Pablo Neruda, com os militares à porta, foi perguntado qual arma ele tinha dentro de casa. "A mais terrível de todas". Sobressaltados, viram o poeta premiado pelo Nobel sacar uma caneta do bolso. "Eis a pior".
Neruda era um gênio mas comunista. Bobagem, seus versos mostravam mais. Era altruísta. Admirado, odiado. Execrado, atraído. Expatriado, cidadão de todos os continentes. O Governo do Chile lhe rendia o egoísmo- a mesquinha homenagem aos homens da paz. O mundo lhe reconhecia.
Afinal, o Graciliano Ramos e a Nise da Silveira tão citados hoje em Alagoas foram, um dia, expulsos daqui. Era a homenagem ao gênio genioso dos dois. Nunca mais voltaram. E ganharam as páginas do mundo, para além dos nossos grãos de areia. Por aqui, aproveitamos os despojos de "quem venceu na vida".
Lembro disso após conversar rapidamente com o jornalista Ricardo Mota- a quem pouco conheço, ainda. Manifestei solidariedade sobre a decisão da juíza Adriana Carla Feitosa Martins, do 9º Juizado Cível e Criminal, que condenou o jornalista por difamação. Autor: o juiz Gustavo Souza Lima.
Fiz uma piada: "Vai sair do jornalismo para a alegria de alguns deste mundo ou ficar para a tristeza de tantos?" "Não, isso me dá mais gás".
Em uma longa entrevista no Youtube, o médico Viktor Frankl mostrou que mesmo nos campos nazistas (ele havia sobrevivido a dois, incluindo Auschwitz), havia esperança.
Sim, o médico descobriu-se ali. Viu a mulher morrer- grávida. Parte da família, os amigos, a câmara de gás, os fuzilamentos, os gritos, os pesadelos. Por que não encerrar esta jornada sofrida? Resolver com um lençol amarrado ao pescoço?
"Eu escolhi viver e denunciar o que vi. Não daria o gosto a eles de me matar. Se eles o quisessem, eles mesmos o fizessem". Não o fizeram. Morreu aos 92 anos- um dos maiores humanistas do século passado. E cumpriu a promessa da denúncia.
Acreditava na ideia: Sócrates aceitou a pena capital por acreditar na democracia, defendida por ele. E Gandhi? Jesus? Acreditavam no homem.
Nós, jornalistas, buscamos o nosso sentido escrevendo, em nossa pequenez diária. Nossa tinta reflete os desvaliados, os desorientados, desesperançados, destroçados, amordaçados.
Pouco, quase nada, diante deste mundo que exige- na maioria das vezes- que enterremos a nossa moral na lama.
Afinal, a vaidade de escrever dura pouco. Ela por ela se esvaí. Vem a realidade, em seguida.
E por termos a função de perguntar- e escrever- é que continuamos. Talvez por altruísmo. Ou porque a consciência não me deixa em paz. Ou para ganhar dinheiro e manter a internet, arriscar comprar alguns livros (ou baixá-los na internet), comer no Chino do Extra- uma vez por mês- ou pagar uma viagem em suaves prestações- a minha primeira vez de avião.
Não é tão simples escolher fazer ou não.
Já fui demitido por senador, pressionado em reunião de jornal por cúpula e jornalistas, perseguido por secretário de Comunicação de Maceió, ameaçado de morte, processado (e quase condenado) a pagar R$ 100 mil- afora as queixas-crime em delegacia e Polícia Federal.
Vi amigos me abandonarem. E, logo depois, voltarem com sorriso largo, diminutivos carinhosos na língua e uns gestos de esquecimento- para em seguida abandonarem de novo.
Lições de vida. Não controlamos tudo.
Sim, escolhemos escrever. Mas, o quê?
Decidimos escrever o que deve ser escrito.
E as consequências? Bem, caro Ricardo, deste lado de cá não dá para controlar tudo. Apenas aquilo que o discurso- sem sofismas- consegue alcançar.
O resto vem pelo sentido. A terapia do acreditar. Daqui, eu acredito em dias melhores. E você?