A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Assembleia Legislativa é tratada como o primeiro passo para que o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB), possa dar o sim definitivo para a disputa ao Governo de Alagoas, retirando do senador Fernando Collor (PTB) a chance de brigar pela cadeira do Executivo e colocando o deputado federal Renan Filho (PMDB) para disputar a reeleição, "acomodando" os outros postulantes à Câmara Federal.

As regras da engrenagem envolvem algumas peças do jogo político. E enigmas a se responder.

Após Renan declarar que o PMDB defendia apuração da saraivada de denúncias contra o Legislativo Estadual, Collor enquadrou o PTB- comandado pelo deputado estadual Marcelo Victor (PTB) na Casa da Tavares Bastos.

Na quarta-feira (7), Victor saiu de seu mutismo político para defender a apuração das irregularidades na Assembleia. Foi acompanhado por Ricardo Nezinho (PMDB), Olavo Calheiros (PMDB)- que defende uma CPI- além de Judson Cabral (PT) e Ronaldo Medeiros (PT). Até duas semanas atrás, apenas João Henrique Caldas (PTN) levava adiante- e sozinho- a bandeira que pede o fim das regalias em um dos poderes mais corruptos de Alagoas.

"Não existe nenhum tipo de raiva ou tristeza em se cobrar transparência na Assembleia", disse um quase irreconhecível Marcelo Victor. Temido pelo servidores da Casa e conhecido como o "senhor das armas" (por guardar um arsenal em casa), Victor- em público- falava em "democracia", "fiscalização" e "defesa da moralidade".

A bancada governista- maioria esmagadora da Assembleia- ficou sob silêncio. Porque a ordem do governador Teotonio Vilela Filho (PSDB) é a de não levar adiante a CPI.
O motivo é pragmático: Collor e Renan teriam a Assembleia como palanque, através da dobradinha PT-PMDB. Vilela- que deve se candidatar ao Senado ou disputar uma vaga no Tribunal de Contas da União (TCU)- não ganharia em ceder espaço a Collor e Renan. Ao mesmo tempo, conta com o voto dos dois para uma provável ascenção a ministro-vitalício.

Da mesma forma que uma CPI é quase impossível na Assembleia, a ida de Vilela ao TCU pode ser uma tática dos governistas para inflar o nome do governador em Brasília. 

E como um governador citado na Operação Navalha assumiria uma vaga no tribunal? A lógica parece afastar Vilela do páreo.

Não é só isso. Do lado do ex-governador Ronaldo Lessa (PDT)- inimigo político de Vilela- a análise é que se Vilela sair ao Senado teria o vice-governador José Thomáz Nonô (DEM) no Governo. 

"Nonô não tem força política nem voto. Tem discurso. Mas, o discurso sozinho não vence eleição", diz um lessista.

E Nonô disputaria a eleição ao Governo. E Vilela entraria em desgaste político com Renan e o senador Benedito de Lira (PP)- que diz ser candidato à chefia do Executivo Estadual. Perderia Nonô e Vilela sairia mal na fita.

Já Renan tem a chance de disputar a reeleição à presidência do Senado no próximo ano- convalidando o mando do PMDB na Casa desde 2007. Mas, ele vai trocar a eleição "mais fácil dos últimos 10 anos em Alagoas" - incluindo uma reeleição- por dois anos no comando do Congresso Nacional? A escolha não é tão simples. E nem mesmo um animal político como Renan estaria de fora de errar e cair fora do cenário político local.

Por outro lado, Renan manda no ex-prefeito de Maceió, Cícero Almeida (PRTB), além de Lessa e mais de 80 prefeitos alagoanos- além de deputados da oposição.

"Se lançar o Renan Filho ao Governo, o Renan-pai tem um risco: perder a eleição. Por isso, é Renan-pai quem vai disputar. Collor quer o Senado, apesar do desejo do Governo para voltar à Presidência da República", disse uma conhecida figura pública de Alagoas.

E quem tem mais chances nesta eleição? "Heloísa Helena. Imagine uma campanha entre Collor e Heloísa, ela com panfletos na mão e Collor apostando até em macumba para se eleger? Qual será a escolha do eleitor alagoano?".

É uma pergunta que qualquer um pode se fazer, a um ano e dois meses da eleição "mais fácil" ou "mais difícil" dos últimos 10 anos em Alagoas. A depender de qual posição política estejam os principais personagens do tabuleiro eleitoral.