Você consegue imaginar um cuidador, frequentemente uma mãe, transformando em doente uma criança que de outro modo seria saudável?
Quem fala sobre essa temática é a psicóloga clínica, Janaína Diniz Guedes CRP 15/3448, com formação em psicologia humanista, capacitada em psicologia hospitalar infantil, facilitadora de grupos terapêuticos, coordenadora do Café Psi (evento de caráter acadêmico e cultural de extensão que relaciona temas do cotidiano social e humano) e pós graduanda em psicologia clínica e saúde mental.
Estamos falando da Síndrome de Munchausen por Procuração (SMP), compreendida como uma violência contra a criança, na qual a vítima chega aos hospitais com uma pseudo doença fabricada ou simulada pela mãe. Nesses casos, o responsável pela criança tem como finalidade receber atenção do meio médico. Existem inúmeros estudos sobre violência infantil, mas essa é considerada a mais complexa e letal, muitas vezes gera danos irreversíveis, como o óbito da criança.
No livro "Eu Não Sou Doente", Julie Gregory - vítima da SMP - relata detalhadamente seu drama, desde a infância até o momento em que percebeu que fora violentada pela mãe, quando já era acadêmica de Psiquiatria da Universidade de Sheffield, na Inglaterra. Frequentemente, Gregory era levada pela mãe a hospitais e a clínicas, locais nos quais foi submetida a procedimentos dolorosos que tinham como finalidade diagnosticar alguma doença cardíaca. Mesmo com toda a equipe médica e os resultados de diversos exames apontando para a não existência da patologia, a responsável da vítima chegou ao ponto de solicitar cirurgia invasiva na filha.
Por muito tempo, a mãe de Julie Gregory a privou da boa alimentação e provocou na filha problemas relacionados à escola e à educação, devido ao absenteísmo. Em seu livro, a vítima também ressalta que seu corpo fora talhado e devassado sem necessidade, apenas para atender ao objetivo de sua mãe, que pretendia "diagnosticar" uma doença cardíaca mesmo sabendo que a patologia não existia. A vítima afirma que a descoberta do abuso sofrido consiste, até hoje, deixando resquícios do trauma vivenciado.
As ações mais executadas em casos de SMP são: adulteração nos exames laboratoriais; administração excessiva de laxantes; administração de altas doses de remédio; adulteração em termômetro; troca de medicamentos; e envenenamento. O último caso é o mais descrito pela literatura médica, que destaca a administração de pequenas dosagens no início e o aumento progressivo até a hospitalização.
A saúde psicológica da criança afetada pela SMP é comprometida, já que a síndrome implica em características de passividade, imaturidade, agressividade, intensa ansiedade, medo da morte, depressão, problemas de interação social, baixa autoestima e hiperatividade. Diante dessas implicações, percebe-se a relevância da psicoterapia, uma vez que, são muito fortes as consequências psicológicas nocivas causadas pela síndrome. As vítimas da SMP mencionam que sentem a necessidade de ficarem sozinhas para não ter a sensação de ser invadida pelas pessoas, apesar de seus relacionamentos serem intensos e problemáticos, exatamente iguais à relação que tinha com a mãe.
Assim, quanto mais conscientes da Síndrome os profissionais de saúde e a sociedade estiverem, mais casos serão diagnosticados e, consequentemente, serão evitadas e/ou minimizadas as sequelas psicológicas que focam o corpo e a alma das crianças saudáveis. Além disso, podemos criar oportunidades para resgatar os seus direitos elementares à dignidade, à saúde e a própria vida.