O assassinato do jovem Diego Florêncio e o desaforamento do processo- que será decidido na próxima terça-feira (6)- foram destaque no jornal O Globo- um dos veículos de maior circulação no País.

O desaforamento será decidido pelo Tribunal de Justiça. O relator é o desembargador Celyrio Adamastor.

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Na próxima terça-feira, Leoneide Florêncio estará sentada diante de 15 desembargadores do Tribunal de Justiça de Alagoas. 

É que eles vão decidir se vão aceitar o  desaforamento do processo que apura o assassinato do filho dela, Diego, de 23 anos, morto com 12 tiros.

Até agora, só Leoneide perdeu. Além do filho, mais dois  parentes foram assassinados. Ela desconfia que a insistência por Justiça na morte do filho acabou sacrificando os parentes. Na prática, as investigações sobre os dois crimes não são conclusivas.

Ela já foi processada por um juiz por falar a respeito do caso do filho e foi obrigada, pela mesma Justiça, a distribuir cestas básicas a instituições de caridade. 

E  processada por um dos acusados no crime por supostas ameaças de morte:

- Veja o senhor: nunca mexi em uma arma, nem sei como é. E nunca ameacei ninguém. Só eu perdi.

O marido é médico e estava de plantão quando desmaiou ao ver o filho entrar cravejado de balas na porta do hospital da cidade de Palmeira dos Índios- onde moram- em 23 de junho de 2007.

Quanto a Diego, segundo o Ministério Público Estadual, ele foi morto por três pessoas, entre eles Antônio Garrote. Ele é filho da ex-prefeita da cidade de Estrela de Alagoas, Ângela, que já foi presa por matar a amante do marido e desviar R$ 1 milhão dos cofres da Prefeitura. O irmão de Antônio, Arlindo Garrote, também foi preso por corrupção. Ele é o atual prefeito da cidade.

Ela teme que a influência dos Garrote em Palmeira dos Índios- palco do crime- beneficie os acusados. O julgamento deve ser em Maceió:

- Parece que falar de "vida" em Alagoas é um palavrão. Incrível como uma palavra consegue ser tão vilipendiada em nosso Estado e tão difícil de ser pronunciada, disse Leoneide.

Os números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) comprovam o que diz Leoneide: os homens alagoanos vivem bem menos. Eles têm a mais baixa expectativa de vida do Brasil. 

Em média, 64,60 anos. Em 1980, esta expectativa era de 52,73 anos. A violência é apontada como uma das causas. Nos dois institutos médicos legais de Alagoas, dizem os relatórios, 95% das entradas de corpos por mortes violentas são de homens, quase todos por arma de fogo. 

Além do tráfico de drogas- mostram as investigações da Polícia Civil- os homens alagoanos morrem mais nos acidentes de trânsito e em simples discussões: uma briga entre vizinhos, por exemplo.

Já as mulheres vivem muito mais: em 30 anos, a expectativa de vida delas saltou 15,13 anos. 58,84 anos, em 2010. 73,97 anos, em 1980.

- O homem é mais impetuoso e tem mais medo de ir ao médico para se cuidar. Além disso, o mundo do crime em Alagoas é machista. Arregimenta um jovem entre 15 e 20 anos. Promete dinheiro fácil e rápido. Por isso, os homens morrem mais, explica a secretária da Mulher, Cidadania e Direitos Humanos, Kátia Born.

- Trabalhamos com grupos de idosos. Temos 70 mulheres em um grupo para cada três homens. E os homens são mais 'estragados', analisa.

Por outro lado, Alagoas, segundo o IBGE, lidera em taxa de mortalidade infantil. São 30,2 crianças que morrem a cada mil nascidas vivas. Santa Catarina ocupa a outra ponta: 9,2 por mil nascidos vivos.

- Voltamos ao século XIX, disse o secretário Estadual de Saúde, Jorge Villas Bôas, em coletiva na quinta-feira (1), após os telejornais da Globo mostrarem que 51 pessoas-a maioria crianças- morreram vítimas de uma epidemia de diarreia que se espalha em mais de 20 cidades. Mais de 80 mil casos foram registrados. Desconfia-se que a água distribuída em carros-pipa e os açudes castigados pela pior seca dos últimos 50 anos possam estar contribuindo para a mais nova praga.

Milhares de pessoas morreram há 200 anos em Alagoas em uma epidemia semelhante: de cólera.

- Os programas sociais do Governo Federal se preocupam muito com a saúde da mulher, explica a secretária Kátia Born. 

- A mulher faz o pré-natal, mas os hospitais nas cidades não está equipados para isso e elas acabam usando a rede estadual, que fica sobrecarregada. Veja só: temos dois andares inteiros do Hospital Universitário, mantido pela União, fechados porque não há pessoal. São 96 leitos. O Governo Federal fica com 70% dos recursos no bolo federativo. O governador Teotonio Vilela Filho (PSDB) anunciou a construção do Hospital Metropolitano em Maceió. Mas, a União não ajuda no pagamento de pessoal. É uma responsabilidade dos estados, diz Born, também ex-prefeita de Maceió.