Fazia tanto tempo que não encontrava com minha amiga Maria Gorety.
 
Cruzamos no shopping hoje. Somos vizinhos. Ela me olhou, virou o rosto. Fiquei preocupado. 
 
Eu estava bem vestido: uma camisa de botão, uma calça jeans, um sapato social. Até cortei os cabelos.
 
Talvez não me viu. Mesmo assim, eu admiro a minha amiga Maria Gorety.
 
É verdade. Ela está diferente. Subiu e tem o céu como limite.
 
Minha amiga- amicíssima- nasceu no interior. Casou-se cedo com um figurão do sul.
 
Achei estranho que minha amiga se separou e lutou para evitar um vexame: uma ligeira mudança no nome. 
 
Quando conheci Maria Gorety, o nome dela terminava com "i". A gente brincava:
 
- I de pobre, não?
 
Ela fechava o rosto, levantava a sobrancelha, fincava os olhos- quase sem expressão- no "inimigo"- na verdade, um amigo tirando um sarro. Brincadeiras onde apenas um ri. 
 
Pois conseguiu o "y" de rico do ex-marido e virou Maria Gorety.
 
Subiu. Virou a mulher que sempre está procurando alguma coisa, lá na República das Bananas. Dizem que as aves de lá não gorjeiam como as daqui.
 
O poeta me desculpe. Falta-me imaginação para criar uma metáfora.
 
E imaginação e bondade não faltam para minha amiga. 
 
Arrumou logo a vida da irmã: um emprego. 
 
E o cunhado? tascou um contrato milionário. Coisa grande, de luxo.
 
Conheço minha amiga: ninguém nega nada para aquele olhar fulminante:
 
- Todos têm QI.
 
Manda até nos bichos. A casinha da minha amiga foi feita em cima de um brejo. Pois não é que os sapos reclamaram? Olhar mortal neles.
 
Você duvida da minha amiga? Pergunta pro pessoal da luz:
 
- Quando a gente descobriu o gato, ela miou lá de dentro. Virou uma fera. Daqueles olhos saíram faísca, disseram para mim. 
 
Minha amiga é temperamental. Não entendem que fazer o povo de gato e sapato é uma coisa das nossas origens. Veio das caravelas. 
 
Minha amiga é assim: especial como a tripulação de Cabral. Ou dom João.
 
Parece que agora a Maria Gorety quer algo maior: mandou tirar o nome da sede da República das Bananas. 
 
- Nada de bananas. Minha homenagem vai para os gatos, os tolos e os loucos, disse, apalpando o bolso.
 
Eu nem quis saber o que tinha naquele bolso. 
 
Duvida? Vai lá encarar os olhos da minha amiga.
 
Eita Maria Gorety. Meu sonho é ser você.