madrugada de sexta. Entre fanáticos pela Apple, seguranças de terno e equipes de TV, todos carregavam o smartphone onipresente, os dedos sempre a cavar informações e imagens na tela sensível ao toque. Um pequeno exército de funcionários da Apple coordenava, fotograva e filmava a fila.

Simpáticos, Brian e Joseph estão de olho no iPhone dourado. A nova cor parece ser a verdadeira vedete deste lançamento. A Apple limita as compras a dois aparelhos e eles pretendem adquirir um para uso pessoal e outro de presente para a mãe. "Ela acha que sou maluco, mas me liga todo dia para saber como estou", conta Joseph. Ele diz que a fila só começou a aumentar mesmo nos últimos dois dias. "Revezamos para guardar o lugar e tomamos banho numa academia aqui perto", relata, completando que planeja se alistar nos Marines, os fuzileiros navais americanos.

Já Brian enseja carreira de rapper e publica suas composições no YouTube, além de manter presença em todas as mídias sociais. "Ficamos na fila mais pelo divertimento mesmo", assume. Os dois já ficaram na porta da Apple várias vezes nos últimos cinco anos, mas nunca tinham conseguido chegar primeiro. Os primos perderam a conta das vezes em que foram entrevistados. Volta e meia parecem calejados demais nas respostas, que soam um pouco ensaiadas.

Clima de festa
Depois de duas semanas, o clima no topo da fila é de animada irmandade. 

Duas garotas perguntam a Brian se ele vai comprar o modelo de 64 GB. "Não preciso de tanto", diz a morena pálida e enrolada em vários cobertores. Brian alega sua produção musical para justificar a necessidade de tanta memória.

Os lugares depois dos primos eram ocupados por um grupo de rapazes de um site para compra e venda de iPhones usados. Eles vieram de Cincinnati, Ohio, devidamente trajados com a marca da empresa para efetuar um pequeno golpe de marketing dentro do golpe maior que é a obsolescência programada. Nos quinze dias em que fizeram campana na fila, todos acabaram ficando amigos e os empresários iniciantes até se ofereceram para patrocinar os dois.

 advogada romena Carmen Dedita, 49, estava de viagem pelos Estados Unidos e resolveu conferir a movimentação com o marido e o filho. Impressionada com tanta obstinação, tentou filosofar sobre a horda encantada com o ritual da novidade tecnológica. "Eles ficam tão focados numa única árvore que se esquecem de olhar a floresta. São como peões num jogo de xadrez. Atores meio involuntários num grande circo", disse.

Barreiras de metal foram montadas para disciplinar a fila que, às 3h, já serpenteava o bloco onde a 5ª Avenida e a 58ª rua se cruzam. Nesse mesmo cruzamento passavam os amigos paulistas Aline Aranha e Neto Bolzan. Aline queria comprar um iPhone mas se assustou com a quantidade de gente.

Neto, por sua vez, diz que não faz questão de ser um dos primeiros, mas entende a disposição de enfrentar o frio da noite. Talvez seja como escreveu o artista plástico Andy Warhol em 1975: "Uma Coca é uma Coca e dinheiro nenhum te consegue uma melhor do que a tomada pelo mendigo na esquina. Todas as Cocas são iguais e todas as Cocas são boas". Sim, mas se todos os iPhones são iguais, conseguir um primeiro representa o esforço pessoal de destacar-se da massa.