Todas as pessoas envolvidas com as ações e projetos desenvolvidos pelo Instituto Biota possuem pelo menos duas coisas em comum: amizade e amor para realizar esforços a fim de manter a ONG viva. Foi com essa determinação que há quatro anos o então estudante de Biologia Bruno Stefanis reuniu amigos e decidiu levar a frente um projeto que começou na faculdade. Além de resgatar animais marinhos, outros projetos voltados para a comunidade de Riacho Doce são desenvolvidos com o objetivo de mostrar que é capaz cuidar do meio ambiente e de todo o conjunto que o cerca com ações simples.

Mas como nem tudo são flores, para se desenvolver projetos, é necessário apoio financeiro para cobrir gastos e futuros investimentos, e, alguns projetos estão parados à espera de algum edital ou investimento para voltar à ativa.

O Biota surgiu da insistência de Bruno em apostar na ideia de que era possível cuidar de animais marinhos em Alagoas, mesmo sem nenhum registro de pesquisa voltado para o tema. Ainda estudante do Cesmac, Bruno largou emprego de carteira assinada e viajar para o Ceará e Paraíba para adquirir conhecimento para criar a ONG.

“Eu era consultor em uma empresa, tinha carteira assinada e larguei tudo para me dedicar ao Biota. Quando eu dizia na sala de aula que ia trabalhar com tartarugas marinhas, virava piada entre alunos e professores. Eles diziam que não daria certo por não ter nenhuma pesquisa voltada ao assunto. Fui para vários institutos do Nordeste fazer estágio e quando voltei fundei com minha esposa, minha irmã e outros amigos o Biota”, contou.

Apesar de o sonho ter se tornado realidade e contribuído para mais de 150 resgates de animais marinhos ao longo dos últimos três anos, Bruno diz que tenta conciliar o tempo com outras atividades para manter suas despesas, já que os R$ 120 reais arrecadados mensalmente mal cobrem os custos do espaço.

 “Todo mundo do Biota trabalha em algum lugar para conseguir se manter. Hoje eu sou autônomo e me divido fazendo análises microbiológicas, trabalho também com turismo em Paripueira levando turistas às piscinas naturais, além de fazer consultorias e projetos. Queria muito conseguir uma forma de alavancar o Biota para me dedicar exclusivamente a ele”, afirma.

Futebol sustentável

Apesar de não ser biólogo, Magayver James Lins criou um projeto para crianças e adolescentes da região onde ele trabalhava a preservação ambiental através do esporte. A ideia deu forma ao Biota Futebol Clube. Sem recursos, o projeto durou apenas um ano, mas conseguiu despertar nos jovens inseridos a importância de cuidar do meio ambiente e principalmente dos animais marinhos.

Magayver nasceu em Riacho Doce e conhece Bruno desde que era criança. Os dois seguiram caminhos profissionais diferentes. Bruno é biólogo e Magayver é administrador de empresas. Porém, a preservação dos animais e da região os juntou novamente para a criação do Instituto.

“Quando o Bruno criou o Biota mostrei a ele o meu projeto para trabalhar com as crianças da região e ensinar a elas a importância de preservar o meio ambiente. Fundei o Biota Futebol Clube e ao longo do ano de 2009 consegui juntar várias crianças e adolescentes do bairro no time. Para participar eles tinham que manter frequência e boas notas na escola e aqui nós ensinávamos a eles coisas ligadas ao meio ambiente. Foi um trabalho importante porque além de tudo, quem estava no projeto se livrava de ficar na rua e ter contato com drogas ou outro tipo de coisa”, explica.

Durante o tempo em que foi associado à ONG, ele também se revezava entre um emprego e as atividades do Biota. “Eu tinha que trabalhar para manter minhas despesas pessoais, já que lá [no Biota] eu não ganhava salário, ganhava muito conhecimento”, afirmou.

Hoje ele ainda continua ajudando como pode Bruno e os demais membros da ONG. Quando não tem voluntário, Magayver conta que se dispõe a ficar na sede para receber o animal encalhado, arrumar as acomodações e ir até buscar água do mar.

“Mantenho contato com o Bruno sempre, hoje estou mais afastado por conta dos estudos e do trabalho, mas ainda vou com eles fazer panfletagem em barracas da orla para alertar barraqueiros e pescadores de como proceder com animais que encalham nas praias, também participo de resgates e nascimento de tartarugas, mas quero mesmo é voltar com o time para ajudar os meninos aqui do bairro”, coloca.

A escola, Riacho Doce e o Meio ambiente

Às margens da rodovia AL-101 Norte, Riacho Doce é um dos bairros de Maceió que encanta por misturar tradição e belezas naturais. O local ficou famoso por ser pano de fundo para o romance escrito pelo escritor paraibano José Lins do Rego, que posteriormente deu origem a uma novela.

Apesar dessa projeção, muitos detalhes ainda são desconhecidos dos moradores da região. Em 2010, a bióloga e esposa de Bruno, Erivânia Araújo se juntou com mais algumas pessoas do Biota para buscar uma forma de aproximar estudantes do bairro às belezas naturais e da história local através do projeto ‘Minha Escola, Meu Bairro, Nosso Ambiente’.

“O projeto consistia em trabalhar as coisas tradicionais e as belezas naturais do bairro, para que os alunos passassem a olhar de outra forma para o lugar onde eles moram. Os professores teriam que incluir um pouco mais do dia a dia deles nas aulas, sair um pouco dos exemplos do livro e usar o ambiente que eles conhecem”, explica Erivânia.

Além do trabalho em sala de aula, os alunos eram levados por voluntários do Biota para conhecer mangues, praias e a trilhas ecológicas na região. Nessas imersões, os alunos tinham noções de preservação ambiental.

 “O projeto acabou parando porque tínhamos poucos voluntários realmente dispostos a tocar a ideia, depois alguns professores acharam legal, mas poucos de fato incentivaram. A direção da escola prometeu ajudar com materiais escolares, mas esses materiais nunca chegaram aos alunos. O Biota não tinha como manter os custos e fazíamos o que estava ao nosso alcance”, lembra a bióloga.

Hoje, dos projetos desenvolvidos pelo Biota, apenas os projetos voltados para a conservação da vida marinha ‘Cetáceos Alagoas’ e o ‘Protarta’ continuam ativos. Um dos grandes desafios para manter as ações além da falta de verba é conseguir encontrar pessoas com o perfil voluntário que a ONG precisa.

“São quase quatro anos de trabalho para se conseguir reconhecimento. Não temos muito dinheiro para custear o pessoal e aqui no Biota se trabalha muito”, observa Erivânia.

Enquanto os investimentos para alavancar projetos e dar uma estrutura física que comporte animais em reabilitação não chegam, quem compõe o instituto continua se dividindo em várias atividades para manter suas finanças e de prontidão para continuar resgatando mais animais litoral a fora.

“Queremos expandir nossas ações, mas ainda não surgiu ninguém realmente compromissado com a causa para ajudar a gente no que precisamos. Enquanto isso não acontece, continuamos trabalhando muito e plantando nossas sementes”, finaliza Bruno.