Uma aula de educação ambiental a céu aberto, em contato direto com a natureza e a bordo do Barco Escola do Instituto do Meio Ambiente (IMA). Foi assim o Dia Mundial do Meio Ambiente, comemorado na terça-feira (5), para 40 alunos do Ensino Fundamental da Escola Estadual Senador Teotônio Vilela, localizada no Centro de Ensino e Pesquisa Aplicada (Cepa).

 

Eles chegaram de ônibus escolar, por volta das 14h, ao posto da APA da Ilha de Santa Rita – Área de Proteção Ambiental mantida pelo IMA às margens da Lagoa Mundaú, no município de Marechal Deodoro. As primeiras informações que receberam foram sobre o mangue e as espécies que habitam o manguezal. 

 

A professora Gláucia Esteves, da 15ª Coordenadoria Regional de Educação e uma das organizadoras da Semana do Meio Ambiente, ensinou a diferença entre mangue e manguezal, explicando, ainda, por que as árvores são sustentadas por um emaranhado de caules e falando sobre o caranguejo conhecido como ‘Chama Maré’ ou ‘Xié’. “Mangue é a vegetação; manguezal, o ecossistema que integra todo esse estuário”, destacou a professora. 

 

Segundo ela, o ‘Chama Maré’ é o caranguejo macho, que se diferencia da fêmea por ter a pata direita bem maior que a esquerda. “Como ele movimenta essa pata maior de fora para dentro, vindo e voltando em direção dele, parece que está chamando a maré. Por isso ganhou esse nome, mas na verdade ele faz esse movimento para mostrar o volume da pata e atrair a fêmea. Quanto maior for a pata do caranguejo macho, mais a fêmea se sente atraída”, ensinou Gláucia Esteves.

 

Sete municípios

 

Depois da aula à beira do mangue, os alunos tiveram acesso às informações básicas sobre o passeio de barco e a Ilha de Santa Rita, além dos cuidados que deveriam ter durante o trajeto pelos canais. A consultora ambiental do IMA, Josi Araújo, informou ainda sobre a localização exata do Complexo Estuarino Mundaú-Manguaba, que envolve sete municípios da Região Metropolitana.

 

“Além da capital Maceió, esse complexo estuarino sofre o impacto direto das populações dos municípios do Pilar, Marechal Deodoro, Coqueiro Seco, Santa Luzia do Norte, Satuba e Rio Largo, recebendo as águas dos rios Mundaú e Paraíba do Meio, que deságuam nas lagoas Mundaú e Manguaba”, destacou a consultora ambiental.

 

Também acompanharam o passeio, representando o instituto, o diretor de Desenvolvimento e Pesquisa do IMA, Fernando Veras, Juliana Costa (consultora ambiental) e Ruy Loureiro (estagiário). 

 

Durante o passeio, que durou cerca de duas horas, os alunos ouviram dos técnicos do IMA informações importantes sobre o complexo lagunar. Eles também viram os problemas que a poluição causa às lagoas, principalmente o lixo e o esgoto. Sentiram o mau cheiro vindo do canal do Trapiche quando passaram por um trecho da lagoa Mundaú em direção ao Pontal da Barra. 

 

O ambientalista Fernando Veras informou que pelo menos 14 canais desse tipo deságuam nas duas lagoas, despejando todos os dias uma grande quantidade de lixo, esgoto e outros dejetos. O manguezal, que faz parte do Bioma da Mata Atlântica, segundo o diretor do IMA, também sofre com as erosões, o veneno que vem do plantio da cana-de-açúcar e a poluição provocada pelas indústrias químicas instaladas na região, entre Maceió e o Polo Industrial de Marechal Deodoro. 

 

Berçário natural

 

Fernando Veras falou também dos bancos de areia que provocam o assoreamento das lagoas, comprometendo sua navegabilidade e afugentando várias espécies de peixes. A preservação dos mangues, segundo o diretor do IMA, é de fundamental importância para o ecossistema. “O manguezal é um berçário natural da vida lacustre, o local ideal para a proliferação das mais variadas espécies”.

 

O diretor destacou, ainda, que as lagoas alimentam milhares de pessoas, que vivem da pesca de várias espécies de peixes, moluscos e crustáceos, a exemplo Carapeba, do caranguejo Uça, da ostra e do sururu. “As águas calmas, repletas de nutrientes, quando não sofre os efeitos da poluição, formam o local ideal para a reprodução dessas espécies que habitam as lagoas”, ressaltou Fernando Veras. 

 

Segundo ele, o Projeto Navegando com o Meio Ambiente, desenvolvido pelo IMA, utiliza o barco escola para conscientizar os estudantes da importância de preservar a natureza, de não jogar lixo nas ruas e evitar o consumo desenfreado de produtos industrializados. “O lixo que vocês produzem no Cepa e não é recolhido corretamente vem parar na lagoa, trazido pelas águas das chuvas. Por isso é muito importante colocar o lixo dentro da lixeira”, ensinou.

 

De acordo com o ambientalista, a quantidade de lixo jogado diariamente dentro das lagoas é tão grande que está comprometendo a navegabilidade e provocando a mortandade de várias espécies de peixes. “Além disso, esse lixo despejado nas lagoas chega ao mar e é levado aos mais remotos lugares do mundo pelas correntes marítimas”, destacou Fernando Veras. 

 

Assoreamento

 

“Para se ter uma ideia da quantidade de dejetos descartados indevidamente no meio ambiente, em alguns trechos da Mundaú os pescadores já localizaram até dois metros de lixo no fundo da lagoa”, exemplificou. O assoreamento é, também, outro problema sério que compromete a vida lacustre. 

 

“Antigamente, as pessoas viajavam de barcos de até dois andares, de Maceió para Marechal Deodoro, Coqueiro Seco e Santa Luzia do Norte pelas lagoas. Agora, só os barcos menores e as lanças trafegam pelos canais. Em alguns trechos, que tinham uma profundidade de até 15 metros, agora não chegam a seis metros”, destacou o ambientalista.

 

Fernando Veras disse ainda que o povoamento de espécies exóticas, como a tilápia, também contribuiu para afugentar os peixes nativos, como a carapeba, que está cada vez mais escassa na região. “Se não for feito nada para combater o nível de poluição e o assoreamento das lagoas, o nosso sururu, que é vendido até para os estados vizinhos, vai ficar impróprio para o consumo ou irá desaparecer, comprometendo o sustento de milhares de família que vivem da cultura desse molusco”, enfatiza.

 

Comvida 

 

Para os alunos da Escola Teotônio Vilela, a aula de ecologia foi muito válida. “Além do passeio maravilhoso, aprendemos muito”, afirmou Isabela Pereira, 11 anos, aluna da 6ª série. Integrante da Comissão de Meio Ambiente e Qualidade de Vida (Comvida), ela disse que vai usar os conhecimentos para melhorar seus hábitos e passar as informações importantes aos colegas que não desfrutaram do passeio. 

 

Bruna Gabriele Santos de Oliveira, 14 anos, aluna da 7ª série; e Fernanda Paes de Oliveira, 12 anos, aluna da 6ª série, disseram que já conheciam o passeio pela lagoa, mas nunca tiveram uma aula tão interessante. Já Ana Beatriz Cael da Silva, 13 anos, aluna da 8ª série, disse que foi seu primeiro passeio pela lagoa. “Foi ótimo, não imaginava que seria tudo tão interessante”, afirmou.