A loucura, tratada por alguns de forma poética, por outros como falta de princípios morais e pela ciência como doença, ainda é motivo de muita discussão quanto às formas de tratamento mais adequadas e ao diagnóstico.
A associação entre o que é dito normal pela sociedade e um comportamento fora do padrão fez surgir infames piadinhas como: você é louco de tomar banho frio no inverno?, fulana é louca por estar apaixonada por beltrano e por aí vão as associações indevidas relacionadas à loucura e todo o estigma que essa doença ainda provoca entre pessoas de todos os níveis.
Várias são as formas de abordagens sobre a loucura. O que é considerado insanidade por uns pode apenas ser uma distorção de pensamento.
Segundo o dicionário, a loucura ou insânia é à luz da psicologia uma condição da mente humana caracterizada por pensamentos considerados anormais pela sociedade. É resultado de doença mental, quando não é classificada como a própria doença.
Assim como a sociedade se reinventa e recria valores e conceitos, a loucura sempre foi um estudo latente que a ciência vem descobrindo aos poucos toda a sua complexidade. Considerada uma doença democrática, que não escolhe idade ou classe social, é revestida de muito preconceito, seja o paciente de uma classe mais humilde ou com uma condição mais privilegiada.
O psiquiatra e diretor do Hospital Escola Portugal Ramalho (HEPR), unidade hospitalar pública que trata de pacientes com distúrbios mentais, Audenis Peixoto comenta que “teoricamente não deveria existir diferença entre os pacientes dos hospitais psiquiátricos públicos e privados.

A política nacional de saúde mental permite que se promovam convênios com hospitais privados com as mesmas orientações dos públicos. Estas prerrogativas acompanham o desenvolvimento do projeto de reforma psiquiátrica”.
Na prática, em Alagoas o único hospital que funciona como emergência e que interna pacientes 24 horas por dia é o HEPR.
“Há algumas posturas de outros hospitais, possivelmente em combinação com os seus gestores maiores, que dão direito a que eles peçam que os pacientes mais complicados com quadros psicóticos, agressividade e dificuldade de tratamento fiquem no Portugal Ramalho e não sejam internados na rede privada. Isso com certeza é um dos motivos que provoca uma constante superlotação do Portugal Ramalho”, destacou Peixoto.
No HEPR, que é um Hospital escola com ênfase na assistência, existe a disponibilidade de 160 leitos no total, distribuídos em 95 para os pacientes masculinos, sendo 27 destes para dependentes químicos e seis para menores de 18 anos, além de 65 leitos femininos.
Quanto à internação de pacientes com dependência química, no hospital psiquiátrico existem muitas adversidades. “Os dependentes químicos têm quadros diferentes de pacientes com patologias mais graves”, destacou o diretor.
A demanda do Portugal Ramalho é intensa. A todo instante chegam ambulâncias do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) com pedidos de internação para pacientes com retardo mental ou patologias mais graves, como os psicóticos.
“Os trabalhadores do Samu têm orientação de encaminhar esses casos ao HEPR, principalmente porque muitos são indivíduos sem vínculos familiares encontrados na rua, o que ocasiona uma maior dificuldade para o trabalho do serviço social e a instituição como um todo”, destacou Peixoto.
Os esquecidos
Dos 160 pacientes, 30 foram abandonados pela família. “Não temos ideia de onde encontrar os familiares. Não há contato com nenhum parente ou sequer conhecido. Perderam totalmente o referencial de família ou qualquer outro significado que isso possa ter”, revelou o diretor.
Quanto à vida fora da unidade, Peixoto revela que alguns pacientes que moram no hospital não têm condições de viver sozinhos. Os motivos que impossibilitam essa ‘sobrevivência’ são os mais variados e vão desde problemas clínicos gerais, neurológicos até sequelas de suas patologias anteriores.
Uma saída para tentar ressocializar esses indivíduos seria a criação, por parte da esfera municipal, de comunidades terapêuticas para abrigar essas pessoas. Hoje há uma casa em Fernão Velho e outra no bairro do Tabuleiro do Martins onde os pacientes vivem com autonomia, porém estão sob os cuidados de uma cuidadora e vivem de suas aposentadorias.

Patologias
Em termos de internação quase 80% sofrem de esquizofrenia e quadros psicóticos, além dos casos de dependência química. Menos de 20% dos pacientes dão entrada na unidade hospitalar com transtornos do humor, psicoses epilépticas e retardos mentais.
Já os casos ambulatoriais revelam um grande índice de transtornos de ansiedade, esquizofrenia e transtorno do humor. Há grande incidência de casos de depressão e recentemente há registros de muitos pacientes acometidos de transtornos de personalidade.
“Os casos de menores de idade com transtornos mentais também tem aumentado. A procura é muito grande. Como temos apenas seis leitos, a maioria é ocupada por dependentes químicos que vem com ordem judicial requerendo a internação”, destacou Peixoto.
Cuidar do cuidador
O profissional da saúde, não só da saúde mental, mas da saúde como um todo no Estado de Alagoas, está adoecendo muito. O diretor do HEPR comentou que recebeu da diretora do Hospital Geral do Estado (HGE) um ofício pedindo uma parceria para atender os casos psiquiátricos que estão acontecendo lá.
“Também recebemos da Secretaria de Educação uma solicitação de atendimento para os professores e outros profissionais que estão lotados lá”, revelou Peixoto.
Uma saída para minimizar o stress dos profissionais que cuidam da saúde pública em Alagoas seria que “os gestores priorizassem o concurso público, melhores condições salariais que possam contemplar a toda essa população de trabalhadores que tanto se esforça para atender à comunidade e que não tem o reconhecimento adequado”, desabafou o diretor.
Terapia e arte
Com mais de 20 anos dedicados a cuidar e alegrar os dias dos pacientes do Portugal Ramalho, o psicólogo e coordenador da recreação João Netto desenvolve atividades lúdicas e terapêuticas.
“É muito bom ver a evolução do paciente dentro da recreação. A comunidade apoia os nossos trabalhos. A presença dos familiares e da sociedade como um todo são um reflexo fiel que estimula pacientes e funcionários a se empenhar nas atividades artísticas”, disse João Netto. A festa de São João, o Dia dos Pais e das Mães, o tradicional Bloco Maluco Beleza e a festa da escolha da Rainha da Primavera já fazem parte do calendário oficial de comemorações do Hospital e toda a comunidade prestigia.
A presença dos internos nas oficinas é opcional. Segundo Netto, “alguns deles vem apenas para ler uma revista, uns vem conversar e outros vem desenvolver alguma atividade. Existem também aqueles que são frequentadores diários. A melhora é visível. Temos o caso de uma paciente que ficava trancada, reclusa devido à sua extrema agressividade. Depois de participar das oficinas ela se transformou. Se tirarem ela das atividades artísticas vão tirar o chão dela”, reforçou o psicólogo.
O material confeccionado pelos pacientes, como tapetes e outros objetos de decoração, são comercializados e o lucro é entregue para cada um.
“Quando têm consciência do que fazer com o dinheiro saímos com eles e compramos o que eles querem. Alguns querem produtos de higiene pessoal, como sabonete, creme, maquiagem e coisas de beleza feminina. Já outros optam por sandálias, brincos e roupas. Uns mais gulosos só gostam de lanchar. Esse é também um processo de ressocialização. Já outros precisam de orientação pois não sabem a diferença entre R$ 1 e R$ 100”, destacou Netto.
Os moradores
Paciente e moradora do HEPR há mais de 20 anos, Cleo é natural de Maceió e a única informação que se tem de seus familiares é que eles são das cidades de Cajueiro e Paulo Jacinto.
Cleo falou à reportagem do CadaMinuto que no hospital é que encontrou uma verdadeira família. “Gosto de ficar aqui e fazer tapetes. Com dinheiro eu vou passear e compro coxinhas e risoles”, revelou rindo
Hoje com 42 anos de idade, Cléo diz que, às vezes, apanha de outras pacientes e isso a deixa triste. “Gostaria de ir morar numa casa de família para que eles pudessem cuidar de mim, mas se não for assim prefiro ficar aqui. Aqui eu sou feliz. Não sei onde estão meus parentes. Queria dizer pra minha tia que a amo muito e gostaria que ela viesse me visitar”, disse aos prantos, com a inocência de uma criança.
Outro ‘morador do hospital’ é Josinaldo. Internado há mais de um ano, ele comentou que foi levado para o HEPR porque derrubou uma telha na casa de um vizinho e estava sem tomar os medicamentos. Extremamente tranquilo e com uma fala mansa e pausada, disse que gosta de participar do projeto de reciclagem e convidar pessoas para trazer o lixo reciclável.
Josinaldo morava com o padrasto, a mãe e o irmão. “Eles não vem me visitar, mas tenho contato com eles. Quando sair quero ficar em casa e tomar os remédios. E a primeira coisa que vou fazer é tomar um bom banho e dizer assim ‘estou livre’”, concluiu o paciente.

