Jailza Maria, David Correia, Esmeralda Lourenço, Graça da Silva e Maria Conceição são algumas das pessoas que moram em cerca de setenta casas em uma região do bairro do Tabuleiro do Pinto, em Rio Largo. Em comum, além do local onde vivem há vinte anos, um drama enfrentado toda vez que chove e que nesta sexta-feira (10) voltou a se repetir. Residências invadidas pela água, eletrodomésticos e móveis perdidos, doenças, descaso e esquecimento.
Uma espécie de açude concentra água o ano todo, com isso bastam apenas 20 minutos de chuva para as casas serem invadidas. Dona Jailza conhece bem a situação e já perdeu tanto que os móveis de sua residência agora são quase todos de cimento . Para ela a chuva traz vergonha e medo.
"Na minha casa quase tudo é de cimento, o que não é fica suspenso em cima de madeiras e tijolos, dá até vergonha de trazer visitas. O prejuízo fica também na estrutura, aparede do meu quarto é remendada, toda vez ela racha e meu marido tenta consertar. Vejo a hora de um dia cair com a gente dentro", finalizou dizendo que apesar do sofrimento alguns vizinhos passam por dramas ainda maiores.

Cada um tem as suas histórias e elas não demoram muito a aparecer. Maria Conceição foi visitar a sua casa nesta sexta-feira. Toda vez que começa a chover ela não pensa nem em salvar móveis e eletrodomésticos, a preocupação é com sua filha que é portadora de deficiência e não consegue se locomover, passa o dia inteiro em uma cama.
"Quando percebo que realmente vai chover tenho que ir me acomodar na casa da minha mãe, é complicado porque não há espaço. A água também chega lá, mas é um pouco mais distante e em um terreno mais alto. Fica sempre a esperança de não ficar dentro d´água" revelou.
Para Graça da Silva e dona Esmeralda Lourenço a maior preocupação também é com os filhos doentes. A filha de Graça contraiu um germe que a deixou quase um mês doente, e prejudicou toda a sua pele. A menina fez tratamento e melhorou, mas como em toda chuva volta a ter contato com a água contaminada não conseguiu se curar. O problema do irmão dela é ainda maior. Recentemente ele sofreu um acidente e bateu a cabeça com força, ficando com uma lesão cerebral. Dona Graça conta que ele ainda está internado e que não sabe como levá-lo para casa nessa situação.
O filho de Esmeralda também está muito doente e depende de quimioterapia. Ele deve passar por uma cirurgia em breve, hoje era dia de fazer exame, mas a casa e as ruas alagadas impediram a locomoção.
"Meu filho tem um sério problema, faz tratamento e já está com cirurgia marcada. Agora nem sei o que vai acontecer, já que para a operação é necessário estar com os exames, que a gente não conseguiu sair para fazer", lamentou.

Apenas observando as denúncias em um canto calada estava Maria da Conceição. Ao falar dos problemas de saúde os vizinhos logo apontaram para ela. A mulher tem tuberculose, o marido também, com um olhar típico de quem está perdendo as esperanças ela se resumiu a dizer que estava esquecida. Ao ouvir o relado, um outro morador, David Correia, quis a palavra.
"Esquecimento que não é recente. Em 2003 passamos pela maior cheia, a água quase chegou no teto. Desde então a única coisa que tivemos foram promessas não cumpridas", completou.
A promessa de que David e todos os outros moradores falam é da mudança para casas em outro local. Segundo eles, há anos os órgãos públicos se comprometeram em transferir todos, o que aconteceu apenas com três famílias. Os que continuam nas casas já passaram por diversos cadastramentos, mas não tem previsão de quando vão sair do sufoco que já causou até situações inusitadas.
"Um senhor que também mora aqui, em uma dessas enchentes, disse que tava cansado de viver dentro d´água e foi morar em um coqueiro. Achamos que era brincadeira, mas ele pegou um colchonete, subiu e ficou por lá", contou Dona Jailza.
Ela nem chegou a terminar a história e foi imediatamente interrompida por um morador que passava pelo local. Caminhando na rua alagada ele chamou a atenção revelando um pensamento que era seu, mas parecia de todos.
"Agora a situação ainda está boa, parece que Deus está tendo piedade da gente, mandando uma chuvinha e segurando ela em seguida. Ninguém olha para a gente e a gente continua a olhar para o céu só imaginando quando a próxima chuva vai cair", disse o senhor.












