A cidade de Palmeira dos Índios é palco de uma discussão que se arrasta há décadas. Trata-se da demarcação de terras indígenas destinada ao grupo Xucuru Kariri. O tema estará em pauta nesta sexta feira(26), pelo senador trabalhista Fernando Collor.

A reunião se dará nas dependência do Sindicato dos Trabalhadores de Palmeira dos Indios, para comentar sobre a demarcação indígena que ora leva muita preocupação entre população, proprietários de terra e os índios.

O Ministério Público Federal em Alagoas (MPF/AL) acumula as informações atinentes ao caso há pelo menos 15 anos. Atualmente, o assunto é tratado pessoalmente pelo procurador da República José Godoy Bezerra de Souza e pelo analista pericial do órgão, o antropólogo Ivan Farias.

A reivindicação dos índios Xucuru Kariri vem desde a década de 1950. Os estudos mais recentes (2010), trazidos pela Fundação Nacional do Índio (Funai), apontam que a demarcação deveria ser feita numa área de 7.073 hectares. No entanto, o processo demarcatório encontra obstáculos na complexidade do assunto e nos diversos interesses divergentes.

No momento, o processo carece de demarcação física e avaliação das benfeitorias visando a indenização daqueles que possuem imóveis na terra indígena. Os recursos necessários dependem de orçamento da Funai e não são poucos. Hoje, na área que deveria ser devolvida aos índios, vivem 463 famílias de pequenos produtores.

"Uma de nossas maiores preocupações é garantir a tranquilidade desse processo, reunindo todos os agentes públicos envolvidos visando uma solução que não gere conflitos. Os índios em Alagoas vivem numa situação de extrema pobreza, e do outro lado estão os posseiros, também pobres, que precisam ser assentados em outro lugar sem agravamento da situação", explicou o procurador José Godoy Bezerra.

Legislação - O direito dos indígenas às terras tradicionalmente ocupadas está previsto mais especificamente no art. 231 da Constituição Federal. "A devolução das terras é uma dívida da sociedade brasileira para com esta comunidade", definiu José Godoy Bezerra.

Outro ponto da discussão é que a demarcação afetaria o desenvolvimento da cidade. "Essa é uma questão ultrapassada. Em Alagoas, os índios Tuingui Botó do município de Feira Grande são os maiores produtores de batata doce do Estado. Na cidade de Joaquim Gomes, a produção de mel pelos Wassu Cocal é reconhecida nacionalmente”, revelou o antropólogo Ivan Farias.

Retrato de uma história - Durante a reunião, foi concedida a palavra ao Xucuru Kariri Antonio Celestino. Com 74 anos, o índio lembrou que, quando menino, foi obrigado a "roubar" peixes e mangas nas terras que um dia foram de seus antepassados. "Para não morrer de fome, eu me vi obrigado, ainda menino, a 'roubar' peixe nos rios que eram do meu povo, a pegar manga escondido. Não quero isso para esse menino!”, contou emocionado. A criança apontada era um indiozinho de três meses, Welisson, o caçula dos Xucuru Kariri.

Desdobramentos - A partir da reunião, convocada pelo deputado Ronaldo Medeiros (PT), ficou acertada a criação de um grupo de trabalho permanente para tratar sobre a demarcação. O procurador da República José Godoy propôs a realização de um estudo sobre o perfil dos posseiros da terra. "A partir desse estudo, poderemos propor compensações adequadas e realizar o processo de demarcação de forma menos traumático", declarou José Godoy.



Dados sobre os Xucuru Kariri

Localização: Palmeira dos Índios

População: 3.415 indígenas distribuídos em 607 famílias

Vivem em oito aldeias independentes: Fazenda Canto, Mata da Cafurna, Cafurna de Baixo, Capela, Boqueirão, Coité, Serra do Amaro e Monte Alegre

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