Ainda sem provas técnicas do testemunho de Thiago Handerson, que ofereceu supostos detalhes do desaparecimento e morte da estudante de Contabilidade, Bárbara Regina, a Polícia Civil de Alagoas resolveu silenciar e tentar buscar, internamente, uma solução para o rastro de problemas e trapalhadas que aparecem no caso, e colocam em contradição todas as investigações sobre o crime. Além de deixar, sob constrangimento, a cúpula da PC alagoana.
 
Os delegados Carlos Alberto Reis e Antônio Nunes- responsáveis pelas investigações- sabem há 102 dias do resultado da amostra de sangue, colhida em um carro que supostamente transportou o corpo da estudante. E este resultado foi negativo para o sangue de Bárbara. 
 
Mais: a PC aposta em uma nova linha de investigação para provar o caráter criminoso de Bárbara Regina. 
 
Na semana passada, os delegados Carlos Alberto Reis e Antônio Nunes ouviram Nayara da Silva, que está custodiada no presídio Santa Luzia. Os dois estiveram no sistema prisional.
 
Ela é prima de Vanessa Ingrid, que é acusada de integrar o Primeiro Comando da Capital, o PCC- organização criminosa de São Paulo com tentáculos em Alagoas. Vanessa está presa por assassinato.
 
No depoimento- tomado no dia 5 de junho- Nayara sustenta a mesma versão de Thiago Anderson: Bárbara foi morta por dever programas sexuais e drogas a Vanessa Ingrid, agenciadora da estudante. Bárbara seria viciada em cocaína e sua morte custou R$ 1.800, pagos em drogas a Otávio Cardoso- o homem visto saindo de uma boate ao lado da jovem, acusado pela PC de executar Bárbara.
 
Reis e Nunes usam o mesmo expediente- utilizado para colher o depoimento de Thiago: Nayara é uma pessoa que está sob ameaça de morte- incluindo os familiares. E como está presa, os dois delegados defendem que ela seja logo ouvida pelo promotor Marcus Mousinho, responsável pelas investigações do caso Bárbara. Do contrário, a vida dela correria perigo.
 
O problema dos testemunhos de Thiago e Nayara é que eles não se confirmam na prática. Ambos dizem que Bárbara teve o corpo queimado na região da Mata do Rolo, na cidade de Rio Largo. Peritos estiveram no local e não encontraram vestígios humanos- algo considerado impossível aos profissionais, mesmo que o cadáver tenha sido queimado- como detalha Thiago em seu depoimento e revelado à imprensa no mês de março.
 
Esta semana, o promotor Mousinho declarou que o depoimento de Thiago só teria validade se vestígios do corpo tivessem sido encontrados. “Com isso, percebemos que há falha no depoimento”, disse o promotor.
 
“O depoimento dele [Tiago] por si só não nos convence. É um depoimento vazio, desgarrado de provas”, completou.
 
É a segunda bomba jogada contra as investigações da PC alagoana, em menos de uma semana. A primeira veio do resultado do exame das manchas de sangue encontradas no veículo Agile LTZ NMD 6348- supostamente usado no transporte do corpo de Bárbara, conforme defendiam os delegados no início das investigações.
 
A amostra do sangue- assinada pelo Laboratório de DNA Forense da Universidade Federal de Alagoas mostra que o material genético pertence a um homem. Detalhe é que a Polícia Civil escondeu o resultado: ele está pronto desde 25 de fevereiro e é assinado por Luiz Antônio Ferreira da Silva, o chefe do Laboratório de DNA Forense e um dos profissionais mais respeitados do Brasil.
 
Em cinco páginas, Luiz Antônio diz que, das três amostras colhidas no carro, todas indicavam sangue de três homens diferentes. 
 
Este exame só saiu do anonimato porque o portal Cada Minuto adiantou o assunto na semana passada. A Perícia Oficial confirmou o resultado. Foi a Perícia quem solicitou este exame. Na comparação com os dois documentos, é possível perceber a divergência das datas: 25 de fevereiro e 7 de junho- quando foi encaminhado ao juiz John Silas, responsável pelo caso.
 
Enquanto isso, os promotores Marcus Mousinho e Alfredo Gaspar (do Gecoc) tocam as investigações em sigilo porque o caso está sob segredo de Justiça. Novas diligências e provas estão sendo rastreadas, para anexar ao novo inquérito, praticamente refeito e com nove meses de atraso- período que Bárbara saiu de casa para curtir a madrugada em uma boate em Maceió e não mais voltou.
 
"Para nós, a Bárbara continua viva porque ninguém provou a morte dela", disse a avó, Tereza de Jesus. "Nós temos certeza que Bárbara nem era prostituta nem era drogada. E acreditamos que estas investigações vão mostrar isso. E vamos processar os delegados que foram à imprensa dizer o que disseram da nossa menina", afirmou a avó.
 
A Polícia Civil não vai se pronunciar sobre as investigações.