Há meses, talvez anos, quando soube que ‘Rush’ seria produzido, já tinha uma questão em mente: “ou Hollywood vai estragar tudo e fazer um pastelão clássico, cheio de piadinhas sem graça, ou vai ser um filme que, de tão fiel, só vai agradar aos fãs de F1″. Assisti ao filme e reconheço: estava completamente errado. ‘Rush’, que estreia hoje nos cinemas, é um filme espetacular, que arrepia do mais fanático amante da principal categoria do automobilismo mundial até aquele espectador que caiu de paraquedas no cinema e nunca ouviu falar em Niki Lauda.

Para comprovar ou refutar a minha tese inicial, usei um artifício empírico e infalível. Levei minha namorada junto para ver o filme. Muito longe de ser uma fã de F1, ela costuma me perguntar, nos meus finais de semana de folga: “tem certeza que vai acordar a essa hora para ver a corrida amanhã”? Ela já tinha ouvido falar em Niki Lauda, mas nunca em James Hunt. Saiu do cinema PhD nos dois e me disse, sem eu precisar perguntar: “muito bom o filme”.

Mais do que uma película sobre Fórmula 1, é um filme sobre paixão. O que há por trás desses malucos, que dedicam a vida a atingir a perfeição guiando carros que chegam a velocidades insanas? Qual o caminho do sucesso em um esporte em que não basta ser o mais rápido nas pistas, é igualmente preciso ser inteligente fora delas. Qual o segredo dos campeões? A resposta que o filme apresenta é: não há receita de bolo. Seja apaixonado pelo que faz, viva, respire, coma, sonhe com F1. Todo o resto é consequência.

Como qualquer amante de F1 que se sentar nas poltronas dos cinemas a partir desta sexta, foi fácil fazer o meu olho brilhar logo nas primeiras cenas. Roncos e mais roncos de motores, carros, circuitos, paddocks recriados e ao mesmo tempo envelhecidos de tal forma que o resultado final chega a ser assustador, tamanho realismo. Obra de arte de Ron Howard (também diretor de ‘Uma Mente Brilhante’ e ‘Frost/Nixon’).

É claro que o fã mais fundamentalista vai facilmente perceber que as cenas de corridas são feitas com os carros em “velocidade de passeio”, para permitir as constantes disputas lado a lado que apimentam as cenas de ação. Os cortes rápidos entre as cenas, as visões dos pistões de dentro do motor, ora em câmera lenta, ora em velocidade normal, dão um dinamismo às cenas das corridas em que é difícil perceber claramente o cenário. É tudo muito rápido passando pelos seus olhos, exatamente como é na F1.

Há também algumas situações que não passam de invenções, para amarrar o enredo do filme, que certamente serão alvo da tribo fanática. Críticas que eu não concordarei, neste espaço. Até onde pude analisar, diria que há uns 5% de “invenção” na história. Entre elas, talvez a maior “mentirinha”, é justamente uma das primeiras cenas do filme, em que Hunt e Lauda competem na Fórmula 3, categoria de acesso à F1. (Não se preocupem que não virá spoiler aqui)

No mundo real, os dois jamais se enfrentaram na prova exibida no filme, em Cristal Palace. Mas bola pra frente. Talvez a intenção do diretor fosse criar a rivalidade entre os dois desde o início, como maneira de amarrar o enredo. E deu certo.

Apesar deste exemplo de imprecisão histórica planejada, vale ressaltar que a essência dos personagens, dos acontecimentos, é fielmente retratada ao longo da película. Esses 5% de molho que o diretor adicionou não descaracterizam os personagens, apenas nos fazem lembrar que ‘Rush’ é uma obra de ficção, não um documentário. É importante ter isso em mente ao gargalhar nas cenas genuinamente engraçadas, como a da carona de Lauda (calma que só vou citar, sem spoiler).

Outro ponto positivo, que sempre ajuda na caracterização, é o uso de idiomas locais nas cenas que se passam nos mais diversos países do circuito da F1. Por exemplo, as conversas entre Lauda e seu pai são conduzidas em alemão, bem como a coletiva de apresentação do austríaco na Ferrari, falada em italiano. No GP do Brasil, é possível ouvir, ao fundo, o locutor do autódromo animando a torcida em português, enquanto Hunt samba com mulatas na pista.

A atuação de Chris Hemsworth (astro de ‘Thor’) como James Hunt capta a essência do piloto mais desmiolado que a F1 já teve. Jogado nos cantos, fumando, bebendo, usando drogas e dormindo com incontáveis mulheres ao longo da história, o piloto inglês é destroçado psicologicamente pela rivalidade com Lauda. Hunt é a exata descrição do sujeito ‘fanfarrão’, mas é justamente o seu estilo de vida playboy que lhe dá o equilíbrio que precisa para enfrentar a morte nas pistas. Na medida em que a trama se desenrola, o público pode notar a sua transformação: de um jovem inconsequente, Hunt passa a ser visto como uma fortaleza.

Na outra ponta, o completo oposto em praticamente tudo o que se possa imaginar, menos na paixão pela velocidade, está Daniel Brühl (de ‘Adeus, Lenin!’), no papel de Niki Lauda. Aqui vai um capítulo à parte para a sensacional caracterização e fantástica atuação do ator hispano-alemão. Faça um exercício, veja uma entrevista de Lauda no Youtube e compare com a performance de Brühl. Até o próprio Lauda reconheceu, em entrevista, que ficou chocado com a semelhança.

Com o único desejo de ser o melhor, o piloto austríaco é a síntese da perfeição. Sabe acertar um carro como ninguém, domina o traçado dos circuitos, cuida da parte física, um verdadeiro computador humano. Porém, o seu carisma é zero. Petulante, confia no seu talento e não tem vergonha em dizer que é o melhor piloto da sua geração.

É nesta dualidade que transita muito bem a narrativa, do início ao fim. No final das contas, ‘Rush’ é um filme sobre uma rivalidade de personalidades opostas, destinado a um público igualmente oposto. Você é fã de F1? Não perca por nada. Você não é? Vá ao cinema mesmo assim.