Fazer política não é só para políticos, mas só é político quem faz política. Acredito que não haja discussão quanto a isso. Cidadãos devem fazer política porque esta é meio no processo de contribuição social e de mudança, e só poder ser considerado político (agente) aquele que faz política, óbvio.
Mas, finalmente, o que é política? Bem, o conceito pode ser extremamente abrangente e diz respeito à administração pública e tudo o que envolve o interesse público, o convívio em sociedade e os meios para influenciar tudo o que diz respeito à coletividade.
O Brasil, assim como inúmeros outros países do mundo – senão todos –, convive com críticas trágicas e contundentes contra sua classe política, aqueles que possuem mandatos eletivos ou que almejam, muitas vezes a qualquer custo, “taí” um grande problema.
Recentemente a imprensa noticiou a saga hercúlea percorrida pelo governo federal para conseguir a aprovação da Medida Provisória que prevê a privatização (ou concessão) dos portos brasileiros. A ideia é a modernização e ampliação através de investimentos privados.
Para muitos brasileiros a MP é mais que uma boa ideia, mas a única forma viável de tornar o país mais competitivo no mercado internacional e mais atraente ao turismo de cruzeiros marítimos.
Elias Murad, um político mineiro, costumava dizer que “o Brasil progride à noite, enquanto os políticos estão dormindo”.
Talvez um dia Murad tenha tido razão, mas eis que os políticos resolveram não dormir. Iniciada a semana passada sob a pressão de ver aprovada a MP dos Portos, o governo federal pôs em campo todo seu arsenal de “argumentos” para que a MP não perdesse sua validade. Deputados passaram noites em claro, no plenário, para viabilizar a votação.
Vimos 48 horas de muita tensão na Câmara Federal, a oposição preferiu abster-se a fazer “quórum” para viabilizar a votação, visando claramente ganhar tempo para as negociações. Em jogo, interesses, mas não os nacionais.
Sem a menor cerimônia, Deputados transacionavam apoio por emendas parlamentares (por meio das quais eles podem acrescentar novas programações orçamentárias com o objetivo de atender às demandas das comunidades que representam – deveria servir para isso).
No final das contas a MP foi aprovada às 9h45 da manhã da quinta-feira (16), depois de dois dias de muitas discussões, apreciação de mudanças no texto e muitas idas e vindas de deputados. O Senado em seguida votou e aprovou o texto, enviando-o para a sanção presidencial, tudo dentro do prazo limite, mas não sem muita emoção.
Enquanto assistíamos à transmissão ao vivo da sessão insone, pudemos constatar o enorme balcão de negócios que o Congresso Nacional se transformou. A força do Poder Legislativo é essencial a uma democracia e as discussões fazem parte do processo – discussões públicas, frise-se.
Lamentável mesmo foi ver matéria tão sensível ao futuro da nação, à geração de emprego, renda e investimentos ser tratada como moeda de troca. Ver oposição e situação valerem-se de momento delicado não para assumir papel de liderança e de destaque em face das motivações que deveriam ser coletivas e não de jogo político, para se imiscuírem no promiscuidade do “toma lá, dá cá” tão apontado e condenado.
Vê-se com muito mais clareza que ideologia não faz parte das relações político-partidárias, orientações de bancadas eram ignoradas em nome de emendas e trocas convenientes. A situação da MP dos Portos foi vista com muita clareza por aqueles que se preocuparam em acompanhar, mas quantas vezes “chantagens” como essas não ocorrem?
Há quanto tempo isso não ocorre? Resquício da “república café-com-leite”, do regime militar ou simples natureza política dos brasileiros? Difícil de responder sem perder a fé no futuro.
Collor até hoje argumenta que seu “impeachment” foi fruto da insatisfação dos congressistas por não ter sido tão complacente com as negociatas. Teria sido o ano de 1992 a lição que o Congresso Nacional deu aos Presidentes da República sobre a obrigatoriedade do “faz-me rir” legislativo?