O ex-presidente da República e senador Fernando Collor(PTB) publicou um artigo no jornal Folha de S.Paulo "O ineditismo das ruas", onde destaca as manifestações de hoje não se comparam com as de 1992.

Segundo ele, antes, pedia-se a destituição do presidente. Hoje as demandas são genéricas e difusas.
Este blog publica agora na íntegra o artigo do senador alagoano:

"Há meses, manifesto no Senado a preocupação com o esfacelamento das instituições, a crise entre os Poderes e o descrédito em relação à atividade política. No fundo, tudo está relacionado às reivindicações da sociedade neste momento de mobilização e protesto.
Como venho prenunciando, a crise institucional nos levou à derrocada do modelo de democracia representativa. Em outras palavras, levou ao fenômeno que chamei de paradoxo da legitimidade versus credibilidade. De maior legitimidade, com 100% de seus integrantes escolhidos pela população, o Legislativo é hoje o Poder de menor aceitação popular. O Judiciário, em cuja composição não há qualquer participação da sociedade, detém no momento a maior confiança da população. Entre os dois, o Executivo, em que apenas os chefes são eleitos e os demais integrantes, nomeados.
Tudo de que se tem reclamado, em última instância, deriva do atual sistema político, que há décadas se isola das forças sociais. Por isso defendo a adoção do parlamentarismo, que traria para dentro do Congresso a participação da sociedade civil.
Com o modelo parlamentar, as refregas políticas e institucionais são arrefecidas e a administração pública torna-se ágil e eficaz. Pois, sob o presidencialismo de coalizão, constatamos em todos os níveis uma máquina pública travada, amarrada politicamente ao gerir serviços públicos essenciais.
O que vemos é o trabalho de planejadores, gestores e executores ofuscado. O que prevalece é a atuação de procuradores, auditores e fiscais. Assim, trocamos o conteúdo pela forma, o fim pelo meio, a trena pelo papel. O resultado virou coadjuvante numa cena em que a burocracia é protagonista. Em nome da eficiência cega, perdemos o rumo da eficácia.
É fato ainda que essas manifestações em nada se comparam com as mais recentes vividas no país, a começar pela motivação e objetivos. Nos anos 60 e 70, lutava-se contra a ditadura e pela anistia. Nos anos 80, pleiteavam-se abertura e eleições diretas. Em 1992, pedia-se a destituição do presidente da República. Hoje as demandas são inúmeras, genéricas e difusas.
Também diferem na abrangência, pois jamais assistimos a protestos em tantas cidades e ao mesmo tempo, assim como nunca tanta gente de idades, classes e ofícios tão diversos saiu às ruas. Mesmo na duração, nunca se mobilizou sem líderes e sem partidos por período tão longo. Se antes o cunho era eminentemente político, hoje somam-se vieses socioeconômico e de gestão pública, com o fio condutor pela mudança.
Portanto, não há como igualar o que vemos hoje com o que se viu no passado recente. A cobertura dos meios de comunicação também mudou. Não se reporta mais dos palcos dos acontecimentos, mas de sobrevoos. Apesar da avalanche de informações, com horas de rádio e TV ao vivo, as notícias e análises carecem de mais nitidez e conteúdo e menos subterfúgios midiáticos.
Em alguns casos, pende-se para a dissimulação da verdade. Algo estranho está no ar. Talvez, recuando ainda mais no tempo às revoltas do Vintém (1879-80) e da Vacina (1904) e elevando-as à enésima potência, os confrades e confreiras de plantão encontrem respostas para os protestos do terceiro milênio. "

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